o riachense

TerÁa,
23 de Maio de 2017
Tamanho do Texto
  • Increase font size
  • Default font size
  • Decrease font size

Jo√£o Luz

Enviar por E-mail Vers√£o para impress√£o PDF

9 milh√Ķes por dia

A brutalidade dos n√ļmeros que vamos conhecendo dia ap√≥s dia espelha na perfei√ß√£o os tempos que vivemos. S√£o milh√Ķes atr√°s de milh√Ķes, s√£o muitos zeros, muitos pontos e muitas v√≠rgulas, s√£o somas a perder de vista. At√© mesmo um n√ļmero relativamente pequeno como √© o 4 se torna numa quantia gigantesca, monstruosa, levando-nos a pensar que j√° n√£o h√° espa√ßo para coisas modestas, manej√°veis, com uma ambi√ß√£o moderada, ou apenas com sentido pr√°tico. Esses n√ļmeros maiores que o mundo tornam-nos ainda mais pequenos, encolhidos e amedrontados com a pequenez dos rendimentos de que dispomos (falo por mim e por aqueles que, como eu, ganham pouco mais do que o sal√°rio m√≠nimo).
Prova desta dimens√£o esmagadora dos n√ļmeros foi a apresenta√ß√£o ao p√ļblico de um estudo massivo levado a cabo pela Funda√ß√£o Manuel dos Santos, uma publica√ß√£o com mais de 500 p√°ginas, um trabalho mais do que exaustivo, sobre os 25 anos de aplica√ß√£o de fundos estruturais em Portugal. Se passarmos os olhos pelas centenas de gr√°ficos e milhares de dados estat√≠sticos, chegamos a uma simples e triste conclus√£o, da qual, ali√°s, j√° antes suspeit√°vamos: estes 25 anos podem muito bem ter sido uma oportunidade epicamente desperdi√ßada. Uns falam em "semi-falhan√ßo", outros em "pouca efic√°cia", muitos em "m√° gest√£o", alguns em "melhorias significativas". E est√£o todos certos. Mas precisamente por estarem todos certos √© que se tornou um problema e chegou ao ponto em que estamos.
Durante 25 anos, entre 1986 e 2011, Portugal recebeu da Europa, em m√©dia, 9 milh√Ķes de euros por dia. 9 milh√Ķes de euros por dia! Desculpem, mas vou repetir: 9 milh√Ķes de euros! Por dia! Todos os dias! Inclusive ao domingo, que para alguns √© dia de descanso! N√≥s, aqui em Riachos, sa√≠mos de casa num domingo de manh√£, damos uma voltinha de bicicleta pelas ruas todas, paramos ali junto √† rotunda dos bois, encostamos e pensamos: "25 anos, 9 milh√Ķes por dia, mas onde? Aplicados em qu√™? Onde √© que se v√™ o resultado disso"?
Em rela√ß√£o ao que havia em 1986 e ao que temos hoje, que investimentos p√ļblicos e melhorias vis√≠veis temos? Temos mais uma escola, temos um pavilh√£o desportivo, um museu (inaugurado em 1989), temos duas ou tr√™s estradas novas, dois viadutos, um parque infantil, um centro de sa√ļde, quatro rotundas, uma biblioteca, uma galeria de arte integrada no museu, dois quil√≥metros de passeios, meia d√ļzia de sem√°foros, e‚Ķ? E que mais? Em 25 anos, com todos aqueles milh√Ķes por dia, Riachos, uma das freguesias mais importantes do concelho de Torres Novas e da regi√£o do M√©dio Tejo, apresenta um grau de desenvolvimento miseravelmente reduzido, face √†quilo que √© o n√≠vel m√©dio europeu, o qual nos serve como refer√™ncia.
Em pleno s√©culo XXI, continua a faltar saneamento b√°sico em Riachos, como √© o caso inadmiss√≠vel da Costa Brava, as pessoas continuam a ter de caminhar pelas bermas das ruas onde os carros j√° n√£o cabem, continua um pavilh√£o desportivo inacabado, continuam os agentes culturais sem um audit√≥rio onde possam actuar dignamente, continuam as crian√ßas sem zonas verdes e espa√ßos de lazer, continua o Atl√©tico sem condi√ß√Ķes para todos os seus atletas praticarem as modalidades em que se destacam, continuam estradas e ruas completamente degradadas, continua um grav√≠ssimo problema de polui√ß√£o do ar, da √°gua, e de solos agr√≠colas contaminados (com as consequ√™ncias nefastas que isso tem a n√≠vel de sa√ļde p√ļblica), continua a n√£o haver um sistema de transportes p√ļblicos integrado e eficaz, continua a n√£o haver um plano energ√©tico, enfim, somos uma comunidade com cinco mil habitantes que merece muito mais, mas que foi esquecida e posta de parte pelo poder local e central.
Para mal dos nossos pecados, nestes 25 anos não só deixámos escapar uma oportunidade flagrante de termos uma vida melhor, como em muitos aspectos estamos a regredir, e isto parece-me estar na base da grande desorientação que abala a sociedade portuguesa, sobretudo, aqueles que foram (mal) escolhidos para governar, e que hoje são os principais responsáveis pela gravíssima situação em que estamos. Continuar a escolher os mesmos é continuar a agravar os problemas. Para recuperarmos este país, esta comunidade em que vivemos, vamos precisar de muito trabalho e muita coragem.

Actualizado em ( Quinta, 13 Junho 2013 10:30 )  

Opini√£o

 

Jo√£o Triguinho Lopes

Uma história de Natal

 

Raquel Carrilho

Trumpalhada Total

 

António Mário Lopes dos Santos

Orçamentos, coisas para político ver?

 

Jo√£o Triguinho Lopes

A grande feira de todas as contradi√ß√Ķes