o riachense

Sexta,
30 de Setembro de 2022
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António Mário Lopes dos Santos

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Que mundo! Apetece comentar: que imundo mundo!

Era Bom Poder Desenhar A Escrita do Tempo

A Praça Taksim em Istambul transformada num palco de batalha. Pedras contra canhões de água, gritos e insultos contra gases lacrimogéneos e balas de borracha. Cidadãos contra a guarda pretoriana do poder, os guardas nacionais de todos os governos prepotentes. Em Roma, por vezes, a guarda pretoriana tomava o poder, assassinava o imperador, criava mudança. Erdogan, ministro da Turquia, exclama: acabou-se. E as sondagens mostram que, após uma década de poder, o seu partido, conservador e pró-islamita, e ele, continuam a ser os favoritos para as eleições municipais e presidenciais de 2014 e para as legislativas de 2015. A democracia começa a revelar-se muito frágil e próxima das ditaduras, quando o povo já não decide, pior, já não é ouvido. Quem está no poder usa todos os instrumentos para a sua perpetuidade no lugar: imprensa, sondagens, leis, tribunais, polícias, religiões, exércitos. O poder, nas democracias neo-liberais, há muito também se divorciou do povo. O voto, de x em x anos, transformou-se numa mistificação. Só se permite votar no que oferecem, não no que se escolhe e se desejaria ver a defender o direito de intervenção política. Inverteu-se tudo. Seleccionam-se os eleitos, os programas surgem depois. Vota-se em listas de nomes num papel com o símbolo dum partido. É como acreditar semanalmente que agora é que sai o Euromilhões, e, desiludido, manter a esperança na semana seguinte, e na outra, e na outra, sempre.

Na Grécia, em nome da política de austeridade ao serviço da Troika, o governo suspende a televisão pública para reduzir pessoal. O programa de despedimentos dos funcionários públicos iniciou em Atenas a sua marcha, para juntar aos já 24% de desempregados. O de Portugal já está em marcha há algum tempo, começando pelos contratados, passando breve para os do quadro. O desemprego luso aproxima-se dos 20%, mas as festas de Santo António encheram de música e alegria a Avenida da Liberdade e os bairros populares do cheiro da sardinha assada para turista. 

Na Itália, o papa Francisco vem anunciar urbi et orbem que na Cúria Romana há corrupção à solta e um lobbie gay que atravanca as mudanças necessárias. A Igreja recomeça o seu ciclo de expiação, iniciado com João XXIII e o Concílio do Vaticano II.

Noutro local, um cidadão norte-americano de 29 anos, Edward Snowden, refugia-se em Hong Kong, após ter denunciado à imprensa que a Agência Nacional de Segurança (NSA) intercepta diariamente as comunicações mundiais, em nome da segurança dos interesses norte-americanos. A diplomacia, dizem, não tem ética, e o crime, o assassinato, o genocídio, são bem aceites, desde que os resultados compensem. Os políticos democratas e republicanos do Congresso pedem o seu julgamento por crime de traição à pátria e, se possível, a pena de morte. O crime de espionagem dos serviços de espionagem americana, entrando em casa de todas as pessoas, nos computadores e ficheiros de cada ser humano, não será um verdadeiro crime contra a humanidade? Ou a PAX americana é como a PAX da Roma antiga? Ou Roma ou a morte.

Obama deveria reflectir no moribundo de Pretória, Nelson Mandela, 94 anos, e na sua luta pela igualdade de todos os povos, independente da cor da pele, da religião, da raça, da nacionalidade.

Snowdon, que expôs o programa de vigilância electrónica, terá dito na entrevista: «Posso ser objecto de um mandato de captura da Interpol, um pedido de extradição ou uma rendição extraordinária da CIA. Ou podem pagar às Tríadas para me eliminar». E confessa que o que o levou à denúncia foi o se sentir «indisponível para viver num mundo onde tudo o que digo e penso fica registado». 

«Os Estados Unidos devem deixar claro que nenhum país deve conceder asilo a este indivíduo», responde-lhe o congressista republicano Peter King, na sua pose de voz grossa do neo-liberalismo americano, tão perto do racismo latente da Ku-Klux-Klan. 

Um homem contra a Guarda Pretoriana do planeta, um pequeno inexplicável grão de areia que se escapou (como?) do mundo claustrofóbico da má consciência dum povo aterrorizado no seu Admirável Mundo Novo e veio gritar que os seres humanos não passam de animais domesticados e submissos às forças que os controlam, os exploram, os transformam em mercadorias descartáveis, para que os donos secretos e escondidos deste nosso mundo se possam reunir num qualquer Concílio dos Deuses a decidir dos caminhos que lhes interessa que a Humanidade trilhe. 

 Em Portugal, ilha minúscula desse mundo submisso, banqueiros, administradores, gestores públicos, políticos, são absolvidos nos tribunais portugueses. A corrupção, afirmam, é endémica, vem de cima, do mais alto, mas a justiça não é por acaso que usa venda. Trabalhadores e desempregados começam perigosamente a ser sinónimos. Os reformados, descartáveis, se possível, mortos. Os jovens, a nova mão-de-obra barata da Nova-Ordem da finança da Europa do Norte. Passos e Portas estão unidos como os dedos da mão, ao pulso que os maneja, de Bruxelas à Alemanha, com falanges em Angola, Brasil e EUA. 

É certo que o planeta tem as suas armas e usa-as. Surgem tempestades que se revoltam contra a destruição ambiental. Os tornados americanos, as cheias da Europa não são um acaso, mas uma consequência da ambição desenfreada de transformar o planeta numa mercadoria global. O desaparecimento gradual das costas marítimas é um aviso ao que aí vem, com o degelo dos pólos. A desflorestação e a destruição criminosa dos bens planetários não adivinham um futuro pacífico.

Será que as tempestades humanas que, aqui, além, começam a ganhar força, cólera, ruptura, conseguirão transformar-se num novo renascimento, contra todas as máquinas de matar com que as ameaçam?

Quantas praças no mundo até um mundo diferente?

Há muito fiz a minha opção.

Mandela sim, fascismo não.

E você, cidadão?

  12 de Junho de 2013 

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António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt 

Actualizado em ( Quinta, 13 Junho 2013 10:17 )  
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