o riachense

TerÁa,
19 de Setembro de 2017
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A besta humana

Não, não estou a referir-me ao animal humano. Estou mesmo a referir-me ao homem que é uma besta. Tipo humano que os dias como os que atravessamos tendem a fazer aparecer como cogumelos num tronco podre no outono.
 
Seria de esperar que as épocas em que todos precisamos mais uns dos outros trouxessem o melhor das pessoas e das sociedades ao de cima. E que essa sublimação da comunidade ajudasse a ultrapassar, em conjunto, as dificuldades que se nos colocam.
Um por todos e todos por um. Mais, talvez, o todos por um. 
 
N√£o √© assim. Olho √† volta e observo o crescendo de atitudes ego√≠stas, agressivas, racistas, mesquinhas, preconceituosas e ignorantes, por parte de tantos de n√≥s. Vejo o abandono a que s√£o votadas pelos que em primeiro lugar lhes deviam valer, tantas crian√ßas de hoje, que ser√£o os homens e mulheres de amanh√£. Que valores levam estas novas gera√ß√Ķes, se os seus pais e vizinhos, se os seus mentores e professores, os trocaram por carreiras e incessantes procuras de estatuto e poder pessoal, por realiza√ß√Ķes e satisfa√ß√Ķes pessoais, por prazer e divers√£o?
 
Como ser√£o os pol√≠ticos de amanh√£, a avaliar pelos exemplos que lhes d√£o os pol√≠ticos de hoje? De que nos serve termos um mundo ‚Äúinterligado‚ÄĚ se o que mais circula na ‚Äúrede‚ÄĚ s√£o insultos, pornografia, extors√£o, fraudes? Vivemos num estado de euforia imbecilizante colectiva. De que nos serve dizer que defendemos a democracia, quando a maior parte de n√≥s a confunde com uma esp√©cie de ‚Äúditadura da maioria‚ÄĚ, e mais grave, achamos que essa interpreta√ß√£o est√° correcta? Como podemos achar que √© poss√≠vel criar uma sociedade melhor e mais justa se nos colocamos de um dos lados de uma inexistente barreira e designamos os do ‚Äúoutro lado‚ÄĚ como sendo ‚Äúladr√Ķes‚ÄĚ, ‚Äúcriminosos‚ÄĚ, ‚Äúoportunistas‚ÄĚ e ‚Äúirrespons√°veis‚ÄĚ?
Porque √© que tudo tem que ser guerra, confronto, conflito? √Č assim entre pa√≠ses, entre partidos, entre clubes de futebol, entre vizinhos.‚ÄúO ataque √© a melhor defesa‚ÄĚ aconselham aqueles que mais √† frente relembrar√£o que ‚Äúquem vive pela espada, pela espada morrer√°‚Ä̂Ķ
Só há uma explicação: somos, de facto, umas bestas. 
 
Somos umas bestas. Quando nos sentamos ao volante e ignoramos a nossa segurança e a dos outros, somos umas bestas. Quando negamos aos mais fracos e carenciados a pouca ajuda que possamos dar, somos umas bestas. Quando atribuímos à maldade aquilo que pode tantas vezes ser explicado pela infelicidade, somos umas bestas. Quando achamos que uma árvore representa a floresta, somos umas bestas. Quando colocamos na nossa boca as palavras de outra besta, somos ainda mais bestas.
 
E as bestas governam-nos. Espojam-se em estábulos de finas madeiras e fartas manjedouras, mas não deixam de ser umas bestas. Que tratam os seus concidadãos como bestas de uma espécie inferior. Lá está, todas as bestas são iguais, mas algumas são mais bestas que outras. E há aquelas que se aproveitam do seu ascendente sobre as restantes para as espezinharem, espoliarem dos mais elementares direitos, que ignoram bestialmenteque não há, nem pode haver, regras sem excepção, que esqueceram os deveres de fidelidade, de gratidão, de beneficência e de justiça.
 
Temos assim bestas sentadas em carroças puxadas por bestas. Obviamente, não iremos longe.
Movemo-nos olhando para o passado esquecendo as li√ß√Ķes deste ou s√≥ retirando dele o que nos conv√©m. Olhamos para o futuro com vis√Ķes redutoras, considerando que apenas a nossa vis√£o √© realista. Esperamos e pedimos aos santinhos para que que √†queles que nos dizem que s√£o nossos advers√°rios o pior aconte√ßa, porque isso √© o melhor para n√≥s. Temos a certeza que o h√°bito faz o monge, mas sabemos que n√£o devemos julgar um livro pela capa.
 
Concluindo, que j√° vai longo: muitos de n√≥s andamos por c√°, porque ca√≠mos aqui. E nesse intervalo de tempo que mediou entre essa queda e o presente, n√£o cumprimos a mais elementar das obriga√ß√Ķes de um ser humano que se quer libertar do jugo da bestialidade: o de nos desenvolvermos intelectual e moralmente para alcan√ßar o nosso pleno potencial enquanto indiv√≠duos e enquanto membros de uma comunidade.
E por isso muitos de nós não passamos de bestas. Passando pela vida distribuindo coices e deixando estrume de má qualidade.


Actualizado em ( Quarta, 22 Janeiro 2014 15:42 )  

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