o riachense

TerÁa,
23 de Maio de 2017
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Carlos Gameiro

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Matar a vaca?

 

O amigo Ricardo n√£o se importar√° que recupere aqui a conversa que tivemos h√° uns tempos:

_ ‚ÄúTemos √© que matar a vaca‚ÄĚ ‚Äď foi a express√£o que usou. Na verdade n√£o tenho a certeza que a tenha usado no sentido em que a tomei, mas √© verdade que todos a ouvimos ou dissemos j√°, e que todos lhe damos mais ou menos o mesmo sentido: O Estado √© uma enorme vaca, que todos, ou quase todos, somos obrigados a alimentar, e em cujas tetas mama uma grande parte da popula√ß√£o, essa corja de pregui√ßosos brutos e incompetentes, vulgo Fun√ß√£o P√ļblica.

Bem, comecemos pela escolha do animal: Como ouvi um criador de gado explicar a uma bonita e surpreendida cara da televisão de todos nós, a vaca gera, normalmente, ninhadas de apenas um descendente, pelo que, se queremos uma analogia com uma quantidade enorme de malta a sugar alegremente na teta do bicho, mais vale chamar à coisa… porca. Essa sim, tem ninhadas grandes e até gosta de chafurdar naquilo em que todos nos sentimos também cada vez mais enterrados.

Mas ser√° mesmo necess√°rio matar a vaca‚Ķou a porca, ou cortar o acesso dos leit√Ķes √† teta? Ser√° isto a solu√ß√£o para reduzir os custos de alimentar o animal ‚Äď a porca‚Ķou a vaca, ou o tal monstro que se calhar at√© √© uma mistura das duas?

Quem j√° viu uma ninhada de porcos crescer sabe que nem todos os leit√Ķezinhos s√£o iguais. H√° os que crescem saud√°veis, gordos e luzidios, mas h√° tamb√©m sempre um ou dois enfezados, que raramente conseguem chegar √† teta, e que acabam normal e naturalmente por ser empurrados, pisados pelos irm√£os e at√© pela pr√≥pria m√£e e cujo destino, n√£o sendo afinal diferente do dos irm√£os, √© dramaticamente antecipado, normalmente por op√ß√£o do pr√≥prio produtor. Pergunte-se a qualquer um portugu√™s n√£o trabalhador do estado, empregado ou desempregado, e a solu√ß√£o escolhida ser√° quase sempre esta, sendo que o leit√£o a abater corresponde tamb√©m quase sempre aos mesmos: funcion√°rios p√ļblicos, professores, m√©dicos e enfermeiros. N√£o pretendo aqui que estas classes profissionais correspondam a uma parte pequena da ninhada. N√£o √©. Antes pelo contr√°rio, mas considerar o seu peso no or√ßamento do estado sem considerar a import√Ęncia que t√™m para o desenvolvimento de uma sociedade verdadeiramente evolu√≠da, ou sem contrapesar os custos a haver de todos n√≥s, a muito curto prazo, se acab√°ssemos com aquilo que nos garante de fato, a todos n√≥s - seria mesmo bom que fosse em igualdade - a sa√ļde, a educa√ß√£o, a paz (nem que seja social), e j√° nem falo do p√£o e da habita√ß√£o (Oh!... Essa maldita e nefasta Constitui√ß√£o!). Imaginam-se a viver num pa√≠s em que s√≥ os filhos do Senhor Doutor t√™m direito a ser doutores? Imaginam o que far√≠amos com os milhares de jovens que ainda v√£o sendo salvos, ainda que por um sistema educativo imperfeito, de um destino de marginalidade e mis√©ria? Imaginam ver-se doentes ou feridos, barrados √† entrada de um hospital por n√£o terem em dia o seguro necess√°rio? Alguns ainda se lembrar√£o de coisas deste g√©nero. Se calhar j√° estivemos mais longe, e n√£o √© dif√≠cil encontrar nos costumados pa√≠ses de refer√™ncia quem j√° l√° esteja (os maus exemplos tamb√©m deviam servir-nos).

O problema √© que muitas vezes nos fazemos esquecidos em rela√ß√£o ao que representa realmente a vaca. Fazemos como o leit√£o que √© empurrado e espezinhado, grunhimos um bocadinho, mandamos umas bocas no caf√© e nos transportes cada vez menos p√ļblicos, escrevemos umas linhas de vez em quando e pouco mais.

O problema √© que a vaca √© uma porca, que gosta de se deitar nos melhores hot√©is, de almo√ßar no Tavares e jantar no Gambrinus depois de cumprida a sua obriga√ß√£o de figurante na novela di√°ria da ARTV (n√£o, n√£o √© nenhum canal televis√£o dedicado √† ARTe). Se calhar dev√≠amos era tirar as milhas de avi√£o e o cart√£o de cr√©dito √† vaca. Se calhar dev√≠amos tirar o sorriso da boca dos amigos da vaca, que bebem champanhe pelos gabinetes das empresas agora privadas, que sabem estar √† vontade, que podem cometer as carneiradas que quiserem, pois haver√° sempre uma teta √† espera para os salvar, √† custa da porca,‚Ķ da vaca e em boa parte dos tais funcion√°rios p√ļblicos.

Temos que matar a vaca? N√£o, a vaca pode ser salva, e a sua salva√ß√£o pode ser afinal a nossa pr√≥pria reden√ß√£o. Precisamos √© deitar m√£os √† obra. Podemos come√ßar por arrega√ßar as mangas e enfiar o boletim de voto no buraco da urna da vaca, e n√£o deixar para troikanos e outros extraterrestres decis√Ķes que devem ser nossas.

 

O autor deste texto escreveu umas vezes segundo o antigo acordo ortogr√°fico e outras segundo o novo, por nenhuma raz√£o em especial. Anda confuso com tanta idiotice.

 

Actualizado em ( Quinta, 08 Agosto 2013 12:04 )  

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