o riachense

SŠbado,
30 de Setembro de 2023
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Elisa Lopes

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A ditadura do artista
 
Portugal, país pequenino comparado com muitos outros países, tem muitos sonhos maiores que o seu tamanho.
A sua hist√≥ria come√ßa com a vontade de um homem ser independente e passa por uma quez√≠lia entre m√£e e filho. E n√£o ser√° apenas um s√≥ caso na sua hist√≥ria. H√° epis√≥dios de viagens √©picas onde homens se lan√ßaram ao assustador mar desconhecido na busca do que estaria para al√©m do seu olhar. Loucura? Coragem? (Hoje em dia seria apelidado de empreendedorismo.) Movido por estes sonhos, Portugal chega mesmo a ser dono de ¬Ĺ mundo (literalmente!). Question√°veis op√ß√Ķes levam este pequeno pa√≠s a uma dimens√£o global. Muitos sonhos depois, Portugal definha. Talvez influ√™ncia da pequenez de esp√≠rito que toldava quem governava. Enquanto isso, outros pa√≠ses avan√ßavam √† dimens√£o do universo. E Portugal, tal como um velho, encarquilhava-se ‚Äúorgulhosamente s√≥‚Ä̂Ķ
Portugal, como dizia, pequenino, pequenino, queria ser grande, mas calava as suas brilhantes mentes (calava apenas os que conseguia, porque √© imposs√≠vel calar todo o pensamento). E eis que se revoltam alguns, no desejo de dar a todos a liberdade de express√£o, de vida, de escolhas. Portugal sobrevive a todos estes tumultos e como um adolescente sedento de vida, pula e avan√ßa! Mas encontra-se perdido no mundo, apercebe-se que caminhou parado no tempo e que o restante mundo continuou a viagem. Na sua √Ęnsia de chegar onde j√° todos tinham chegado, Portugal agarra-se com unhas e dentes aos apoios europeus para alcan√ßar a estratosfera. E quase no ponto zero, muitos dos apoios foram concedidos √† arte, criaram-se companhias, formaram-se professores, apoiou-se a arte e a constru√ß√£o de novos espa√ßos de apoio √† arte (museus, teatros, salas de exposi√ß√Ķes, etc). E Portugal passa de uma situa√ß√£o de apoio necess√°rio √† implementa√ß√£o destas estrat√©gias para uma situa√ß√£o de ditadura dos subs√≠dios.
Hoje, não há artista ou estrutura artística que subsista sem qualquer tipo de apoio. O que nos traz a uma série de paradigmas interessantes: poucos avaliam a situação de muitos; muitos esforçam-se para estar à altura das expectativas de poucos; muitos tornam-se muito iguais; poucos continuam a definir o que é arte em Portugal.
E o p√ļblico? Onde fica o p√ļblico no meio de tudo isto? A obra de arte √© ou n√£o realizada para ser vista? Outro paradigma: Portugal √© um pa√≠s sem p√ļblico formado, √†s vezes parece que s√≥ os artistas s√£o o seu pr√≥prio p√ļblico. E criam-se os servi√ßos educativos para ajudar na forma√ß√£o de p√ļblicos. Mas os artistas continuam a dizer que o p√ļblico n√£o tem que perceber, s√≥ sentir; que a democracia tamb√©m existe na arte e que quem assiste ou observa √© livre de interpretar √† sua maneira, consoante os seus pressupostos. Mas como se assimila qualquer coisa sem quaisquer pressupostos? E agora j√° n√£o falamos em paradigmas, mas antes em verdadeiros buracos negros, fossos intranspon√≠veis entre artistas e p√ļblico.
A Sagração da Primavera de Mónica Calle, no Virgínia, deu-me esta sensação, de fosso entre mim e o que passava no palco. Resisti o mais possível ao tormento que aquilo se tornara e passadas 3 horas começo a questionar tudo o que se está a passar em palco, desde a proposta que lia na folha de sala que não coincidia com o que via em palco, passando pela organização coreográfica, terminando na informação (ou falta dela) de que o espetáculo teria 2h30 sem intervalo ou ainda que era um espetáculo para maiores de 12 anos, apesar de ter nus integrais. Tentava perceber porque me sentia obrigada a ficar, se seria por respeito ou porque queria mesmo saber qual o final de tudo aquilo e qual o propósito daquela maratona à resistência, apesar de nada acerca disso eu ler na folha de sala.
Questionei-me durante 4 horas sem obter qualquer resposta, nada ali fazia sentido para mim. E ent√£o percebi que, em Portugal, raramente o p√ļblico questiona o que v√™ mesmo que n√£o goste. Levantei-me e sa√≠. A ditadura ainda n√£o nos abandonou e neste caso, senti-me realmente oprimida e restringida. Questionar um espet√°culo √© questionar a pr√≥pria vida! Se o p√ļblico tem a liberdade democr√°tica para assimilar a obra √† sua medida, eu percebi que ali n√£o era livre e que a ditadura de um artista a mim n√£o me serve. Na sua estreia La Sacre duPrintemps foi vaiada e apupada, hoje em dia mais civilizados (dir√£o alguns) ficamos sentados e aguentamos. N√£o! Eu n√£o!

Actualizado em ( Sexta, 25 Outubro 2013 13:12 )  
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