o riachense

SŠbado,
30 de Setembro de 2023
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Joaquim Alberto

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A festa da Bênção do Gado

¬†Creio que o nosso jornal √© um excelente meio para discutirmos a melhor maneira de vivermos neste mundo, em especial na nossa terra. Creio tamb√©m que uma das melhores realiza√ß√Ķes colectivas dos Riachenses √© a Festa da B√™n√ß√£o do Gado. Creio tamb√©m que a discuss√£o com a cabe√ßa fria ajuda mais ao progresso das ideias do que a discuss√£o com a cabe√ßa quente, como me pareceu que foi o caso quando a C√©lia Barroca e o Carlos Tom√© iniciaram o debate no m√™s de Setembro passado. Por isso creio que ser√° bom para a pr√≥xima Festa come√ßarmos a reflectir publicamente a partir de agora. J√° passou o tempo suficiente para que as pessoas sejam capazes de discutir com serenidade e ainda temos 3 anos antes que as cabe√ßas comecem de novo a aquecer e por isso seja mais dif√≠cil a reflex√£o e discuss√£o. Agora √© f√°cil e poss√≠vel. Pela minha parte vou tentar p√īr no papel aquilo que todos estes anos me foram ensinando. Vamos a ver se o consigo fazer.

 

Quando eu era pequeno, ainda uma grande maioria das pessoas da nossa terra ia √† Missa todos os domingos. E aqueles que l√° n√£o iam todos os domingos, iam algumas vezes por ano. Os que nunca iam √† igreja eram poucos. Mas quantos iam √† Missa por convic√ß√£o e milit√Ęncia? Nunca o saberemos. Agora, a percentagem dos que frequentam a igreja √© muito menor, mas a percentagem dos que v√£o por convic√ß√£o √© muito maior. Creio eu. De qualquer modo, gostaria muito que assim fosse.

Desde o princ√≠pio, a humanidade tem estado sempre a evoluir, mas s√≥ agora √© que √© poss√≠vel cada um ser o que quer ser. Pode ser crente ou agn√≥stico. Pode ser religioso ou ateu. Pode ser militante ou indiferente. Em minha opini√£o, isto √© o resultado de um grande progresso. Cada um √© ‚Äúobrigado‚ÄĚ a ser o que quiser. O que faz com que cada pessoa tenha cada vez mais responsabilidades. Individuais e colectivas. Mas esta possibilidade ainda n√£o existe em todo o mundo. Felizmente j√° existe na nossa terra. Felizmente. Assim n√≥s saibamos conserv√°-la e desenvolv√™-la. Sem aceitarmos os outros como eles s√£o, n√£o √© poss√≠vel nem liberdade nem democracia. Felizmente, Riachos est√° numa regi√£o do mundo onde tudo isto j√° √© poss√≠vel. Mas n√£o era assim ainda h√° somente 50 anos. Sem o 25 de Abril isto n√£o seria poss√≠vel.

A hist√≥ria que vou contar, contou-ma o meu av√ī. Foi h√° menos de 100 anos. Nos tempos da primeira rep√ļblica. Saiu uma lei a proibir o toque dos sinos da igreja antes do sol-fora e depois do sol-posto. Naquele tempo poucos tinham rel√≥gio. Era o sino que avisava as pessoas. Em Riachos havia uma Missa aos domingos de madrugada, as pessoas rezavam as Ave-Marias, havia √† noite ora√ß√£o do ter√ßo, e tudo isto era avisado pelo sino. O que passou a ser interdito. Ent√£o um grupo de jovens daquele tempo, armados de foices ro√ßadoiras, de forquilhas e de paus, foram buscar o sacrist√£o quando j√° era noite e obrigaram-no a tocar o sino at√© as autoridades chegarem. Quando o regedor chegou n√£o teve outro rem√©dio do que aceitar a realidade. E o sacrist√£o passou a tocar o sino sempre que fosse necess√°rio. Sem interdi√ß√Ķes.

Outra hist√≥ria que toda a gente conhece foi com a Filarm√≥nica. Por motivos pol√≠ticos e religiosos passou a haver duas. A velha e a nova. Os Cara√ßas e os Malhados. Algumas fam√≠lias completamente divididas. Tamb√©m foi no tempo da primeira rep√ļblica que o nicho que ent√£o existia foi destru√≠do.

‚ÄúSe n√£o vives como pensas, acabas por pensar como vives‚ÄĚ, diz um velho e verdadeiro ditado. As pessoas vivem em comunidade, por isso todos dependemos muito da press√£o que √© exercida pelos diversos colectivos. Embora agora a liberdade individual seja muito maior do que era antes, cada pessoa ainda depende muito dos diversos grupos onde est√° inserido. Ningu√©m √© totalmente livre individualmente. Mas nunca a liberdade individual foi t√£o grande como agora. Todo este palavreado, para tentar situar as minhas reflex√Ķes sobre a NOSSA FESTA.

A Festa da Bênção do Gado é a principal manifestação de cultura popular que existe em Riachos, não é uma festa profana ou religiosa, é uma festa ao mesmo tempo profana e religiosa, isto é, tem sempre as duas componentes. Pode ter algumas actividades que não são religiosas, mas dificilmente terá actividades só religiosas. Mesmo o Cortejo nunca pode ser uma actividade só religiosa. Mas quando há actividades que são ao mesmo tempo religiosas e profanas e quando não há antagonismo mas sim complementaridade, quando tudo isto se faz sem guerra, creio que uma sociedade que já atingiu esta fase, é qualquer coisa de maravilhoso. Creio que todos devemos fazer tudo para que esta harmonia se desenvolva cada vez mais, creio que devemos fazer tudo para que a guerra, principalmente por motivos religiosos, nunca mais tenha lugar na nossa terra. E creio que seria mau tentar separar o religioso e o profano. A Festa não seria a mesma, seria outra coisa qualquer.

Segundo Jesus Cristo, a Igreja √© como o sal na comida ou como o fermento na massa. Quando √© de menos, n√£o faz efeito praticamente nenhum. Quando √© demais d√° inquisi√ß√£o, d√° islamismo‚Ķ O sal deve estar na comida para lhe dar bom sabor, n√£o para a tornar salgada. Assim deve ser a presen√ßa da Igreja na sociedade e na Festa. A Festa n√£o √© s√≥ religiosa nem √© s√≥ profana. √Č as duas coisas ao mesmo tempo. Ser√° √≥ptimo se nenhuma das partes for mais importante do que a outra. Isto s√≥ se consegue se todos puderem participar, sejam quais forem as suas ideias.

Não conheço, na nossa região, outra festa com tanta participação popular. E, apesar de tanta gente e tantos grupos participarem na preparação e no desenrolar da Festa, os consensos têm sido sempre possíveis. O que prova que podem continuar a ser possíveis. Gostaria que todas as pessoas que têm ideias sobre a Festa aproveitassem este tempo para as apresentarem, para as debaterem, para as defenderem. Mas sempre com um só objectivo: chegar a consensos de tal modo que mais pessoas participem e assim a Festa seja sempre cada vez melhor.

Quero dar aqui um grande abraço à Célia Barroca e ao Carlos Tomé que antes de mim deram início ao debate. Espero que continuem a discutir as suas ideias com a maior objectividade possível e assim ajudem mais leitores a participarem e a dizerem o que pensam. Para que os consensos se atinjam cada vez com maior facilidade e a Festa seja cada vez melhor, porque ela é de todos.

 

 

Actualizado em ( Quarta, 20 Fevereiro 2013 23:11 )  
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