o riachense

Sexta,
17 de Novembro de 2017
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Portugal abandonado
Desta vez tentarei ser breve e conciso. Em férias estamos todos mais atentos aos pormenores da vida e como, no fundo, sou viajante profissional, também eu detecto provavelmente melhor as incongruências deste nosso viver português.
Parece, de facto, haver sempre dois lados de uma mesma moeda. Em tempos que já lá vão existiam as famosas classes do povo e da nobreza; e, num lugar aparte, privilegiado e especial, como sabemos, o clero. Ora bem.
Hoje estarão aparentemente diluídas as diferenças com a fundação da res publica. Ou seja, com a consciência de que existe uma causa comum, o espaço onde vivemos e a riqueza que gerimos - que é, ou deveria ser, supostamente, colectiva – deixou de fazer sentido o povo de um lado e a nobreza de outro.
Com efeito, com o seu sentido histórico e a determinante abertura universal da Revolução Francesa, todos aprendemos a aceitar o princípio de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, cujo, mais tarde, se consubstanciaria, de certo modo, nos chamados Direitos do Homem.
Mas em Portugal e no Mundo continua a haver um sentir, um viver e decidir para os ricos e outro para os pobres. Uma moral, um modo de vida, um preço, um modo de pensar e decidir. Uma estética, uma definição de prioridades e políticas.
Encontramos assim um país interior e abandonado, em desertificação assustadora, onde as coisas são difíceis, o hospital longe, a cultura telúrica e milenar, as mentalidades mais conservadoras, os valores mais tradicionais, a gastronomia mais forte e as distâncias mais encurvadas e longas. E onde, por vezes, ainda sentimos um orgulho castrense, eivado de velhos heroísmos fronteiriços. Respeito. Ali houve muitas batalhas e sangue derramado para que fosse nosso aquele chão.
Percorri recentemente esse Portugal bem interior; de Castelo Rodrigo, Almeida, Castelo Mendo, Sabugal, Castelo Novo, Sortelha, Marialva, Idanha-a-Velha, Marvão, Monsaraz e por aí fora, e mergulhei num espaço de História lindíssima mas socioeconomicamente carente. E mais. Carente de inteligência programática que o salve, encaminhe e recupere.
Se um país sensato e atento possuísse o sentido do verdadeiro Turismo global, perceberia que não é apenas o lado litoral, liberal, cosmopolita, finório e hoteleiro que se deve projectar, publicitar e proteger. Vejamos. Amo o meu litoral, de Caminha ao Guadiana, passando pelas ilhas. Possuo casa no Algarve e delicio-me com o peixe grelhado, acabadinho de pescar, com a proximidade do mar, a beleza das praias, tudo isso.
Mas há um potencial imenso no interior que foi e está esquecido; e que, por falta de azimutes definidos e inteligentes, está a entrar dia a dia mais no esquecimento, no abandono e, logicamente, na feia incúria de que não se sai facilmente. O país interior precisa, quase todo, de urgente requalificação.
Aquela Serra da Estrela - sobre a qual, de tempos a tempos, ouvimos promessas repetidas de recuperação imediata - representa um monumento natural incompreendido e prejudicado pelo homem. O célebre Sanatório continua ao abandono, por recuperar; os Centros Comerciais da Torre são entre o bimbo, o atrasado, o feio e a vergonha. Os apoios são quase nulos, a informação deficiente, os gabinetes de Turismo ou ausentes, ou mal indicados, ou encerrados.
A célebre aldeia do Sabugueiro, passei por ela em Agosto e tive dificuldade em conseguir um café aberto. Todo o turismo foi pensado para vender queijos, peles, presuntos e cães. E fez-se um conjunto de casas, incaracterístico e feiíssimo, onde deveria existir um ex-líbris de aldeia de montanha, arranjada e bonita na traça e nos materiais, como normalmente encontramos pelas montanhas de todo o mundo. Eu, se fosse Ministro do Turismo, mandava aquele pessoal a expensas do Estado, visitar os Dolomitas, nos Alpes; ou as Astúrias, aqui bem mais perto; ou os Pirenéus. E ver, estudar, apreciar e depois voltar para casa e sentir a aberração estética que ao longo do tempo se foi ali construindo e amontoando.
Em Sortelha, aldeia histórica, às quatro da tarde de um dia de semana o Turismo estava fechado. Em Castelo Mendo - aldeia medieval lindíssima - nem uma água se pode comprar em parte alguma - não há comércio nenhum léguas em redor, logo, não há vida possível. Correm-se quilómetros de terras, montes e pastos queimados, com um cheiro irrespirável a rescaldo, miséria e morte de pessoas e bens. Tudo negro. Os restaurantes populares são ruidosos, feios, por vezes sem ar condicionado e com casas de banho vergonhosas. Os restaurantes melhorzinhos praticam preços suíços, apesar de um serviço abrutalhado e pouco cuidado, lento e pretensioso.
E fico por aqui; pois não há palavras para descrever o quanto poderia ser este velho Portugal e a distância a que está de que isso aconteça.
Igualdade? O país está demasiado inclinado para o mar, onde os políticos, futebolistas e vedetas passam férias em Vila Moura e viram as costas a um Portugal sem oportunidades, nem requalificação urgente à vista.
Os pobres e os ricos. Afinal, ainda continua a velha história de sempre.
Actualizado em ( Quinta, 27 Janeiro 2011 14:51 )  

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