o riachense

TerÁa,
11 de Dezembro de 2018
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Ana Paula Lopes

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Caixa de Pandora

Uma das personalidades que mais admiro √© Marie Curie. N√£o s√≥ pelo contributo para a hist√≥ria da ci√™ncia mas tamb√©m pelo contributo para a hist√≥ria das mulheres na ci√™ncia. Foi a primeira pessoa a receber duas vezes o pr√©mio Nobel (e em duas √°reas distintas ‚Äď F√≠sica e Qu√≠mica). Foi a primeira professora mulher na Universidade Sorbonne. Foi a primeira mulher a ser sepultada no pante√£o nacional em Fran√ßa. Foi de facto not√°vel o seu trabalho e dedica√ß√£o √† ci√™ncia. As suas descobertas tiveram forte influ√™ncia em eventos que marcaram a hist√≥ria da Humanidade.

 

Quando esta ambiciosa e perspicaz cientista, em parceria com o marido e outros importantes físicos do início do século vinte, revelaram ao mundo o poder dos seus recém-descobertos elementos, plutónio e rádio, abriu-se a caixa de Pandora! Cientistas viram nestas descobertas portas abertas para mundos desconhecidos. A magia dos raios-X que permitiam ver para além da pele. Uma fonte de energia barata. A hipótese de uma propulsão inicial de tal ordem forte que poderia fazer uma nave atingir a velocidade da luz e viajar para além do sistema solar e quem sabe da Via Láctea! Bem, a ideia do raio-X foi concretizada e é hoje uma mais valia no diagnóstico médico. A (pouco segura) energia nuclear é produzida em centrais em todo o mundo. Já a propulsão inicial de uma nave espacial usando grandes quantidades de plutónio não foi (felizmente) concretizada.

N√£o sei se estes investigadores se aperceberam da for√ßa e grandeza concentradas naquelas escassas gramas de subst√Ęncia que conseguiram extrair de outras mat√©rias, mas o tempo revelou-nos que o Homem n√£o soube lidar com todo este poder. N√£o se apercebeu dos efeitos nocivos para os seres vivos e para al√©m disso usou a for√ßa radioactiva dos elementos descobertos para desenvolver aquilo que mais mal√©volo e perverso a ci√™ncia nos pode oferecer: armamento e armas de destrui√ß√£o em massa.

A d√ļvida que mais me assola √© se um cientista que se associa a projectos como o projecto Manhattan (que desenvolveu a bomba at√≥mica norte-americana usada em Hiroxima e Nagasaki) tem conhecimento do uso que vai ser dado ao seu invento. Ser√° que a sua genialidade √© ingenuamente entregue a dirigentes mal-intencionados ou, em nome do financiamento ilimitado para a investiga√ß√£o, estes homens da ci√™ncia se vendem aos senhores da guerra e do fanatismo, do xenofobismo e do massacre de inocentes? Como √© que algu√©m se vangloria ou permite que o vangloriem por ser respons√°vel pela cria√ß√£o de algo como uma bomba at√≥mica?

Em v√°rios document√°rios e literatura da hist√≥ria da ci√™ncia se refere que f√≠sicos do tal projecto Manhattan viveram os seus √ļltimos tempos atormentados com a monstruosidade da sua inven√ß√£o e com a necessidade de se dar uma dimens√£o √©tica √† actividade cient√≠fica. Mas tamb√©m existem relatos que lhes atribuem car√°cter de cientistas mal√©volos, g√©nios do mal, monstros. Diz-se que Oppenheimer mostrou agrado, aquando do ensaio, e disse: ‚ÄúFunciona!‚ÄĚ. O mesmo cientista mais tarde afirmou que lamentava o facto de o invento n√£o ter ficado pronto a tempo de ser usado sobre o ex√©rcito alem√£o e que considerava que a segunda explos√£o sobre Nagasaki n√£o fez sentido do ponto de vista militar. Se o bombardeamento fosse sobre o inimigo nazi ou se fosse estrategicamente √ļtil ent√£o j√° seria leg√≠timo? Em Hiroxima morreram instantaneamente cerca de oitenta mil pessoas. Estima-se que tenham perdido a vida nos dois bombardeamentos perto de duzentas mil.

Parece pouco actual discutir este tipo de quest√Ķes mas a verdade √© que por todo o mundo g√©nios continuam a associar-se a projectos indignos. Ainda agora se discute o uso de armas qu√≠micas na S√≠ria. Muitos pa√≠ses possuem arsenal nuclear. Quem √© que, e em nome de qu√™ ou quem, em pleno ano de 2014, se dedica a usar o seu conhecimento e o progresso cient√≠fico para desenvolver instrumentos de morte e de atrocidade sobre civis, incluindo crian√ßas? E este tipo de armamento estar√° agora s√≥ confinado a uma zona do globo, ao fanatismo religioso ou a regimes n√£o democr√°ticos? Ser√° que n√£o existir√£o tamb√©m no mundo ocidental? E os cientistas que o conceberam sabiam o que faziam? E se sabiam, em que patamar √©tico colocam a sua actividade cient√≠fica?

Estes são exemplos extremos do uso indevido do conhecimento. Noutras perspectivas não tão monstruosas vemos também plasmada a necessidade de estabelecermos limites éticos sobre o que se pode ou não fazer com o conhecimento. Fazer clonagem de seres humanos? Alterar geneticamente um embrião para que o bebé gerado não seja propenso a certas doenças ou para que tenha olhos azuis ou de uma outra cor escolhida pelos pais? Analisar o ADN da pessoa que vamos contratar para a nossa empresa para se saber se ficará doente no futuro? Os cientistas deviam fazer uma espécie de juramento ou compromisso (tipo Juramento de Hipócrates) em como só usariam a sabedoria para fazer o bem. Soberanos e mecenas deviam fazer juramento ou compromisso em como só encomendam e patrocinam investigação que nos faça evoluir como civilização e que, respeitando os limites naturais da vida humana, nos livre de maleitas e males que nos causam sofrimento e dor, numa perspectiva de respeito permanente pelo planeta em que vivemos.

Por favor, podemos fechar a caixa de Pandora?

Actualizado em ( Quarta, 22 Janeiro 2014 15:43 )  
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