o riachense

TerÁa,
19 de Setembro de 2017
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A grande feira de todas as contradi√ß√Ķes

Por motivos vários, caminho com muita frequência para a Golegã. Já este fim-de-semana por lá andei e não pude deixar de notar como a terra é diferente durante a feira de São Martinho e, depois, na sua normal pacatez. Onde bebemos uns copos são agora espaços vazios de tudo. Restam uns lixos por aqui e acolá, ainda algumas barracas por desmontar. De resto, o silêncio, muita casa fechada, muitas placas com a inscrição: vende-se.

Quando escrevi nestas p√°ginas, ap√≥s as festas da B√™n√ß√£o do Gado o t√≠tulo de um artigo: ‚ÄúRiachos em ponto morto‚ÄĚ, lembrei-me que a Goleg√£ tamb√©m tem o seu ponto morto. Se calhar, √© a vida das pequenas localidades que √© mesmo assim e as festas n√£o passam de mera ilus√£o. Mas n√£o √© sobre a Vila da Goleg√£ que me apetece tecer uns coment√°rios. √Č sobre a feira de S√£o Martinho e a Feira Nacional do Cavalo.

Porque raio de carga de √°gua √© que continuo a tirar uns dias de f√©rias para poder gozar a feira as horas e os dias que me apetecer? L√° encontro muitos amigos. Mas n√£o encontro outros amigos, e dos bons, porque n√£o p√Ķem l√° os p√©s. Exercem at√© uma certa objec√ß√£o de consci√™ncia. E isto porqu√™? Talvez porque a feira seja uma convuls√£o de interesses e palco para todas as contradi√ß√Ķes.

√Č o neg√≥cio da feira de prov√≠ncia. √Č o povo que chega em excurs√£o e anima as ruas com as suas concertinas, a sua boa disposi√ß√£o e as cantorias das gargantas afinadas pela √°gua-p√© que ainda mal teve tempo de assentar.

Do outro lado, é aquele povo que diz que não pertence ao povo. Veste à inglesa mas também apanha com grandes carraspanas, embora possa não ser de água-pé. E no meio desta embrulhada, por lá andam muitos cavalos. Uns coxos, outros pencos, uns quantos bons e alguns muito bons. E é assim que se faz a feira nacional do cavalo.

A feira das tascas tem o outro lado da feira das tert√ļlias, da entrada por convite, das noites de ‚Äúglamour‚ÄĚ. N√£o sei se tinha a vista turva pelo fumo dos assadores de castanhas ou se a goela desentaramelada por meia cana de √°gua-p√©. Mas, perante um convite que me fizeram para uma dessas festas ‚Äúdo lado de l√° do povo‚ÄĚ, recusei com o argumento mais ou menos assim: eh p√°, n√£o vou. Porque eu venho √† Goleg√£ √© pelos cavalos! Esse pessoal que vem a√≠ s√≥ para se promover, que s√≥ distingue um cavalo de uma vaca porque normalmente v√™ as pessoas em cima dos cavalos e n√£o √© h√°bito v√™-las em cima das vacas, isso √© ambiente que n√£o me interessa. (Depois desta conversa, fiquei com remorsos de ter sido r√≠spido com a pessoa. Da pr√≥xima vez que estivermos juntos, pe√ßo-lhe desculpa).

Mas a feira √© tamb√©m esta ilus√£o da estratifica√ß√£o social. A feira da ostenta√ß√£o, dos grandes neg√≥cios. A feira de vaidades, como muita gente a apelida. Mas √© igualmente a feira dos que n√£o t√™m onde cair mortos. A feira que √© transversal dos ciganos at√© aos crentes na corrente do sangue azul. Ser√° por isto que n√£o se √© indiferente √† feira da Goleg√£ neste ambiente inigual√°vel onde se conjugam os polos de atrac√ß√£o e repuls√£o? Esta feira de todas as contradi√ß√Ķes como agora lhe chamo, √© tamb√©m a feira de todos os imprevistos. Numa das minhas desloca√ß√Ķes √† feira, num dia que deu direito a romaria, discurso de ministro e b√™n√ß√£o, acabei por dar boleia no meu carro de cavalos a um Padre que n√£o conhecia, mas que, tamb√©m ele, precisava de ir para o Arneiro, local de todos os encontros. Na conversa que tivemos, logo se abordou este ambiente muito pr√≥prio das gentes viverem a feira do cavalo e de como √© preciso compreender estes modos diferentes de a viver e de como os dias de hoje s√£o t√£o diferentes de ontem e as noites de S√£o Martinho‚Ķ impr√≥prias para padres.¬†

Passei mais uma feira do cavalo com muitas horas gastas quer a dar o melhor que posso e sei nas minhas participa√ß√Ķes no desporto equestre, muitas conversas, uns petiscos e uns copos quanto baste.¬† No final, o que ficou? Apesar de todas estas interroga√ß√Ķes, ficou, naturalmente, a vontade de continuar a rumar √† Capital do Cavalo. Porqu√™? Porque se apreciam excelentes exibi√ß√Ķes equestres, quer na vertente desportiva, na equita√ß√£o cl√°ssica ou no espect√°culo equestre. √Č ali, num palmo de terra, que vemos evoluir a ra√ßa do nosso cavalo lusitano, um orgulho nacional reconhecido internacionalmente. Enfim, √© o cavalo que interessa (para quem gosta, √© claro). O resto √© acess√≥rio.

Actualizado em ( Quinta, 24 Novembro 2016 12:37 )  

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