o riachense

TerÁa,
19 de Setembro de 2017
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Portugal abandonado
Desta vez tentarei ser breve e conciso. Em férias estamos todos mais atentos aos pormenores da vida e como, no fundo, sou viajante profissional, também eu detecto provavelmente melhor as incongruências deste nosso viver português.
Parece, de facto, haver sempre dois lados de uma mesma moeda. Em tempos que j√° l√° v√£o existiam as famosas classes do povo e da nobreza; e, num lugar aparte, privilegiado e especial, como sabemos, o clero. Ora bem.
Hoje estar√£o aparentemente dilu√≠das as diferen√ßas com a funda√ß√£o da res publica. Ou seja, com a consci√™ncia de que existe uma causa comum, o espa√ßo onde vivemos e a riqueza que gerimos - que √©, ou deveria ser, supostamente, colectiva ‚Äď deixou de fazer sentido o povo de um lado e a nobreza de outro.
Com efeito, com o seu sentido histórico e a determinante abertura universal da Revolução Francesa, todos aprendemos a aceitar o princípio de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, cujo, mais tarde, se consubstanciaria, de certo modo, nos chamados Direitos do Homem.
Mas em Portugal e no Mundo continua a haver um sentir, um viver e decidir para os ricos e outro para os pobres. Uma moral, um modo de vida, um preço, um modo de pensar e decidir. Uma estética, uma definição de prioridades e políticas.
Encontramos assim um pa√≠s interior e abandonado, em desertifica√ß√£o assustadora, onde as coisas s√£o dif√≠ceis, o hospital longe, a cultura tel√ļrica e milenar, as mentalidades mais conservadoras, os valores mais tradicionais, a gastronomia mais forte e as dist√Ęncias mais encurvadas e longas. E onde, por vezes, ainda sentimos um orgulho castrense, eivado de velhos hero√≠smos fronteiri√ßos. Respeito. Ali houve muitas batalhas e sangue derramado para que fosse nosso aquele ch√£o.
Percorri recentemente esse Portugal bem interior; de Castelo Rodrigo, Almeida, Castelo Mendo, Sabugal, Castelo Novo, Sortelha, Marialva, Idanha-a-Velha, Marvão, Monsaraz e por aí fora, e mergulhei num espaço de História lindíssima mas socioeconomicamente carente. E mais. Carente de inteligência programática que o salve, encaminhe e recupere.
Se um país sensato e atento possuísse o sentido do verdadeiro Turismo global, perceberia que não é apenas o lado litoral, liberal, cosmopolita, finório e hoteleiro que se deve projectar, publicitar e proteger. Vejamos. Amo o meu litoral, de Caminha ao Guadiana, passando pelas ilhas. Possuo casa no Algarve e delicio-me com o peixe grelhado, acabadinho de pescar, com a proximidade do mar, a beleza das praias, tudo isso.
Mas h√° um potencial imenso no interior que foi e est√° esquecido; e que, por falta de azimutes definidos e inteligentes, est√° a entrar dia a dia mais no esquecimento, no abandono e, logicamente, na feia inc√ļria de que n√£o se sai facilmente. O pa√≠s interior precisa, quase todo, de urgente requalifica√ß√£o.
Aquela Serra da Estrela - sobre a qual, de tempos a tempos, ouvimos promessas repetidas de recuperação imediata - representa um monumento natural incompreendido e prejudicado pelo homem. O célebre Sanatório continua ao abandono, por recuperar; os Centros Comerciais da Torre são entre o bimbo, o atrasado, o feio e a vergonha. Os apoios são quase nulos, a informação deficiente, os gabinetes de Turismo ou ausentes, ou mal indicados, ou encerrados.
A c√©lebre aldeia do Sabugueiro, passei por ela em Agosto e tive dificuldade em conseguir um caf√© aberto. Todo o turismo foi pensado para vender queijos, peles, presuntos e c√£es. E fez-se um conjunto de casas, incaracter√≠stico e fei√≠ssimo, onde deveria existir um ex-l√≠bris de aldeia de montanha, arranjada e bonita na tra√ßa e nos materiais, como normalmente encontramos pelas montanhas de todo o mundo. Eu, se fosse Ministro do Turismo, mandava aquele pessoal a expensas do Estado, visitar os Dolomitas, nos Alpes; ou as Ast√ļrias, aqui bem mais perto; ou os Piren√©us. E ver, estudar, apreciar e depois voltar para casa e sentir a aberra√ß√£o est√©tica que ao longo do tempo se foi ali construindo e amontoando.
Em Sortelha, aldeia histórica, às quatro da tarde de um dia de semana o Turismo estava fechado. Em Castelo Mendo - aldeia medieval lindíssima - nem uma água se pode comprar em parte alguma - não há comércio nenhum léguas em redor, logo, não há vida possível. Correm-se quilómetros de terras, montes e pastos queimados, com um cheiro irrespirável a rescaldo, miséria e morte de pessoas e bens. Tudo negro. Os restaurantes populares são ruidosos, feios, por vezes sem ar condicionado e com casas de banho vergonhosas. Os restaurantes melhorzinhos praticam preços suíços, apesar de um serviço abrutalhado e pouco cuidado, lento e pretensioso.
E fico por aqui; pois n√£o h√° palavras para descrever o quanto poderia ser este velho Portugal e a dist√Ęncia a que est√° de que isso aconte√ßa.
Igualdade? O país está demasiado inclinado para o mar, onde os políticos, futebolistas e vedetas passam férias em Vila Moura e viram as costas a um Portugal sem oportunidades, nem requalificação urgente à vista.
Os pobres e os ricos. Afinal, ainda continua a velha história de sempre.
Actualizado em ( Quinta, 27 Janeiro 2011 14:51 )  

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