o riachense

Sexta,
30 de Setembro de 2022
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António Mário Lopes dos Santos

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Uma pausa no quotidiano fosco dos lugares políticos comuns

Costa Gravas, Constantin, grego naturalizado francês, 80 anos, cineasta:

«Quem decide que uma fábrica mude de país, que milhares de pessoas são despedidas? Um banqueiro. Esse é o nosso problema de hoje. A nossa ditadura».

Carlos Saboga, 76 anos, cineasta, luso-francês:

«Não me arrependo do que vivi, nem dos ideais que aspirei, continuo a tê-los de um certo modo, apenas penso que já não são atingíveis da mesma forma. Quando era jovem, sabia como mudar o mundo, agora não tenho tantas certezas. Para mim interessa não só a mentira e a traição não só no cenário político, mas a questão da procura da identidade»

Eduardo Galeano, jornalista e escritor uruguaio, autor, entre outros livros, de Memória do Fogo –  Os Nascimentos,73 anos:

«Oxalá Memória do Fogo possa ajudar a devolver à história o alimento, a liberdade e a palavra. Ao longo dos séculos, a América Latina não só sofreu o despojo do ouro e da prata, do nitrato e da borracha, do cobre e do petróleo: sofreu também a usurpação da memória. Desde cedo foi condenada à amnésia por todos quantos a impediram de ser»

Miguel Torga, poeta, escritor, 

«A farsa nacional chegou ao impudor. Lembra-me o teatro romano no fim do império, quando as cenas pornográficas eram representadas ao natural à vista da plateia» Diário,X, 25///1965.

José Saramago, prémio Nobel , escritor,séc.XX/XXI.

« O desbarato mais absurdo não é o dos bens  de consumo, mas o da humanidade: milhões e milhões de seres humanos nasceram para ser trucidados pela história, milhões e milhões de pessoas que não possuíam mais do que as suas simples vidas. De pouco ela lhes iria servir, mas nunca faltou quem de tais miuçalhas tivesse sabido aproveitar-se . A fraqueza alimenta a força para que a força esmague a fraqueza.» Cadernos de Lanzarote, Diário II, 1994,24 de Fevereiro.

Voltiare, racionalista, filósofo, espírito crítico, 1764.

«O que a minha seita ensina é obscuro, reconheço-o, afirma um fanático; e é em virtude dessa  obscuridade que se deve crer na seita, pois ela própria se afirma cheia de obscuridades. A minha seita é extravagante, logo é divina; pois como seria possível que fosse abraçado por tantos povos aquilo que parece uma tal loucura se não houvesse aí algo de divino?». Dicionário Filosófico, Seita, 2ºvol, 242.Presença, 1966.

Fernando Assis Pacheco, poeta, jornalista, amigo, falecido em 30/11/1995. Recordo-lhe os versos, quando vejo nos canais de descerebralização generalistas da  televisão portuguesa, gente do estofo político dum Passos Coelho, dum Paulo Portas, dum funcionário merkeliano chamado  Gaspar.

«Este ministro é um mentiroso/que agonia quando ele discursa/ e se fosse só isso: bala sem jeito/às meias horas seguidas  - e não pára!// bem-aventurados os duros de ouvido/a quem o céu  abrirá as portas/desliguem p.f. o microfone/ou então tirem a ficha do país». Lisboa, 6/5/1995, Respiração Assistida, 2002.

Sento-me na mesa de fogo das palavras. Nuno Júdice, Fernando Assis Pacheco. Herberto Helder, RuY Belo, Cesariny, Jorge de Sena, Alexandre Ó ‘Neill, António Ramos Rosa, algum Pessoa, também Boaventura de Sousa Santos, Baptista Bastos, Miguel Torga, José Cardoso Pires, Joel Serrão. Muitos, muitos mais.

Não venho falar-vos, leitor possível, de autarquias, eleições, coisas assim. O que por aí anda não me apaixona , deixa-me à margem , no ríspido desencanto do já visto. Creio. como alguém já afirmou, que o nosso problema maior não foram  gastos a mais ( e saiba-se quem gastou demais, e puna-se), mas a corrupção, esse vírus endémico, transversal, epidemia  que corre , indiferenciada, toda a pirâmide social, as profissões, públicas e privadas, ainda que os de cima, fato azul, gravata colorida, emblema na lapela, sejam os  mais  corruptos  e os que nunca chegam à barra dos tribunais.

Comece-se por uma lavagem de sanidade mental: limpem-se os quatro canais generalistas do lixo de comentadores políticos e jornalistas a baterem-se por cargos nos gabinetes ministeriais. Desaparecia a maior parte da emissão, mas ganhava o povo em não ser enganado e mesmo assim aplaudir. Tratem-se as pessoas como seres humanos, não como mercadoria defeituosa e de escassa duração. Agarre-se no ministro da Saúde e coloquem-no numa consulta de urgência num dos três hospitais do Médio Tejo, a ser recambiado para morrer em casa, porque está velho e o sistema não comporta o preço das despesas. Condene-se o ministro das Finanças, durante seis meses, ao vencimento mínimo, e proíba-se a mulher de receber com funcionária do Banco de Portugal. Pague-se ao Presidente da República o vencimento do cargo, proibindo-lhe as reformas por que optou. Mande-se o Borges e o Moedas para uma comissão de serviço do FMI na Síria. Exija-se ao hamletiano ministro dos Negócios Estrangeiros qual a resposta da verdade dos submarinos à dúvida – ser ou não ser. Ao primeiro-ministro deseje-se que Relvas nunca lhe perdoe a sua experiência de formador com as verbas comunitárias. 

Ou então, mais prosaico, fale-se de tartarugas, que duram muitas gerações, ou das garinas do Ronaldo, ou das condenações nunca cumpridas do Berlusconi, ou das armas que os americanos oferecem aos filhos para que matem os inimigos dos EUA, ou se matem a eles, pelo prazer dos filmes de cobóis, com muito sangue e mortos, em que o herói casa no fim com o cavalo. 

Como é dia de espiga, gramem-na, já é hábito.

Não troco as minhas inquietações, a busca de identidade, pelas certezas e dogmas alheios. Relembro, Aquilino, no prefácio de Quando os Lobos Uivam, dedicado ao Professor Pulido Valente: «Nesta faina exaustiva (de escritor) tive que desatender à vida de relações, não cultivar como devia a amizade, remeter os meus à vis própria quando poderia com um pouco de arte, salamaleque, e o «quantum satis» da vergonha cívica nacional, consagrada e triunfante, guindá-los a ministros ou banqueiros». Descontadas as diferenças, os cargos, a qualidade e o valor, saúdo este esquecido grande escritor luso, da liberdade livre de que falava Ramos Rosa. Ou do manguito, com que se despedia, satírico, poeta, romântico, Assis Pacheco.

 Maio de 2013 

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António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt 

Actualizado em ( Quinta, 09 Maio 2013 16:31 )  
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