o riachense

Sbado,
21 de Outubro de 2017
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O futuro em cada dia

 Já poucas coisas, neste país, me criam admiração. Já poucas pessoas, na vida política, me causam surpresa ou entusiasmo. Chega-se a uma fase da vida, que os círculos se estreitam. A família, alguns amigos, os livros, a escrita, definem balizas para o presente. Sou dos que deixaram de pensar no futuro, sem recusar a intervenção no presente. O futuro começa hoje, respondo aos que me incitam a apostar no combate pelo amanhã. Relembro a manifestação dos polícias, vejo-os satisfeitos, por terem, de forma cúmplice, subido as escadas do Parlamento, tendo recuado a partir daí, porque o limite entre a democracia e o que poderia vir a seguir estava na porta da entrada. Abusaram dum direito que, quando em serviço, recusam à bastonada, a outros grevistas não policiais. Abriram um precedente, diz-se . Creio que a caixa de Pandora deste país já nada tem de flagelos no interior. A maldade, o crime, a corrupção, a venalidade,o desemprego, a miséria, a violência sexual, o tráfico de armas, drogas, órgãos, vidas humanas, caminham a nosso lado, publicitam-se a cada momento nos media portugueses, numa total impunidade. A cidadania estrebucha. Os sindicatos e os partidos misturam-se para serem apenas um corpo de protesto, mas a cada manifestação, a questão aumenta: e depois? 

Partidos, políticos, órgãos de poder, magistraturas, militares, perdem a cada dia que passa a reputação dificilmente conquistada no 25 de Abril. Atingido o poder, divorciaram-se das pessoas. Usam-nas, como tropa de choque, não as escutam. Levam-nos a greves, a manifestações, mas não abrem mão dos seus direitos partidários, de elites privilegiadas nos quadros em que se transformaram. Chefias, dirigentes, vereadores, presidentes de sindicatos, associações – eis o futuro que me apontam, no seu passado direccionista de mais de trinta anos? Não escrevo nomes: a Assembleia da República está cheia deles. Os media invadem-nos a mente diariamente, numa lavagem ao cérebro, com as suas frases declamatórias, as suas ideologias memorizadas nas escolas partidárias, crentes dum catecismo de poucos crentes e cada vez mais desistentes. Mário Soares convida-nos à exigência da demissão do Presidente, do governo, da dissolução da Assembleia,eu estou de acordo; mas quem nos trouxe quase até aqui? As homenagens a ex-presidentes, Eanes, lá virá Sampaio, relembram, execrando a incapacidade de Cavaco Silva, o Sebastianismo sob a dominação filipina. Tudo continua como se Portugal fosse um local amaldiçoado pela Europa, os seus habitantes dez milhões de indigentes a quem basta fechar as fronteiras e cercar militarmente pelo mar, como faziam nos séculos passados, quando lhes dava na gana, ingleses e franceses, para se transformarem em prisioneiros sem pijama e sem número dum campo de concentração donde se não consegue sair sem licença da Troika. 

As últimas eleições autárquicas mudaram as moscas – o laranja tornou-se rosa. A corrupção acabou? 

As medidas tomadas ou a tomar, prometidas nos programas, melhoraram as condições de vida das populações? As rendas de casa baixaram? O preço da água? O IMI? Deixaram de se fazer empréstimos para acabar obras e pagar multas dos incumprimentos? Limpam-se os logradouros públicos dos prédios, onde pululam ratos, pulgas, baratas, moscas? As ruínas em que se transformaram os centros urbanos e rurais valem tanto como as placas para a memória da história , sem pensar que o futuro se não conquista com artifícios e fungagás circenses?

Aprova-se uma política de roubo legal na Assembleia da República aos direitos dos reformados, enquanto pululam em organismos e gabinetes governamentais milhares de jovens das jotas, com vencimentos iguais ou acima dos mais altos da função pública. Onde estão os filhos desses contemporâneos ministros, deputados, ex-presidentes, administradores, magistrados, políticos, sindicalistas? No desemprego? Na emigração forçada?

Dir-me-ão, irónicos: ninguém se safa? Das elites, mesmo muito poucos. A escola pública, como a saúde pública, como o desenvolvimento, foram destruídas pela ganância. Quantos fundos comunitários cumpriram a sua missão? Quantas fortunas se fizeram com o que deveria ser para o desenvolvimento?

Há um tabu na sociedade portuguesa. Nunca tanto se roubou desde que se entrou na Comunidade Europeia. Mas nunca se publicou, com uma ou outra excepção impossível de esconder, sobre os autores dos roubos, dos desvios, das fortunas feitas em anos, meses, dias. E todos vivemos, à esquerda, ao centro, à direita, nessa sombra dum purgatório de aparências, a tratar da vidinha, a enviar pela internet, pelo facebooK, todas as frustrações que a aflição dum quotidiano de sombra transforma em textos de denúncia, mas que nunca surgem em mais lado nenhum.

O advogado Daniel Proença de Carvalho vai ser o presidente não executivo da sociedade Controlinveste, acrescentando mais uma à lista de largas dezenas de cargos de administração que exerce, agora ao serviço (decerto não gratuito) do grupo de António Mosquito, Luís Montez, Milenium BCP, Banco Espírito Santo. Paulo Portas, o irrevogável demissionário que se transmudou vice-primeiro ministro, compara os exportadores aos navegantes dos descobrimentos. Das suas leituras nunca fizeram, decerto, Camões, Mendes Pinto, Damião de Góis, João de Barros, Diogo de Couto, a História Trágico-Marítima, nem historiadores como Vitorino Magalhães Godinho ou Luís de Albuquerque.

Reflicto, ateu, as palavras do papa Francisco, que O Público transcreve: «Esta Economia mata», faz prevalecer «a lei do mais forte, o mais poderoso come o mais fraco», «os excluídos não são explorados, são desperdícios. lixo».As igrejas cristãs têm muita culpa deste estado a que chegou o capitalismo selvagem planetário. Talvez por isso, em autocrítica, ele afirme: «Prefiro uma Igreja ferida e suja por andar na rua a uma Igreja interessada em ser o centro e que acabe enclausurada num emaranhado de obsessões e rituais».

O mundo, papa Francisco, se Igreja seguisse esse destino, mudaria imenso. Mas o meu cepticismo mantém-se, vendo como a e quem estão associados os corruptores.

28 de Novembro de 2013 

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António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt 

Actualizado em ( Quinta, 28 Novembro 2013 13:02 )  

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