o riachense

Sexta,
30 de Setembro de 2022
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António Mário Lopes dos Santos

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Ai Santa Isabel, metem-te em festa e perdem-te o hospital

 

Chega-me, por e-mail e imprensa local, informação sobre a 4ª feira medieval de Torres Novas, este ano dedicada à rainha Santa Isabel, que foi donatária, como todas as rainhas, desde D. Beatriz de Gusmão, mulher de D. Afonso III, até à viúva de D. João I, D. Leonor, do concelho de Torres Novas, passando com D. Manuel I para a casa de Coimbra, em doação de 27 de Maio de 1500, a D. Jorge de Lencastre. Integrada, com o filho deste, D. João, no ducado de Aveiro, ai se manteve até 1759, com a liquidação das casas de Aveiro e Távoras, por acção do marquês de Pombal. 

As três já realizadas, inseridas num evento intitulado Memórias da História,  Revisitar D. Manuel – 500 anos de Foral Novo (2010), A Chegada do Rei Menor –Cortes de 1438(2011) e O Dote da Princesa – Cortes de 1525(2012), fizeram-se, passaram, não deixaram marcas, nem raízes patrimoniais. Como acontecerá à quarta, da pobre Santa Isabel, que caiu agora na rifa da festa de despedida da Câmara Socialista concelhia, quando vê a sua única instituição local – o hospital distrital de Torres Novas, que tem o seu nome, esvaziado de tudo o que ela, rainha, no seu tempo, defendeu.  

Há festas que se enraízam nas populações e se identificam com o local através dos séculos. A Festa dos Tabuleiros, de Tomar, a festa de S. Martinho, na Golegã, os festejos populares lisboetas de Santo António e  S. Pedro, o S. João do Porto, a festa da Flor de Campo Maior, a do Chocolate em Óbidos, a das cebolas de Rio Maior, a do Senhor  Jesus de Braga, a do senhor Jesus dos Lavradores, de Riachos,  são apenas alguns dos exemplos das  centenas de festas histórico-religiosas que, ao longo dos séculos se interligaram pela fé, pela lenda, pelo património, por razões económicas e sociais, com os objectivos das populações. No concelho de Torres Novas, a feira de S. Gregório marcou séculos de convívio, sociabilidade, dinâmica mercantil. Nas freguesias rurais, os seus dias santificados correspondiam a festas cíclicas da grande importância na estrutura social e económica, enraizadas nas actividades agrícolas. 

A festa da rainha Santa Isabel, de Junho de 2013, na cidade de Torres Novas, não representa senão uma teimosia festivaleira que ganhou jus de repetição um pouco por muitas cidades e vilas portuguesas, inebriadas com  o espavento do europeísmo dos festivais . Nós, portugueses, sofremos duma doença crónica, cíclica, epidemiológica, que é o da incapacidade criativa e da febre da  imitação. Vivemos muito da aparência, dos modismos inventados, ressuscitando um nacionalismo saudosista e conservador, para trazer o povo adormecido. No passado fascista, ano de eleições era época de inauguração de estradas, casas do povo, ermidas, foguetório e comida farta. Nos tempos que correm, Memórias, como estas, ditas da História, promovidas pela  Câmara de Torres Novas, são uma continuação desse arremedo de alegria popular aparentemente satisfeita com  os governantes, o mundo em que vive, e totalmente alheia à realidade e ao seu tempo.

Porquê, explique-se-me.

Que são os festejos da Rainha Santa Isabel mais que um lenço branco a acenar pela possível privatização do Hospital de Torres Novas a uma empresa privada,  que mais não é que uma perda irreparável para os direitos à saúde que Abril nos trouxe e Passos, Portas e Cavaco nos tiram?

Como pode ser um acto de alegria uma festa em que a Santa Padroeira se identifica, não com a alegria popular, mas com o sofrimento dos pessoas reais?

Alguém festeja o seu empobrecimento?

Com que História andam os socialistas a brincar?

O esvaziamento do hospital Rainha Santa Isabel deve-se a muito desinteresse do poder autárquico local, que nunca foi capaz de demonstrar que era Torres Novas e não Abrantes o local lógico do Centro Hospitalar do Médio Tejo, como todos os estudos feitos e publicados que então existiam, apontavam.

O que é certo é que o Hospital da Rainha Santa Isabel que, no início do século XXI , tinha em funcionamento, inúmeras especialidades e serviços, hoje mais não é que um casarão inóspito, propositadamente esvaziado, para poder ser vendido por tuta e meia  aos mercadores da saúde, que no edifício e recheio vêem o cifrão do lucro e no seu propositado politico empobrecimento um modo de o conseguir.

Festejar o nome da Rainha Santa Isabel, deixando chegar o seu hospital ao estado em que está, sem nenhuma acção de mobilização das populações na sua defesa, sem nenhuma medida pública de repúdio, sem nenhuma clara e transparente defesa dum património da cidadania não será a demonstração de desprezo que aquelas mereceram a este governo autárquico, durante vinte anos?

E não sei se é ofensa perguntar, mesmo que a legitimidade da resposta se fique pelos meandros da governança: as três festas realizadas em 2010, 11 e 12, já estão pagas, ou fazem parte da lista de dívidas que o PAEL irá «pagar», com mais prazo de endividamento que recairá sobre os cada vez mais  fracos recursos das populações? A presente é para ser paga quanto, como e quando?

Rainha Santa Isabel, criadora do primeiro hospício a Santo André para tratamento dos leprosos, na casa das primeiras mulheres recolhidas provenientes de Coimbra, antecessoras do Convento quinhentista do Espírito Santo, não lhes perdoes, que eles sabem o que fazem.  

 Maio de 2013 

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António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt 

Actualizado em ( Sexta, 24 Maio 2013 10:57 )  
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