o riachense

Quinta,
29 de Junho de 2017
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Princípio ou precipício?

 

1. Quando vejo directores de escolas-agrupamentos a defenderem, a partir dos rankings ministeriais, que o meu OMO (escola-agrupamento) lava mais branco que o teu, há algo de que estão falar: do estado a que chegou a educação em Portugal.

2. Quando se parece esquecer que um ranking ministerial é um acto político, para vender uma mercadoria política, a um país desculturado apolítico, entrar-se de cara lavada nesse programa pornográfico que assenta na mensagem vigarista de defesa dum ensino (o privado) contra o outro (o público) é nunca ter lido um célebre poema com muitos autores, mas a que Brecht deu expressão, que se resume em que, quando acontece aos outros está tudo certo, mas chega sempre a nossa vez e então verifica-se que os outros tratam-nos da mesma maneira. Leia-se o Processo, de Kafka e veja-se se não cabe lá inteiro.

3. Sou um defensor, desde que me conheço, do ensino público. Sobre o ensino privado, chegou-me a adolescência, num colégio para os filhos de quem podia pagar e uma escola industrial para criar bons operários, empregados dos serviços e boas donas de casa, como defendia a então escritora Laura Santos, para fazer a minha opção profissional dum ensino de qualidade, público, mas onde ser diferente merece atenção diferente. Daí, alimentação, transportes, psicólogos, corpo docente, discente, administrativo, estável, boas instalações e tecnologias próprias para a aprendizagem, estar tudo no mesmo nível de preocupações. 

4. Nada tenho contra as famílias que desejam os seus filhos no ensino privado – onde muitos dos professores do ensino público faziam no meu tempo  um gancho, para melhorar os seus vencimentos -mas, como nunca alinhei nesse tipo de jogo, não tenho pejo em dizer-lhes. Eu também não passo férias nos hotéis Pestana, mas tenho tanto direito como os que efectivamente lá ficam, e muitos à minha custa. Só que o Estado não me subsidia o desejo de ser igual aos que, do Estado, por lá se rotinizam. Por que raio hei-de pagar aos filhos desses que me exploram a escola que se recusa, por falta de condições – roupa, comida, higiene, escassez, ignorância, etc – aos que sei que nunca lá entrarão?

Querem um ensino privado, à vontade. Mas paguem-no. Sejam coerentes com os vossos desejos. 

5. No século XIX o liberalismo e o positivismo criaram uma elite burguesa que defendeu a escola pública, primária, secundária, universitária. 

O século XXI conheceu os netos dessa burguesia, que vão da Wall Street ao BIC, do cruzeiro no Atlântico ao Casino Estoril, das passagens de moda de Paris aos restaurantes das cinco estrelas Michelin, com o mesmo à vontade que percorrem as secretarias de estado, as chefias das secretas e da espionagem, as maçonarias, o tráfico das cunhas e privilégios, as empresas de advocacia e os negócios estrangeiros, os colégios e universidades privadas.

6. Raro o governante deste governo que andou numa  escola pública. Filhos de algo e de algua, meninos e meninas de gente de (não busquem os antecessores, que a Torre do Tombo e os registos posteriores de baptismo podem assustar-vos) condição social da elitocracia pum pum, aprenderam, da infância ao estado adulto, que os outros  existem, porque para um que mande são necessários muitos servidores.

7. Que a escola pública entre no jogo desse Monopólio que lhe é intrinsecamente estranho e, por partidarite, estupidite, burricadite, se deixe enredar num jogo de tira-puxa, espelho meu, espelho meu, quem é melhor do que eu, é como monologar um sermão de Santo António aos peixes do bom Padre António Vieira que o não livrou da pide  inquisitorial setecentista.

8. Percorrer a história do mundo faz bem, para se perceber que a educação nunca foi uma arma do estado, mas sim da cidadania. Por cada escola pública construída, ruia um muro da intolerância, da prepotência, do privilégio, da exploração da credibilidade e do medo humanos. Quando, hoje, um governo de netos dessa burguesia de outrora nos vem cantar loas, em nome duma linha de Cascais do luxo (há outras, sob o manto diáfano do turismo, onde a miséria cresce como uma epidemia), e nos rouba, em nome dos financeiros  da Troika, o direito a uma escola digna, onde o país estruture as suas raízes de desenvolvimento, criatividade, humanismo, eu quero dizer aos meus ex-colegas desse malefício que se designou mega-agrupamento de escolas, pensem no poema de Brecht, nos avisos de José Saramago, não venham para a praça pública falar de educação como se fosse uma mercadoria, um dia estarão sós e ninguém ouvirá o vosso queixume.

9. Como raciocinava o senhor bom senso a educação lusa desta gentinha do poder troikado vai de vitória em vitória até à derrota final.


22 de Novembro de 2013 

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António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt 

Actualizado em ( Sexta, 22 Novembro 2013 18:52 )  

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