o riachense

Quarta,
16 de Agosto de 2017
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Viagem através do desconforto luso


 

"É um fenómeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto.

Falta-lhe o romantismo cívico da agressão.

Somos, socialmente, uma colectividade de revoltados"

Miguel Torga 

 

Não se pode desistir. Não se deve desistir. Não quero desistir. É preciso juntar a voz a outras vozes. Este governo é um texto inenarrável. Um pesadelo. Produz mortes em série, legalizadas, em nome da troika. A tuberculose aumenta, os cancros ficam por tratar, as vacinas para a gripe acabaram-se, os pobres vão à sopa dos pobres, os jovens para o trabalho escravo da Europa comunitária, ou ficam, entregues à violência, à prostituição, ao salve-se quem puder da sobrevivência.

 A Alemanha conseguiu dominar a Europa com as suas exportações e os seus incumprimentos após a 2ª Guerra Mundial, com a bênção da maior democracia do planeta, a americana, que se esqueceu de que a desigualdade começa na sua própria casa. Por seu lado, a Comunidade Europeia transformou-se numa coisa pífia, gerida por um formigueiro pífio, onde o neo-nazismo ganha musculatura e relembra os pesadelos dum século XX abandonado à pressa, com o cheiro nauseabundo de tanto cadáver em nome dos mercados e/ou das ideologias. O conservadorismo europeu assenta num princípio basilar antiquíssimo: venha a nós o vosso reino. O mundo dos ladrões instalou-se nos computadores da finança e da banca, essa senha de mão negra que ontem se chamava assalto à mão armada, e hoje se chama com a ajuda de grandes empresas de advogados, economistas de mão cheia , mesmo a abarrotar, jornalistas a saldo de quem mais der pela pena que escreve qualquer notícia, baboseiros profissionais a encherem de cuspo e podridão os ecrans e os jornais dominados pelos grupos financeiros do capitalismo selvagem e do capitalismo de estado, empreendorismo.

É um fartar vilanagem que coloca tanto pobre à míngua para sustentar um único rico, e nem José Afonso poderia imaginar como esses vampiros se saciam na angústia , no medo, na resignação, da miséria crescente de quem pouco mais tem que um corpo como fato. E num país onde o luxo se vende, o número de milionários cresce, a gastronomia a 500 euros a refeição sai nos quatro canais televisivos como algo de banal, o presidente que não é de todos nós mostra-se que estamos mal, mas a sair da crise. E os números das estatísticas , escondê-los, desvirtuá-los , pôr os Marcos Mendes , os Medinas, os Rebelos de Sousa a venderem gato por lebre, como os velhos vendedores de elixires e pomadas milagrosas nas feiras e mercados antigos, a dizerem que menos por menos dá mais (o cheque no bolso garante-lhes a verborreia), fiquem descansados que daqui a pouco estamos lá .

É preciso não ter medo de dizer que essa gente mente e são pagos para isso. 

E por isso há gente a gritar na rua. Deveria haver mais, mas a revolta, como as epidemias, espalha -se e conquista lugares até há pouco ignorados. Há militares, magistrados, professores, bancários, técnicos, reformados, desempregados, a chamar todos os nomes porcos, feios e maus, a um grupo de meninos e meninas de boas famílias e universidades privadas, com doutoramentos nas grandes centros do pensamento europeu e mundial, tea party’s caseiros que se desunham pela obtenção das melhores classificações que as guardas pretorianas dos marioneteiros do planeta reservam, como uma bênção divina, para os alfas deste seu Admirável Mundo Novo. Os beta , os gama, os delta, os épsilon, que somos todos nós, cidadãos , são, para aqueles, coisas , umas mais frágeis do que outras, cujo fim é servi-los, cuja existência nada vale, ante o seu direito dum mundo onde a desigualdade, o privilégio, a arbitrariedade lhe são o cartão de identidade para a existência . Mas,é bom lembrar-lhes: sempre os escravos se revoltaram, sempre os Robin Hood se vingaram dos prepotentes, sempre as guardas pretorianas assassinaram os imperadores, sempre a humanidade se cansou das humilhações e, se a história do mundo não tem uma única página do seu diário de tempo sem sangue derramado, sem gente torturada, sem câmaras de gás , sem massacres horrendos, também há linhas inúmeras de vitórias sobre o medo, de resistência à subserviência e à opressão. Por muito foguete que estreleje pelo 25 de Novembro, o que está no coração dos que viveram esses tempos chama-se 25 de Abril.

É preciso reinventá-lo. Em nome dos dois Dês que faltaram cumprir: democratizar, desenvolver. Uma democracia sem pão, sem justiça, sem direito à dignidade, sem trabalho, não passa dum feira de vaidades e hipocrisias. 

E dizer a essa tropa fandanga dos Miguéis de Vasconcelos que nos desgovernam em proveito próprio e dos vampiros do planeta, que nunca é sempre um advérbio de tempo que pode significar amanhã. E o amanhã é o hoje que a gente quiser.

14 de Novembro de 2013 

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António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt 

Actualizado em ( Quinta, 14 Novembro 2013 10:54 )  

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