o riachense

TerÁa,
19 de Setembro de 2017
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Joaquim Alberto

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Este verão o meu país vai arder (outra vez)

 FARPADAS

Diziam que este ano não ia haver verão, mas a verdade é que ele está aí e, por sinal, muito quente. Tempo maravilhoso, que convida a banhos e a descanso. Mas, porque o calor é muito e a chuva é pouca, as ervas e o mato que nasceram no inverno e cresceram verdes na primavera, secam com o calor do verão. E por isso, todos sabemos que grandes quantidades de floresta vão ser devastadas pelo fogo. E sabemos que aquelas que escapam num ano não escaparão noutro.

E √© sempre assim. Todos os anos. Apesar dos grandes investimentos que os diversos Governos, C√Ęmaras Municipais e Corpora√ß√Ķes de Bombeiros v√£o fazendo. Apesar disso, todos os anos ardem √°reas enormes de floresta. Um pa√≠s t√£o pequeno e que tem tanto para arder!

Quando eu era pequeno tamb√©m havia inc√™ndios. No ver√£o fazia calor e n√£o chovia. Como agora. A diferen√ßa era que os inc√™ndios duravam muito menos tempo e por isso as √°reas ardidas eram muito menores. Sem avi√Ķes nem cami√Ķes. Com baldes e bombas manuais. Era s√≥ o que havia naquele tempo. Mas os inc√™ndios eram apagados rapidamente.

Naquele tempo havia em Portugal muito mais pessoas em idade de trabalhar do que h√° agora. Mas as pessoas com emprego eram poucas. O n√ļmero de funcion√°rios p√ļblicos era muito pequeno. Professores, m√©dicos e enfermeiros tamb√©m n√£o eram muitos. Apenas no servi√ßo militar, porque era obrigat√≥rio, havia mais homens do que h√° agora. As f√°bricas tamb√©m empregavam pouca gente. A grande maioria das pessoas trabalhava no campo, de sol a sol. Alguns come√ßavam a trabalhar aos seis anos, mas a maioria come√ßava aos dez ou onze. Quando sa√≠am da escola prim√°ria. Porque o trabalho na agricultura era, e ser√° sempre, sazonal, havia muitas pessoas sem trabalho durante grandes per√≠odos do ano.

Naquele tempo n√£o havia g√°s nem fog√Ķes el√©ctricos. A comida era feita com lenha ou carv√£o. A caruma, as pinhas dos pinheiros, os ramos mi√ļdos das oliveiras e os carolos do milho serviam para acender o lume. N√£o havia adubos. A fertiliza√ß√£o das terras cultiv√°veis era feita com estrume. Para isso era preciso aproveitar todo o mato e todas as ervas que pudessem ser recolhidas. At√© os grandes buracos das estradas eram tapados com molhos feitos de mato e de silvas.

Quando chegavam os calores de ver√£o as florestas estavam limpas. Por isso, quando havia um fogo, era f√°cil apag√°-lo. Por raz√Ķes econ√≥micas, Portugal n√£o estava abandonado pelos portugueses.

Nos anos sessenta do s√©culo vinte, por causa da guerra colonial e por causa da emigra√ß√£o em massa dos portugueses para a Europa, a m√£o-de-obra muito barata e por vezes completamente gratuita desapareceu de Portugal. Isto √©, por raz√Ķes econ√≥micas, Portugal foi sendo, a pouco e pouco, abandonado pelos portugueses. E Portugal come√ßou a arder todos os anos. O fogo passou a limpar a floresta portuguesa. Mas o fogo limpa o mato e limpa as √°rvores. E contribui tamb√©m para o aquecimento global do planeta Terra.¬†

Durante muitos anos, os diversos governos, c√Ęmaras e bombeiros, foram investindo somas enormes em meios para apagar os fogos. Mas quase nada foi investido em meios para manter Portugal limpo e habit√°vel, em que os fogos sejam f√°ceis de apagar. Porque fogos haver√° sempre num clima como o clima portugu√™s. Uma despesa que os alem√£es n√£o precisam de fazer, mas onde os portugueses s√£o obrigados a gastar muito dinheiro todos os anos, quer a prevenir quer a apagar fogos.

Apesar dos portugueses terem voltado a optar pela solu√ß√£o mais f√°cil e mais r√°pida para resolverem o problema do desemprego, emigrando, a velocidade com que as oficinas e as f√°bricas v√£o fechando, e agora o pr√≥prio Estado, nunca houve na hist√≥ria de Portugal tanta gente sem trabalho. Os desempregados que ainda est√£o a viver em Portugal, s√£o em n√ļmero equivalente a toda a popula√ß√£o portuguesa que havia no tempo das descobertas.

Talvez por isso seja bom come√ßarmos a pensar que Portugal vale a pena. Que a primeira obriga√ß√£o dos portugueses √© tomar conta de Portugal. Que tomar conta de Portugal d√° muito trabalho e que h√° muitos portugueses que querem trabalhar. Que este trabalho n√£o pode ser deslocalizado, isto √©, tem de ser feito em Portugal. Que tomar conta de Portugal √© um dos trabalhos mais nobres que podem ser feitos e por isso tem de ser valorizado como merece. Que em Portugal n√£o h√° produ√ß√£o suficiente de energia el√©ctrica e muita √© produzida com carv√£o, g√°s e petr√≥leo importados. Que deixamos arder muitos res√≠duos florestais que poderiam produzir a energia (renov√°vel) que nos faz falta. Que √© sempre melhor dar trabalho √†s pessoas do que dar-lhe subs√≠dios. Que √© sempre melhor ensinar a pescar proporcionando condi√ß√Ķes de pesca, do que dar o peixe.

Acabar com os fogos em Portugal é uma guerra que é necessário e vale a pena travar. Se os políticos portugueses chegarem à conclusão de que só fazem falta e só devem existir se fizerem parte da solução, muita coisa poderá mudar em Portugal. Os problemas fáceis de resolver resolvem-se sozinhos. São os problemas difíceis que revelam a capacidade dos que decidem. Mas sem a mobilização da maioria dos portugueses, Portugal não tem solução. E mobilizar a grande maioria é o trabalho dos políticos. Assim eles sejam capazes de perceber isto.

P.S. Como nalgumas equipas de futebol h√° jogadores que fazem a diferen√ßa, tamb√©m nalgumas povoa√ß√Ķes h√° algumas pessoas que fazem a diferen√ßa. Em Riachos morreu o Manuel Pacheco, uma daquelas pessoas que fazem a diferen√ßa. Riachos ficou muito mais pobre. Porque o Manuel Pacheco era um daqueles que fazia que Riachos fosse uma terra onde d√° gosto viver. Pessoas como o Manuel Pacheco fazem sempre falta. Cabe-nos a n√≥s seguir o seu exemplo e contribuir para que Riachos seja uma povoa√ß√£o onde cada vez mais d√™ gosto viver.¬†


Actualizado em ( Quinta, 25 Julho 2013 16:44 )  

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