o riachense

TerÁa,
19 de Setembro de 2017
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Jo√£o Luz

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A mesa 4 e o grupo dos 25's

Vai demorar algum tempo, talvez pouco mais do que uma d√ļzia de anos, para que o panorama pol√≠tico e, por conseguinte, a constru√ß√£o social, venham a tornar-se realmente interessantes. N√£o quero com isto dizer que venham a ser melhores ou piores. Fazer um vatic√≠nio desta natureza seria imprudente, e revelaria desconhecimento da hist√≥ria da democracia, que tem s√©culos, ou at√© das civiliza√ß√Ķes, que tem mil√©nios. N√£o tenho tamb√©m qualquer esperan√ßa de que a falibilidade humana venha a ser reconhecida ao ponto de finalmente aceitarmos que n√£o temos a m√≠nima ideia do que andamos c√° a fazer. Vamos fazendo, depois logo se v√™. Tem sido esta a tend√™ncia, e dificilmente seria de outro modo.
Ao arriscar uma previs√£o para a pr√≥xima d√©cada e meia, fa√ßo-o com base naquilo que hoje √© observ√°vel, retirando da√≠ possibilidades de evolu√ß√£o. Digo que o panorama pode vir a ser interessante a partir de uma constata√ß√£o muito precisa, que parte da rela√ß√£o entre duas vari√°veis: a mesa 4 e os grupos dos 25‚Äôs. O que significa isto? N√£o √© uma senha encriptada. √Č simplesmente uma rela√ß√£o geracional, como n√£o podia deixar de ser. Tem-se escrito muito, discutido muito, apontado muito dedo ao conflito de gera√ß√Ķes, o que me parece ser altamente improdutivo, para n√£o dizer perda de tempo. Usar a express√£o ‚Äúconflito‚ÄĚ quando falamos do que acontece entre pais e filhos, equivale ao uso da express√£o ‚Äúcombate‚ÄĚ quando falamos de pol√≠tica: nenhuma das partes est√° disposta a ceder perante o ataque.
Vamos por partes. Mesa 4 é uma expressão de origem e contexto muito riachenses, mas que se aplica em todo o lado. Na mesa 4, os eleitores têm entre 18 e 35 anos, registam uma taxa de abstenção que ronda os 65%, e são aqueles que os partidos tentam cativar, mas não sabem como. A geração da mesa 4 não quer saber de política, não acredita nos partidos, não sabe que projecto de vida pode ter, nem que tipo de emprego pode ter. Esta geração, porém, está em constante ligação com o mundo, é altamente tecnológica, acede a mais informação, e sabe muito bem o que a política na prática realmente é. Os 35% de eleitores desta geração que votam e que aceitam o actual modelo, estão portanto, em minoria. Além disso, sabemos que os decisores que emergem desta minoria são formatados em juventudes partidárias, seguindo uma velha tradição de juventudes políticas que remontam à Segunda Grande Guerra, e se mantêm hoje em várias linhas partidárias.
Os grupos dos 25‚Äôs √© uma express√£o que aqui deixo como sugest√£o, para caracterizar a gera√ß√£o que protagonizou a revolu√ß√£o e a contra-revolu√ß√£o ocorridas entre 1974 e 1975, as quais marcaram profundamente as √ļltimas d√©cadas deste pa√≠s. Trata-se de uma gera√ß√£o politizada, activista, partid√°ria, movida por grelhas ideol√≥gicas, e crente num modelo social est√°vel, hierarquizado, assente numa governa√ß√£o centralizada. Esta gera√ß√£o, por√©m, levou o pa√≠s a uma situa√ß√£o de bancarrota por duas vezes em menos de quarenta anos, manteve intactas as elites econ√≥micas em promiscuidade com o poder pol√≠tico, enfim, acusa a gera√ß√£o da mesa 4 de estar a desperdi√ßar a ‚Äúconquista democr√°tica‚ÄĚ ao n√£o exercer o seu direito de voto, e com isso abrir a porta para se instalarem poderes totalit√°rios. Infelizmente, considero este argumento profundamente demag√≥gico. Primeiro, porque j√° vivemos num sistema totalit√°rio; em segundo, porque um regime democr√°tico, como estamos a constatar, n√£o √© garantia de uma sociedade justa e igualit√°ria, esta sim, a grande utopia.
Se tentarmos encaixar ambas as gera√ß√Ķes, percebemos que isso n√£o √© poss√≠vel. Resta-nos, por isso, relacion√°-las e tentar perceber, ou simplificar, se poss√≠vel, algumas tend√™ncias. Uma delas, a mais √≥bvia, √© a gradual substitui√ß√£o da gera√ß√£o mais antiga pela mais recente, como que por uma ordem natural dos acontecimentos, a qual, na sua ess√™ncia, √© revolu√ß√£o, ou seja, √© mudan√ßa. Sem complicar muito a quest√£o, o que poder√° acontecer quando o grupo dos 25‚Äôs se retirar de cena e a mesa 4 tomar a frente √© uma revolu√ß√£o sem ideologia e sem manifesto, mas com ideias, muitas, e em protesto. A manter-se esta despolitiza√ß√£o, como se poder√° legitimar uma futura minoria de modo a estabelecer-se como governo? Ser√° isso permitido pela maioria abstencionista e apartid√°ria? Que modelo de governa√ß√£o poder√° existir numa sociedade democr√°tica p√≥s-partid√°ria? Teremos um modelo regionalista de democracia directa? Como definiremos as prioridades sociais e a gest√£o da coisa p√ļblica? Que modos de vida teremos de articular?
A meu ver, √© este o (grande) interesse levantado pela mesa 4. Quem est√° neste momento no poder, seja econ√≥mico ou pol√≠tico, √© uma mistura geracional oriunda dos grupos dos 25‚Äôs e dos seus filhos. N√£o haver√° aqui, como tamb√©m podemos constatar, grandes diferen√ßas estruturais entre os que uns e outros fazem. A minha secreta esperan√ßa vai, sim, para a mesa 4, porque estes ter√£o de encontrar, e v√£o encontrar, solu√ß√Ķes diferentes, espero que mais eficazes, daquelas que est√£o a ser postas em pr√°tica. No fundo, tenho esperan√ßa que a mesa 4 entre em ruptura com a continuidade de problemas que j√° E√ßa colocava de maneira t√£o clara nas suas Farpas. Com estas quest√Ķes, encerro este incr√≠vel ano das nossas vidas, este duro e desafiante momento das nossas vidas, para voltar a este tema, se o acaso nos permitir, somente daqui a d√©cada e meia, adiantando, com quem ainda c√° esteja, um pouco mais sobre este assunto.
Actualizado em ( Segunda, 30 Dezembro 2013 14:25 )  

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