o riachense

TerÁa,
23 de Maio de 2017
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Joaquim Alberto

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 Hoje é o primeiro dia do resto das nossas vidas

FARPADAS

Ao nascer todos sabemos uma coisa: um dia vamos morrer. Todos sabemos isto, mas todos temos dificuldade em aceitar que um dia vamos morrer. Por isso, o dia do nascimento é um dia de festa (festejado todos os anos) e o dia da morte é um dia de luto. 

Nos √ļltimos anos tem havido uma grande transforma√ß√£o na maneira como aqueles que ficam vivos encaram a morte dos entes queridos. Quando eu era novo o luto era muito exteriorizado. Havia muita gente a gritar e a chorar, e os familiares mais pr√≥ximos tinham que vestir de negro. Havia mesmo tempos marcados, creio que pelo costume em cada comunidade, para cada um andar vestido de luto. Algumas pessoas chegavam a pagar a mulheres para irem gritar e chorar nos funerais.

Os tempos mudaram e agora o luto é muito mais interior do que era dantes. Talvez por isso, também muito mais difícil.

H√° tr√™s ocasi√Ķes em que a morte, e o luto respetivo, √© aceite mais facilmente: quando a crian√ßa morre √† nascen√ßa, (caso felizmente cada vez mais raro); quando a pessoa morre na sequ√™ncia de uma doen√ßa prolongada e muito dolorosa e que a medicina ainda n√£o consegue curar; e quando a pessoa morre de velhice (esta, por ser a √ļnica morte que √© natural, √© a que se aceita melhor).

Mas quando a morte atinge pessoas na flor da idade, pessoas com uma enorme alegria de viver, pessoas que t√™m todas as condi√ß√Ķes para serem felizes e contribu√≠rem para a felicidade dos outros, nestes casos √© muito dif√≠cil aceitar estas mortes e por isso o luto √© sempre muito mais dif√≠cil. E quando queremos encontrar uma explica√ß√£o para acontecimentos que ningu√©m pode explicar, ent√£o ainda mais dif√≠cil se torna.

Na minha família aconteceram várias mortes difíceis de aceitar. Nunca é possível substituir uma pessoa que morreu por outra. A vida dos que ficam vivos sofre sempre uma grande transformação. Agora foi mais uma. A Inês ainda estava no começo da vida. Mas surgiu o desastre, que nunca está programado, mas que tudo transforma.

Cada pessoa reage de maneira diferente. Mas h√° rea√ß√Ķes positivas e rea√ß√Ķes negativas. Rea√ß√Ķes negativas s√£o aquelas que nos tornam infelizes e que contribuem para a infelicidade dos outros. Rea√ß√Ķes positivas s√£o aquelas que nos fazem transformar o desastre em acidente; que nos fazem aproveitar o acidente para ser mais um ponto de partida no sentido de sermos cada vez melhores; ser ponto de partida para aumentar a nossa determina√ß√£o na luta por uma sociedade mais justa, mais livre, mais fraterna. N√£o interessa o que temos, interessa o que somos.

Nelson Mandela morreu. Cumpriu bem a sua miss√£o. Os grandes deste mundo, aqueles que t√™m muito, foram exibir a sua hipocrisia. Prestar homenagem a Nelson Mandela, seria tentar p√īr em pr√°tica as pol√≠ticas pelas quais ele sempre lutou, arriscando nisso a pr√≥pria vida: criar condi√ß√Ķes para a igualdade, para a liberdade e para a fraternidade entre todas as pessoas da terra. Os grandes deste mundo fazem exatamente o contr√°rio. S√£o hip√≥critas. S√£o mentirosos.

A Inês não teve tempo para viver. Cabe-nos a nós, que estamos vivos, prestar-lhe a homenagem que ela merece. Sem mentira nem hipocrisia. Porque hoje é o primeiro dia do resto das nossas vidas.

Actualizado em ( Quarta, 08 Janeiro 2014 12:46 )  

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