o riachense

Sexta,
17 de Novembro de 2017
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Joaquim Alberto

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Este verão o meu país vai arder (outra vez)

 FARPADAS

Diziam que este ano não ia haver verão, mas a verdade é que ele está aí e, por sinal, muito quente. Tempo maravilhoso, que convida a banhos e a descanso. Mas, porque o calor é muito e a chuva é pouca, as ervas e o mato que nasceram no inverno e cresceram verdes na primavera, secam com o calor do verão. E por isso, todos sabemos que grandes quantidades de floresta vão ser devastadas pelo fogo. E sabemos que aquelas que escapam num ano não escaparão noutro.

E é sempre assim. Todos os anos. Apesar dos grandes investimentos que os diversos Governos, Câmaras Municipais e Corporações de Bombeiros vão fazendo. Apesar disso, todos os anos ardem áreas enormes de floresta. Um país tão pequeno e que tem tanto para arder!

Quando eu era pequeno também havia incêndios. No verão fazia calor e não chovia. Como agora. A diferença era que os incêndios duravam muito menos tempo e por isso as áreas ardidas eram muito menores. Sem aviões nem camiões. Com baldes e bombas manuais. Era só o que havia naquele tempo. Mas os incêndios eram apagados rapidamente.

Naquele tempo havia em Portugal muito mais pessoas em idade de trabalhar do que há agora. Mas as pessoas com emprego eram poucas. O número de funcionários públicos era muito pequeno. Professores, médicos e enfermeiros também não eram muitos. Apenas no serviço militar, porque era obrigatório, havia mais homens do que há agora. As fábricas também empregavam pouca gente. A grande maioria das pessoas trabalhava no campo, de sol a sol. Alguns começavam a trabalhar aos seis anos, mas a maioria começava aos dez ou onze. Quando saíam da escola primária. Porque o trabalho na agricultura era, e será sempre, sazonal, havia muitas pessoas sem trabalho durante grandes períodos do ano.

Naquele tempo não havia gás nem fogões eléctricos. A comida era feita com lenha ou carvão. A caruma, as pinhas dos pinheiros, os ramos miúdos das oliveiras e os carolos do milho serviam para acender o lume. Não havia adubos. A fertilização das terras cultiváveis era feita com estrume. Para isso era preciso aproveitar todo o mato e todas as ervas que pudessem ser recolhidas. Até os grandes buracos das estradas eram tapados com molhos feitos de mato e de silvas.

Quando chegavam os calores de verão as florestas estavam limpas. Por isso, quando havia um fogo, era fácil apagá-lo. Por razões económicas, Portugal não estava abandonado pelos portugueses.

Nos anos sessenta do século vinte, por causa da guerra colonial e por causa da emigração em massa dos portugueses para a Europa, a mão-de-obra muito barata e por vezes completamente gratuita desapareceu de Portugal. Isto é, por razões económicas, Portugal foi sendo, a pouco e pouco, abandonado pelos portugueses. E Portugal começou a arder todos os anos. O fogo passou a limpar a floresta portuguesa. Mas o fogo limpa o mato e limpa as árvores. E contribui também para o aquecimento global do planeta Terra. 

Durante muitos anos, os diversos governos, câmaras e bombeiros, foram investindo somas enormes em meios para apagar os fogos. Mas quase nada foi investido em meios para manter Portugal limpo e habitável, em que os fogos sejam fáceis de apagar. Porque fogos haverá sempre num clima como o clima português. Uma despesa que os alemães não precisam de fazer, mas onde os portugueses são obrigados a gastar muito dinheiro todos os anos, quer a prevenir quer a apagar fogos.

Apesar dos portugueses terem voltado a optar pela solução mais fácil e mais rápida para resolverem o problema do desemprego, emigrando, a velocidade com que as oficinas e as fábricas vão fechando, e agora o próprio Estado, nunca houve na história de Portugal tanta gente sem trabalho. Os desempregados que ainda estão a viver em Portugal, são em número equivalente a toda a população portuguesa que havia no tempo das descobertas.

Talvez por isso seja bom começarmos a pensar que Portugal vale a pena. Que a primeira obrigação dos portugueses é tomar conta de Portugal. Que tomar conta de Portugal dá muito trabalho e que há muitos portugueses que querem trabalhar. Que este trabalho não pode ser deslocalizado, isto é, tem de ser feito em Portugal. Que tomar conta de Portugal é um dos trabalhos mais nobres que podem ser feitos e por isso tem de ser valorizado como merece. Que em Portugal não há produção suficiente de energia eléctrica e muita é produzida com carvão, gás e petróleo importados. Que deixamos arder muitos resíduos florestais que poderiam produzir a energia (renovável) que nos faz falta. Que é sempre melhor dar trabalho às pessoas do que dar-lhe subsídios. Que é sempre melhor ensinar a pescar proporcionando condições de pesca, do que dar o peixe.

Acabar com os fogos em Portugal é uma guerra que é necessário e vale a pena travar. Se os políticos portugueses chegarem à conclusão de que só fazem falta e só devem existir se fizerem parte da solução, muita coisa poderá mudar em Portugal. Os problemas fáceis de resolver resolvem-se sozinhos. São os problemas difíceis que revelam a capacidade dos que decidem. Mas sem a mobilização da maioria dos portugueses, Portugal não tem solução. E mobilizar a grande maioria é o trabalho dos políticos. Assim eles sejam capazes de perceber isto.

P.S. Como nalgumas equipas de futebol há jogadores que fazem a diferença, também nalgumas povoações há algumas pessoas que fazem a diferença. Em Riachos morreu o Manuel Pacheco, uma daquelas pessoas que fazem a diferença. Riachos ficou muito mais pobre. Porque o Manuel Pacheco era um daqueles que fazia que Riachos fosse uma terra onde dá gosto viver. Pessoas como o Manuel Pacheco fazem sempre falta. Cabe-nos a nós seguir o seu exemplo e contribuir para que Riachos seja uma povoação onde cada vez mais dê gosto viver. 


Actualizado em ( Quinta, 25 Julho 2013 16:44 )  

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