o riachense

TerÁa,
25 de Abril de 2017
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Jo√£o Luz

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Descrédito nos partidos

Um estudo de opini√£o divulgado recentemente pela OCDE revela que menos de 10% dos portugueses confiam nos partidos pol√≠ticos. √Č o registo mais baixo do n√≠vel de confian√ßa da sociedade na sua classe pol√≠tica. Se colocarmos de lado a relatividade dos n√ļmeros e fizermos contas redondas e simplistas, podemos ligar alguns pontos l√≥gicos. Consideremos as √ļltimas elei√ß√Ķes aut√°rquicas como exemplo: apenas 50% dos eleitores exerceram o seu direito de voto; destes, 10% confiam nos partidos, restando 90% de eleitores que votaram mas n√£o acreditam em quem votaram. Por aqui, depreendemos que somente uma parte residual do eleitorado se mostra convicto das suas op√ß√Ķes. Ora, isto √© intrigante e come√ßa a revelar algo menos √≥bvio.
Importa ir além da infantilidade de simplesmente não gostar de quem nos trata mal. Isto é um comportamento muito primário em democracia, se bem que a democracia em Portugal seja uma criança, metaforicamente falando.
Democracia pressup√Ķe esclarecimento, pressup√Ķe cidad√£os conscientes das suas op√ß√Ķes, escolhas, e respectivas consequ√™ncias. Mas democracia √© tamb√©m um modo de vida, uma profiss√£o, uma carreira movida por interesses particulares daqueles que se prop√Ķem representar os eleitores. Democracia implica uma organiza√ß√£o social em que a educa√ß√£o, o acesso livre a um ensino livre deve ser um pilar central. Quanto melhor e mais generalizado for o acesso a um ensino dito de qualidade, mais se proporciona esclarecimento, e com isto se elevam os padr√Ķes sociais.
Ao fazermos aquelas contas simples, e ao vermos que 90% dos votantes n√£o acreditam em quem votam, isto √© verdadeiramente dram√°tico. Ali√°s, antes das √ļltimas elei√ß√Ķes, a frase mais ouvida entre a gente era: ‚Äúpara qu√™ votar noutro, se j√° sabemos quem vai ganhar?‚ÄĚ A um descr√©dito na classe pol√≠tica, junta-se desnorte, desinforma√ß√£o, e uma exagerada dose de demagogia. Como causa deste estado de alma est√° n√£o s√≥ a ac√ß√£o dos tr√™s √ļnicos partidos que t√™m governado Portugal desde a consolida√ß√£o democr√°tica, mas tamb√©m aqueles que n√£o t√™m conseguido construir ou contribuir para um projecto de governabilidade de um estado social, e com isto refiro-me √† fac√ß√£o de esquerda.
A crise existencial dos partidos de esquerda poder√° dever-se concretamente √† incapacidade que t√™m revelado em propor um modelo social vi√°vel e govern√°vel. N√£o creio que isto se deva √† inadequa√ß√£o dos ideais ou dos princ√≠pios de esquerda, antes pelo contr√°rio. O problema estar√° numa mentalidade altamente conservadora que caracteriza a sociedade portuguesa, aliada a um conjunto de valores espirituais, que em conjunto constituem obst√°culos s√©rios a uma sociedade esclarecida, igualit√°ria e sustent√°vel. Isto n√£o √© novidade, e tem sido discutido em espa√ßo p√ļblico.
O que é irónico neste ciclo de democratização que temos vindo a modelar, é que a esquerda iniciou um processo revolucionário mas nunca governou. Como sabemos, o partido que se auto-designa por socialista é apenas uma figura de retórica, tal como o partido que se auto-designa por social-democrata, porque na prática ambos prosseguem linhas de acção à direita, protegendo elites conservadoras e tradicionalistas, o que nada tem a ver com socialismo ou social-democracia. Devido principalmente a estes dois partidos, mais de 90% da população deixou hoje de acreditar em toda a classe política, e isto acaba por incluir aqueles que nunca governaram e que desesperadamente chamam de populismo às formas como os cidadãos expressam o seu desagrado.
Nas √ļltimas elei√ß√Ķes aut√°rquicas foi perspicaz, portanto, a estrat√©gia de desviar a aten√ß√£o dos partidos, renegando filia√ß√Ķes e simpatias, e mascarar candidaturas como independentes. Em Riachos resultou. Dos mais de quatro mil eleitores, pouco mais de setecentos elegeram o executivo da freguesia.
Isto √© democracia, ou melhor, isto √© a democracia que tem vindo a ser constru√≠da. Quando a esquerda reclama e culpabiliza os cidad√£os de n√£o evitarem este estado de coisas ao n√£o votarem, nem se apercebe que est√° a dar um tiro no p√©, porque afinal se n√£o tem representatividade, isto √©, votantes, isso deve-se acima de tudo √† sua pr√≥pria ac√ß√£o e conte√ļdo do discurso pol√≠tico.
Posso parecer convencional ao balizar esta opini√£o nos dois p√≥los ideol√≥gicos de refer√™ncia (a esquerda e a direita), mas se o fa√ßo √© porque, quer o discurso pol√≠tico, quer o medi√°tico, de uma maneira geral, parecem esbater-se numa am√°lgama de argumentos e contra-argumentos perfeitamente triviais, sem alcance pr√°tico, e que pouco mais fazem do que alimentar uma forma de organiza√ß√£o pol√≠tica que n√£o est√° a dar resposta √†s grandes quest√Ķes sociais e aos problemas subjacentes. Vejo, assim, utilidade em rever e esclarecer alguns princ√≠pios ideol√≥gicos de fundo, sobretudo para que 90% da popula√ß√£o portuguesa possa vislumbrar em que tipo de sociedade quer viver, e quais os modelos pol√≠ticos que podem ser alcan√ßados. Isso, sim, seria um caminho para uma reforma do Estado, e principalmente para recuperar um sentido de cidadania.

Actualizado em ( Quarta, 20 Novembro 2013 17:23 )  

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