o riachense

Sexta,
17 de Novembro de 2017
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João Luz

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Come a papa, João, come a papa

Como é que alguém agnóstico ou ateu escapa a esta euforia em torno do novo Papa? Claro que pode sempre fechar os olhos e os ouvidos, evitando qualquer contacto com as notícias, ou então usar um indignado cartaz onde se possa ler: "por favor, não quero conversar sobre o que se passa no Vaticano!" Mas vivendo assim, de olhos, ouvidos e boca fechados, resta-nos apenas o nariz, e é muito difícil sobreviver apenas com o uso do nariz.
A liberdade de culto que assiste a alguém crente é a mesma que assiste a alguém não crente, portanto, cada um faz as suas escolhas sem ter moralmente direito a anular a posição oposta. Hoje alguém pode dizer que Deus não existe sem ser condenado por heresia, ou queimado em praça pública. Quanto ao Papa, já não se pode dizer que não existe, porque para onde quer que se olhe, lá está uma notícia sobre ele. O que tenho percebido é que tem um novo estilo, uma atitude diferente, mais humilde, mais terrena. Se isso é interessante, o resto continua muito complicado.
O que mais me intriga neste fenómeno é, como sempre, o comportamento humano, não individualmente mas sim em grupo. Em primeiro lugar, o domínio que o assunto tem tido nestas últimas semanas através dos meios de comunicação; em segundo, a angústia das pessoas em terem alguém que represente Deus na terra, seja lá o que isso for; em terceiro, a existência de um desígnio transcendental do qual dependem as nossas acções, sobretudo a nossa condição depois da morte.
Sendo a esmagadora maioria da população deste país católica, e sabendo que os meios de comunicação simplesmente procuram subir as suas audiências, é noticiado aquilo que mais interessa à população. Não existe aqui qualquer tipo de isenção ou deontologia, como se constata pela cobertura quase inexistente dada pelos média às restantes correntes religiosas. Pelo contrário, há uma glorificação do catolicismo, o que acaba por ser conveniente quer à Igreja, por ter tempo de antena gratuito, quer aos média, por terem receitas de publicidade. É para ambos um bom espectáculo e um grande negócio.
Quando saiu fumo branco pelo cano, a euforia da gente que ali assistia pode ser um sintoma do desespero em que vive. Há essa necessidade em ter uma figura protectora, um símbolo divino, que traga alguma possibilidade de salvação. Mas se virmos bem, essa figura é apenas um homem, um patriarca, eleito por outros homens seguindo um método fechado à sociedade, dentro de uma instituição assente na masculinidade, no celibato, e no culto a um outro homem de origem judaica que se afirmava filho de Deus.
Ao ver as imagens da missa inaugural do novo Papa, revela-se muito claramente uma situação que perdura há séculos, e que parece não mudar. Ali estão, devidamente marcadas, as classes da pirâmide social defendida pela Igreja: os que rezam, sentados debaixo dos símbolos da divindade; os que governam, sentados de frente para a divindade; os que servem, de pé atrás de grades, apertados. Por bem intencionado e simpático que seja o discurso papal, está acima de si uma instituição altamente conservadora, estática, cúmplice das esferas políticas, na qual Jorge Mario Bergoglio, o eleito, nada conseguirá mudar a não ser o estilo de comunicação, ou o tipo de sapatos que calça.
Esta euforia será passageira, claro, tal como são todos os estados eufóricos que sacodem a gente de vez em quando. A realidade terrena encarrega-se de nos chamar de volta ao quotidiano e às contas que têm de ser pagas no fim do mês. Daqui a alguns anos este Papa dará lugar a outro; os novos governantes voltarão a ser abençoados; os servos voltarão a agitar as bandeirinhas e a pedir remissão dos seus pecados.
Durante estas fatídicas semanas papais, houve apenas um episódio que me parece extraordinário: um jornalista japonês dizia à televisão portuguesa que estava ali com muita curiosidade em observar um ritual medieval, porque no Japão tudo aquilo é muito exótico.
Actualizado em ( Quarta, 10 Abril 2013 23:31 )  

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