o riachense

Sexta,
30 de Setembro de 2022
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Elisa Lopes

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A ditadura do artista
 
Portugal, país pequenino comparado com muitos outros países, tem muitos sonhos maiores que o seu tamanho.
A sua história começa com a vontade de um homem ser independente e passa por uma quezília entre mãe e filho. E não será apenas um só caso na sua história. Há episódios de viagens épicas onde homens se lançaram ao assustador mar desconhecido na busca do que estaria para além do seu olhar. Loucura? Coragem? (Hoje em dia seria apelidado de empreendedorismo.) Movido por estes sonhos, Portugal chega mesmo a ser dono de ½ mundo (literalmente!). Questionáveis opções levam este pequeno país a uma dimensão global. Muitos sonhos depois, Portugal definha. Talvez influência da pequenez de espírito que toldava quem governava. Enquanto isso, outros países avançavam à dimensão do universo. E Portugal, tal como um velho, encarquilhava-se “orgulhosamente só”…
Portugal, como dizia, pequenino, pequenino, queria ser grande, mas calava as suas brilhantes mentes (calava apenas os que conseguia, porque é impossível calar todo o pensamento). E eis que se revoltam alguns, no desejo de dar a todos a liberdade de expressão, de vida, de escolhas. Portugal sobrevive a todos estes tumultos e como um adolescente sedento de vida, pula e avança! Mas encontra-se perdido no mundo, apercebe-se que caminhou parado no tempo e que o restante mundo continuou a viagem. Na sua ânsia de chegar onde já todos tinham chegado, Portugal agarra-se com unhas e dentes aos apoios europeus para alcançar a estratosfera. E quase no ponto zero, muitos dos apoios foram concedidos à arte, criaram-se companhias, formaram-se professores, apoiou-se a arte e a construção de novos espaços de apoio à arte (museus, teatros, salas de exposições, etc). E Portugal passa de uma situação de apoio necessário à implementação destas estratégias para uma situação de ditadura dos subsídios.
Hoje, não há artista ou estrutura artística que subsista sem qualquer tipo de apoio. O que nos traz a uma série de paradigmas interessantes: poucos avaliam a situação de muitos; muitos esforçam-se para estar à altura das expectativas de poucos; muitos tornam-se muito iguais; poucos continuam a definir o que é arte em Portugal.
E o público? Onde fica o público no meio de tudo isto? A obra de arte é ou não realizada para ser vista? Outro paradigma: Portugal é um país sem público formado, às vezes parece que só os artistas são o seu próprio público. E criam-se os serviços educativos para ajudar na formação de públicos. Mas os artistas continuam a dizer que o público não tem que perceber, só sentir; que a democracia também existe na arte e que quem assiste ou observa é livre de interpretar à sua maneira, consoante os seus pressupostos. Mas como se assimila qualquer coisa sem quaisquer pressupostos? E agora já não falamos em paradigmas, mas antes em verdadeiros buracos negros, fossos intransponíveis entre artistas e público.
A Sagração da Primavera de Mónica Calle, no Virgínia, deu-me esta sensação, de fosso entre mim e o que passava no palco. Resisti o mais possível ao tormento que aquilo se tornara e passadas 3 horas começo a questionar tudo o que se está a passar em palco, desde a proposta que lia na folha de sala que não coincidia com o que via em palco, passando pela organização coreográfica, terminando na informação (ou falta dela) de que o espetáculo teria 2h30 sem intervalo ou ainda que era um espetáculo para maiores de 12 anos, apesar de ter nus integrais. Tentava perceber porque me sentia obrigada a ficar, se seria por respeito ou porque queria mesmo saber qual o final de tudo aquilo e qual o propósito daquela maratona à resistência, apesar de nada acerca disso eu ler na folha de sala.
Questionei-me durante 4 horas sem obter qualquer resposta, nada ali fazia sentido para mim. E então percebi que, em Portugal, raramente o público questiona o que vê mesmo que não goste. Levantei-me e saí. A ditadura ainda não nos abandonou e neste caso, senti-me realmente oprimida e restringida. Questionar um espetáculo é questionar a própria vida! Se o público tem a liberdade democrática para assimilar a obra à sua medida, eu percebi que ali não era livre e que a ditadura de um artista a mim não me serve. Na sua estreia La Sacre duPrintemps foi vaiada e apupada, hoje em dia mais civilizados (dirão alguns) ficamos sentados e aguentamos. Não! Eu não!

Actualizado em ( Sexta, 25 Outubro 2013 13:12 )  
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