o riachense

Sexta,
17 de Novembro de 2017
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A besta humana

Não, não estou a referir-me ao animal humano. Estou mesmo a referir-me ao homem que é uma besta. Tipo humano que os dias como os que atravessamos tendem a fazer aparecer como cogumelos num tronco podre no outono.
 
Seria de esperar que as épocas em que todos precisamos mais uns dos outros trouxessem o melhor das pessoas e das sociedades ao de cima. E que essa sublimação da comunidade ajudasse a ultrapassar, em conjunto, as dificuldades que se nos colocam.
Um por todos e todos por um. Mais, talvez, o todos por um. 
 
Não é assim. Olho à volta e observo o crescendo de atitudes egoístas, agressivas, racistas, mesquinhas, preconceituosas e ignorantes, por parte de tantos de nós. Vejo o abandono a que são votadas pelos que em primeiro lugar lhes deviam valer, tantas crianças de hoje, que serão os homens e mulheres de amanhã. Que valores levam estas novas gerações, se os seus pais e vizinhos, se os seus mentores e professores, os trocaram por carreiras e incessantes procuras de estatuto e poder pessoal, por realizações e satisfações pessoais, por prazer e diversão?
 
Como serão os políticos de amanhã, a avaliar pelos exemplos que lhes dão os políticos de hoje? De que nos serve termos um mundo “interligado” se o que mais circula na “rede” são insultos, pornografia, extorsão, fraudes? Vivemos num estado de euforia imbecilizante colectiva. De que nos serve dizer que defendemos a democracia, quando a maior parte de nós a confunde com uma espécie de “ditadura da maioria”, e mais grave, achamos que essa interpretação está correcta? Como podemos achar que é possível criar uma sociedade melhor e mais justa se nos colocamos de um dos lados de uma inexistente barreira e designamos os do “outro lado” como sendo “ladrões”, “criminosos”, “oportunistas” e “irresponsáveis”?
Porque é que tudo tem que ser guerra, confronto, conflito? É assim entre países, entre partidos, entre clubes de futebol, entre vizinhos.“O ataque é a melhor defesa” aconselham aqueles que mais à frente relembrarão que “quem vive pela espada, pela espada morrerá”…
Só há uma explicação: somos, de facto, umas bestas. 
 
Somos umas bestas. Quando nos sentamos ao volante e ignoramos a nossa segurança e a dos outros, somos umas bestas. Quando negamos aos mais fracos e carenciados a pouca ajuda que possamos dar, somos umas bestas. Quando atribuímos à maldade aquilo que pode tantas vezes ser explicado pela infelicidade, somos umas bestas. Quando achamos que uma árvore representa a floresta, somos umas bestas. Quando colocamos na nossa boca as palavras de outra besta, somos ainda mais bestas.
 
E as bestas governam-nos. Espojam-se em estábulos de finas madeiras e fartas manjedouras, mas não deixam de ser umas bestas. Que tratam os seus concidadãos como bestas de uma espécie inferior. Lá está, todas as bestas são iguais, mas algumas são mais bestas que outras. E há aquelas que se aproveitam do seu ascendente sobre as restantes para as espezinharem, espoliarem dos mais elementares direitos, que ignoram bestialmenteque não há, nem pode haver, regras sem excepção, que esqueceram os deveres de fidelidade, de gratidão, de beneficência e de justiça.
 
Temos assim bestas sentadas em carroças puxadas por bestas. Obviamente, não iremos longe.
Movemo-nos olhando para o passado esquecendo as lições deste ou só retirando dele o que nos convém. Olhamos para o futuro com visões redutoras, considerando que apenas a nossa visão é realista. Esperamos e pedimos aos santinhos para que que àqueles que nos dizem que são nossos adversários o pior aconteça, porque isso é o melhor para nós. Temos a certeza que o hábito faz o monge, mas sabemos que não devemos julgar um livro pela capa.
 
Concluindo, que já vai longo: muitos de nós andamos por cá, porque caímos aqui. E nesse intervalo de tempo que mediou entre essa queda e o presente, não cumprimos a mais elementar das obrigações de um ser humano que se quer libertar do jugo da bestialidade: o de nos desenvolvermos intelectual e moralmente para alcançar o nosso pleno potencial enquanto indivíduos e enquanto membros de uma comunidade.
E por isso muitos de nós não passamos de bestas. Passando pela vida distribuindo coices e deixando estrume de má qualidade.


Actualizado em ( Quarta, 22 Janeiro 2014 15:42 )  

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