o riachense

Quinta,
19 de Outubro de 2017
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António Mário Lopes dos Santos

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Eleições, partidos, eleitores, comunicação social, cidadãos

Não sei se o leitor já se apercebeu como os momentos eleitorais são um afrodisíaco para os partidos políticos e os media? 

Passa-se dum tempo em que a ampulheta pouco ou nada acrescenta à nossa percepção da passagem dos dias a uma fase de mudança contínua, provocada, anárquica, onde a partidocracia se instala com todo o seu pesado equipamento de criação de eventos. Os media, então, caem no paroxismo da novidade informativa. Os partidos comunicam, os media reproduzem: imagens, comunicados, programas de salvação, fotografias, listas de nomes de candidatos, caídos não se sabe donde, escolhidos sabe-se lá por quem, pequenos deuses extraterrestres feitos à imagem humana, prontos, como no génesis bíblico, a misturarem-se com os seres terrenos, ajudando-os à definição dum destino. 

Na fase mais ou menos curta da campanha pré e eleitoral, mudam-se as regras do jogo, a corda do relógio obedece às necessidades da manipulação das consciências pelos interesses partidários, vêm à luz os fracassos de quem governou e as pomadas cicatrizantes de quem se dispõe a governar, isto tudo numa campanha mediática, onde se vende a coluna ou o tempo de antena pelo aumento de venda dos jornais ou pelo número de ouvintes.

A experiência de vida e a rotina de diversos momentos semelhantes é um antídoto seguro ante os euromilhões em jogo das estradas do futuro. E isso repercute-se na teimosia do aumento, nas sondagens, da abstenção e na estagnação, para não dizer, recuo, da acção propagandista dos media, e na angústia secreta dos partidos, ante os resultados das probabilidades não lá muito fiáveis, mas que lhes prometem noites infindáveis de insónia e de pesadelos.

Não é uma questão especificamente nossa, nem nacional. 

A democracia, desde que se tornou a melhor das piores formas de manipulação das massas, cria expectativas à curta vida duma melhoria das suas condições de existência. Leva-as, a cada fase de intervenção pelo voto, a uma desmemória dos fracassos já sofridos, a troco das promessas das pequenas cautelas duma lotaria para as ambições dum mundo menos ambíguo e movediço, onde a cada minuto da sua concreta existência se erguem escolhos que as empurram para campos de concentração da cada vez mais escassa sobrevivência. 

Perguntar-me-á o leitor. A ser verdade o que se narra, o que nos resta? O voto não é melhor do que o silêncio? A democracia não é superior ao autoritarismo, ao totalitarismo, à arbitrariedade da desigualdade política, económica e social? A esquerda e a direita representam o mesmo? Se a esperança definitivamente morre, o que nos espera? Vive-se ou não melhor do que no passado? O conhecimento do mundo é maior, a esperança de vida aumentou, os direitos individuais tornaram-se elementos essenciais da história das sociedades humanas. Isto não é progresso?

O problema é que as pequenas conquistas dos direitos não impediram o extermínio nazi, nem o genocídio dos khmeres vermelhos, nem o neo-colonialismo em nome da liberdade dos povos levado a efeito pelos Estados Unidos, a Europa Comunitária, a China, a Rússia, Israel, sobre os países colonizados e economicamente subjugados aos interesses dos monopólios da banca e da finança do mundo desenvolvido. As democracias desses países, desiguais, defensoras de grandes disparidades entre ricos e pobres, poderosos e governados, assentam num equilíbrio de desigualdade de defesa do privilégio. 

Nós, portugueses, nós gregos, nós italianos, nós espanhóis, nós irlandeses, somos nessa Europa o mundo mais pobre, o mundo que paga os prazeres e o modo de vida da outra Europa, com uma moeda teoricamente igual e na realidade duma desigualdade absoluta. O Euro alemão custa muito menos ao deve e haver do seu povo que o dos países do sul, e é duma disparidade absoluta para a Grécia e para Portugal. 

A democracia que se nos admite, e escrevo pensadamente, se nos admite, conduz-nos a estas perturbações nos períodos eleitorais, como a do presente, em que a nossa inquietação, o nosso medo de sobrevivência, se impõe à nossa capacidade de intervenção. 

Há alternativas para a dignidade, e estas têm sempre custos. Mas, se cedermos a esta tensão criada partidocraticamente, se não assumirmos que há outros caminhos, em que a cidadania se manifesta crítica, pública, exigindo participar na construção do futuro de forma activa, não cedendo gratuitamente o seu direito de intervenção a outrem, por mais bem-intencionado que pareça, garanto-lhe leitor, o mundo não mudará.

Chegou a hora de se aprofundar a democracia, dizendo aos partidos que eles são importantes, mas não únicos, na sua construção. E dizendo-lhes que o voto, o meu, o seu, porque limitado ao uso por outrem, tem de merecer respostas claras e não as promessas que, de quatro em quatro anos, nos transformam em responsáveis pelas mentiras de quem, hoje, nos governa

Claro que entre os de direita e os de esquerda, há diferenças. O mundo em que vivemos é ainda o reflexo dos interesses dos primeiros. Por isso, assenta na desigualdade económica e social, na exploração, na governamentalização das forças militares e militarizadas, na repressão, no medo do desemprego, na ocultação do que se pensa, na incapacidade da justiça para combater a corrupção. 

Mas os de esquerda também, nos países em que governaram, não deram bem conta do recado. Transformaram sociedades livres em sociedades burocráticas e concentracionárias. Defenderam a igualdade democrática e instauraram o totalitarismo. 

Por isso é que é necessário, à esquerda, novas estradas, onde o unanimismo, a arrogância dogmática, o aparelhismo partidário, sejam substituídos pelo diálogo, o respeito pela diferença, o mérito, a capacidade criativa, a transparência nos actos, a ética no comportamento. 

É um caminho difícil, reconheço-o. Mas o caminho da humanidade para patamares superiores de existência exige, planetariamente, novas vias para as gerações que, hoje, reclamam, nas ruas, o seu direito à participação na construção do futuro.

Um dos meios de se caminhar nesse sentido começa pelo modo como se encararem as próximas campanhas eleitorais.

 21 de Julho de 2013 

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António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt 

Actualizado em ( Quinta, 25 Julho 2013 16:43 )  

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