o riachense

Quinta,
29 de Junho de 2017
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2014 vai ser o ano da mudança?

 A imprensa semanal, em cada fim de ano, habituou-se à apresentação do que , a seu ver, merece registo , na mole imensa dos acontecimentos mundiais e nacionais. 

Desabituei-me de considerar importante muito dessas efemérides e a centrar a minha opção mais nos seres humanos, que tentam sobreviver num mundo cada vez mais dominado por elites financeiro-militar-religiosas, defendendo a sua dignidade, o seu direito à existência. O tempo tem-me ensinado que os líderes das democracias mundiais pouco mais são do que marionetas num palco de sombras doutros poderes. Mais, que a democracia das sociedades contemporâneas assenta na exploração desenfreada da mole imensa dos cidadãos desses países a favor de minorias que usufruem do seu esforço, do seu trabalho, do seu sofrimento, da sua própria morte. É um mundo antropófago, cruel, desumanizado, que aponta como vectores do futuro, o empobrecimento das sociedades, a utilização do trabalho servil e escravo, o abandono das políticas de igualdade social, a alienação da informação, transformando os media em instrumentos de manipulação e orientação das consciências, a supressão da população idosa ou doente. Os meios são os de sempre – mistificação, mentira, manipulação, medo, controlo dos três poderes básicos das democracias, o legislativo, o executivo, o judicial, uso gradual da violência legalizada -; só variam consoante a resistência e a oposição dos cidadãos, cansados de não ver alternativas aos seus protestos de rua, ou ao voto nos partidos que assumem em maior ou menor grau a defesa dos seus interesses. O cepticismo, a angústia, a ameaça da transformação da sua existência em desperdício, pelo desemprego, pelo não emprego, pela marginalização social, aumentam o desespero, fomentam a resignação e o desamparo, conduzem directamente à fome, à doença, à perda do humano, ao suicídio ou ao crime. 

O planeta, visto globalmente, é uma fotografia dum manicómio concentracionário, com ilhas de luxo e guardas pretorianos cercando os primeiros e defendendo o privilégio das segundas.

Há para tudo isto um limite. Nada é eterno. No nosso país, Salazar destruiu gerações de portugueses, Marcelo Caetano ficou-se na ambiguidade, ante dezenas de jovens utilizados como carne de canhão na defesa dos interesses dos monopólios colonialistas escondidos sob a iluminação feérica dum nacionalismo hipócrita.

 O 25 de Abril terminou com um pesadelo, criou outros caminhos. As gerações actuais nasceram num mundo pretensamente livre, mas as estradas seguidas, sob o controlo das elites do capitalismo saídas da partilha do mundo dos pós 2ª Guerra Mundial, reconstruíram os monopólios, criaram outros, estrangularam o desenvolvimento em nome do privilégio. Apanhados, como país periférico, na teia dessas mudanças, assumimos a desonestidade dum Euro paritário, com o da Alemanha, o da França, o da Holanda, que não só contribuiu para o nosso empobrecimento, como nos colocou em dívida perene com os financeiros desses países. Não foi um ingresso na Comunidade Europeia para sermos europeus, antes uma armadilha para sermos a sua carne para canhão e os compradores privilegiados das suas exportações, e os pagantes dos seus juros e da mão d’obra especializada que lhes falta..

Há um cansaço em todos os grupos etários e sócio-profissionais, a noção de que tal situação não pode durar muito, se aproxima o fim dum ciclo, que envolve estado, partidos, sociedade, Europa, mundo. Não é possível ver os filhos no desemprego, ou na emigração forçada, os netos sem qualquer caminho futuro, e assistir à conversa dum Marques Mendes, dum Marcelo Rebelo de Sousa, de tantos outros que, bem pagos e alimentados, nos impingem o Lexotan da sonolência e da resignação. Quando me roubam, através da manobra do IRS, como neste mês de Dezembro, parte substancial da minha reforma, cortam-me o direito de ajudar os meus, que estão desempregados ou que necessitam, por serem jovens e com dificuldades de sobrevivência. É a família que é atingida no seu mais íntimo e mais sagrado, na sua solidariedade. É um roubo para garantir os privilégios dos financeiros, do governo e assessores, dos administradores e empresas de advogados que têm os seus representantes no Parlamento para fazerem as leis que lhes interessam.

Há uma esquerda que vai da social-democracia à extrema-esquerda, que se não revê nestes partidos. Que vota nulo como protesto, e que no ano que se abre, ante as probabilidades de novos impostos e roubos que se prevêem no horizonte, pretenderá, através da intervenção, obrigar que os partidos de esquerda se abram a um programa comum , sem monopólios partidários, com uma alternativa programática clara ao governo neo-liberal de Passos Coelho.

O 40º Aniversário do 25 de Abril, como as eleições para o Parlamento Europeu, talvez venham a ser uma aviso ao PS de António José Seguro que demonstra, quer nacional, quer autarquicamente, ter muito pouca diferença do liberalismo de Passos Coelho, bem como ao enquistamento do Partido Comunista Português, tão importante no protesto, na defesa da sua reconhecida história de resistência e de luta, mas tão estreito na sua abertura democrática, como à implosão dum BE cada vez mais afastado do projecto inicial.

Se essa esquerda introduzir um pouco de ar fresco nesta paralisia de casulos ideológicos, neste ano que ora começa, talvez possamos dizer, como Baptista Bastos, em crónica de 27 de Dezembro: «Estamos aqui para o que der e vier. Estamos aqui, onde sempre estivemos. Podem contar connosco, com a força do que acreditamos»

29 de Dezembro de 2013 

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António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt 

Actualizado em ( Segunda, 30 Dezembro 2013 14:20 )  

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