o riachense

Quarta,
16 de Agosto de 2017
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António Mário Lopes dos Santos

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Que rosto por detrás do rosto?

Ao terminar a leitura da entrevista do candidato Pedro Ferreira à Câmara Municipal pelo PS, tive de me concentrar na fotografia, para ligar o escrito à pessoa. E veio-me à recordação o que escrevi, neste jornal, a 6 de Março e 24 de Abril, sobre o seu papel na orquestra de António Rodrigues. De facto, tirando o estilo, não há uma única ideia original diversa das expressas programaticamente pelo actual Presidente da Câmara nas suas entrevistas, a ponto de, se se mudar a fotografia, ninguém decerto se espantaria. Todo o endividamento lá está, a continuidade das obras à custa dos fundos comunitários à maneira socrática e rodriguista, as que estão paradas, as que têm de se pagar indemnizações, as que irão, no futuro, parar. Das propostas apresentadas, 99% é o programa do crescimento de António Rodrigues, 1% é o do estilo de quem foi dirigente dos escuteiros e o é do CRIT, com o paradoxo de ser o gestor financeiro do primeiro. 

Claro que é óbvio Pedro Ferreira não poder mostrar outro programa. Quem, durante 20 anos, foi, não só o suporte, mas conivente convicto do descaminho, só pode, logicamente, continuar a teoria do empreendedorismo, ainda que a teta comece a secar e a contabilidade seja mais exigente. Reza-se, hoje, pelo PAEL como por D. Sebastião, para se poderem pagar as dívidas a fornecedores, às colectividades e às freguesias. Mas não se diz que a dívida se mantém, e esta tem, ainda que com outros juros, de ser paga a quem empresta. E, dentro da linha da propaganda comiceira, lá vêm as promessas das grandes obras, que, pelas promessas anteriores, já deveriam ter sido inauguradas noutros anos. E nem uma palavra sobre as despesas dos departamentos da presidência e vereadores, das despesas de representação, viagens, subsídios, propaganda, um submundo mal conhecido e, por muito que ao longo dos anos tenha questionado, nada transparente.

E quando refere, com motivos de orgulho, a Biblioteca, o Palácio dos Desportos, creio que se não ignora que, além da excelente qualidade de muitos serviços devida à responsabilidade dos técnicos e funcionários, na primeira a confusão de Biblioteca misturada com o Arquivo Municipal, que foi abandonado à sua pouca sorte, além da aquisição de obras fundamentais da história, cultura e literatura portuguesas, diminuída drasticamente, rareando as publicações das revistas universitárias, das modernas correntes da poesia, das edições de obras importantes a cargo das editoras como a Biblioteca Nacional, Torre do Tombo, Universidades Nacionais, que, aliás, já foi caminho andado pela biblioteca anteriormente. Quanto ao Palácio dos Desportos (a mania das grandezas!), seria melhor ouvir as opiniões de utilizadores e verificar como a sua ocupação esporádica não é conducente com o objectivo megalómano da criação, que só trará, a seu tempo, despesas de manutenção e gastos cada vez mais supérfluos e impossíveis de suporte. 

Há, contudo, um desafio na entrevista que, na prática, Pedro Ferreira não tem coragem de levar para a frente, tal como o actual governo e o presidente da República tremem só de ouvir falar em eleições antecipadas. É o caso do referendo à população, que «duvido que fizessem a mesma interpretação crítica». Faça, Faça, Pedro Ferreira. Em todas as freguesias suspensas, onde destruíram os centros de saúde, as escolas construídas pelas populações nos dois séculos anteriores, as colectividades por falta de apoio autárquico, a autonomia das administração local, a diminuição das carreiras de transporte, o aumento da emigração juvenil e adulta, o abandono que conduz ao envelhecimento e ruína, das localidades. E não esqueça o sector da saúde, o Hospital que se deixou por cumplicidade esvaziar, ou da destruição da autonomia escolar e da dignidade da profissão docente, por partidarização caciquista, centros agregados agora a cargo de gestores nomeados pelo poder executivo, com escolas transformadas em armazéns de recolha simultânea de crianças, adolescentes e adultos responsáveis só ante aquele, como os antigos directores da escola fascista, sem nenhuma ligação representativa dos corpos docente, administrativo, discente, encarregados de educação, dos agrupamentos que dirigem. Faça, faça, senhor candidato, esse referendo, não me importo de o ajudar na feitura do questionário.

Por último, a regeneração urbana. Saiamos da sala da propaganda do regime autárquico e circulemos, não só pelas ruas principais da vila, mas pelas travessas do centro histórico. Depois, as freguesias rurais. Por qual deseja começar? 

Que palavras de conforto para este submundo de destruição, sem nenhuma medida de recuperação? 

Só que o tempo tem as mesmas manias que as linhas de água tapadas pelo crescimento urbano das cidades. Quando mal se espera, enchem-se de água e os prédios inclinam-se, abrem fendas, os mais complicados ruem. O tempo guarda todos os envelopes das civilizações e das suas mudanças. De vez em quando, um deles abre-se, e como caixa de Pandora, atira para o mundo o que alguns ousaram encarcerar, em nomes dos seus interesses ditos públicos. 

Como é possível, depois de 20 anos, achar que se tem condições para continuar uma obra de profunda e continuada desarticulação do património concelhio? Ou será que só lhe cabe o papel de intermediário?

 31 de Julho de 2013 

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António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt 

Actualizado em ( Quarta, 31 Julho 2013 18:06 )  

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