o riachense

SŠbado,
20 de Abril de 2019
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Minimercado Velez, antiga loja da Pipa

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Dos anos 1940 at√© hoje, passou de Taberna do Pipa, para a Taberna da Pipa, para o Mini-mercado do Velez, tr√™s gera√ß√Ķes.
‚ÄúTemos o Manel Chora Pipa / O melhor do Lagar Novo‚ÄĚ √© assim que os versos feitos h√° muitas d√©cadas por um homem chamado Marmelo chegam √† taberna no Lagar Novo e que come√ßam assim: ‚ÄúDia vinte vou √† inspec√ß√£o / Hei-de ficar apurado / Adeus tabernas de Riachos / Onde me tenho embebedado‚ÄĚ. S√£o 14 quadras que s√£o um aut√™ntico roteiro das 23 tabernas que havia na altura, em todos os cantos da aldeia que Riachos era ent√£o.
 
Jos√© J√ļlio Gra√ßa Velez lembra-se dos tempos em que a rapaziada anterior √† sua gera√ß√£o, por alturas de ir √† inspec√ß√£o, fazia longas farras pelas ruas de Riachos, com os seus barretes, ‚Äúandavam a noite toda a deitar foguetes e era nas tabernas que paravam para malhar vinho‚ÄĚ.
Nunca conheceu o seu av√ī, mas conhece a hist√≥ria da casa que veio depois a transformar no mini-mercado do Lagar Novo. Manuel Chora da Gra√ßa era conhecido por Manuel Chora Pipa. De onde vir√° a alcunha ‚ÄúPipa‚ÄĚ de uma fam√≠lia bem grande √© uma boa pergunta, daquelas que ficam sem resposta exacta.
 
Segundo o Velez, o seu av√ī construiu a taberna e loja a pensar no futuro da filha mais nova (a sua m√£e, Maria Lu√≠sa Concei√ß√£o Gra√ßa Velez, nascida em 1920), algures j√° perto da d√©cada de 1940. Os outros nove filhos j√° trabalhavam no campo.
Manuel Pipa era agricultor e foi sempre a filha que tomou conta da loja e da taberna, ainda em solteira. Casou-se já com 35 anos com João Baptista Velez, trabalhador da fábrica do álcool, quando já era senhora do estabelecimento, com o seu pai já falecido. A taberna e loja da Maria Pipa durou até à década de 1980, quando a firma ficou para o filho.
 
O Jos√© J√ļlio Velez, nascido em 1955, lembra-se das batatas, cebolas, arroz, massa e dos gr√£os, que vinham a granel e eram depositados nas tulhas, nos antigos arm√°rios de mercearia, de onde se tiravam medidas para os clientes das redondezas. Para a taberna, entrava-se na porta ao lado e n√£o havia hor√°rio certo, era ‚Äúde dia e de noite‚ÄĚ. √Ä hora de almo√ßo fechava-se a loja mas a taberna ficava aberta, para atender algu√©m que passasse.¬†
 
Quando se entrava deparava-se com o balcão que tinha um tampo de pedra mármore, mais tarde substituído por um com revestimento de fórmica. Havia dois elegantes bancos corridos, do género de bancos de jardim, onde os clientes se recostavam por uns momentos a descansar. Eram consumidores de passagem. Velez lembra-se que não era taberna de estar, era taberna de beber. Os clientes, maioritariamente pessoal que trabalhava nas fábricas e armazéns da zona da estação, aproveitavam a excelente localização da taberna, a caminho do trabalho ou de casa, para beber mais um copo. Velez lembra-se de muitas caras desse tempo.
 
Vinho, tabaco, gasosas e cervejas era o que se vendia. O tinto e o branco vinham de Alpiar√ßa, de um produtor que era o Camarinhas (pode ler-se o carimbo no barril da fotografia), chegava em barris e sa√≠a em copos de meio litro e de metade (2,5 dl.), por vezes num ou noutro garraf√£o que as pessoas abasteciam para levar para casa. Os populares copos de meio litro, que ca√≠ram em desuso nos nossos caf√©s, ‚Äúeram muitos‚ÄĚ, lembra o Velez. Antes de ir para a tropa j√° os aviava, principalmente nas f√©rias da escola.¬†
A seguir ao 25 de Abril e aos 18 meses de tropa, empregos n√£o havia, e foi ficando. Trabalhou sempre ali.
 
A primeira remodelação aconteceu na parte da loja, no final da década de 1970. Desapareceu a parede que dividia o espaço ao meio, com um armazém que havia lá atrás. Fizeram-se melhoramentos e instalaram-se as prateleiras dando-se assim início ao self-service pelos clientes.
A taberna fechou em 1986, foi então que se tirou também essa parede e ficou a casa ampla do mini-mercado tal com o conhecemos hoje.
Quando ficou com a firma, Jos√© J√ļlio Velez lembra-se que o neg√≥cio desenvolveu-se um bom bocado. Agora o sentido √© o inverso, √© o do retrocesso. ‚ÄúIsto vai caindo por muitos motivos. H√° uma tend√™ncia para isto mudar tudo, e os clientes mais velhos, tamb√©m come√ßa a n√£o haver tantos‚ÄĚ, responde quando lhe perguntamos como vai o neg√≥cio. Mas ressalva: ‚Äúquando abriram os hipermercados houve uma quebra que n√£o foi t√£o significativa como √© agora‚ÄĚ.
 
As quebras das vendas j√° v√™m de h√° algum tempo, mas acentuaram-se nos √ļltimos anos: ‚Äú[a responsabilidade] √© tamb√©m a concorr√™ncia, mas temos um governo que n√£o simplifica, n√£o nos ajuda‚ÄĚ. Todos os anos surgem regras novas e exig√™ncias que s√≥ complicam a vida ao pequeno com√©rcio, que j√° vive num contexto socioecon√≥mico que n√£o lhe √© nada favor√°vel. A clientela diminui e os pre√ßos tamb√©m, um quilo de a√ß√ļcar j√° se vendeu por quase o dobro do pre√ßo que se vende hoje.
 
‚ÄúPor amor de Deus, digam tudo o que querem de uma vez por todas e n√£o andem todos os dias a pedir coisas novas, que acabam por nos encarecer as coisas. Por exemplo, isto da inform√°tica √© uma coisa impressionante. As leis caem em catadupa, nomeadamente com as actualiza√ß√Ķes dos programas‚ÄĚ, queixa-se antes de explicar que nos √ļltimos dois meses j√° fez duas actualiza√ß√Ķes do sistema inform√°tico. A mais recente √© para fazer o envio dos invent√°rios com o ficheiro SAFT para as Finan√ßas. ‚ÄúTemos de fazer sempre conta com mais n√£o-sei-quanto para o t√©cnico [de inform√°tica]. Penso que os nossos governantes acham que somos todos ricos e podemos todos fazer isto‚Ķ Mas n√£o √© bem assim. Com estes custos, alguma coisa que podia ficar n√£o fica nada, vai-se tudo‚ÄĚ, resume, a meia d√ļzia de anos da reforma.
 
Jos√© J√ļlio Velez e Mila Luz Velez gerem a actual loja desde 1987¬†
João Velez e Maria Pipa na taberna durante a década de 1960 
Actualizado em ( Ter√ßa, 13 Janeiro 2015 12:40 )  
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