o riachense

Quarta,
24 de Julho de 2019
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Era uma vez um homem que vivia no Casal do Riacho

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Carlos Manuel Pereira construiu uma base de dados onde registou todos os graus de parentesco em Riachos, desde o surgimento da povoação.

 

Carlos Manuel Pereira é uma espécie de contador de histórias com objectividade. Quase uma década de pesquisas documentais sobre as origens de Riachos transformou-o no historiador mais bem documentado desta freguesia com um território de 15 km2. A partir de uma pesquisa sobre a sua família e de tudo o que se passou para o papel nos últimos 500 anos neste canto da paróquia de Santiago, extraiu provas do aparecimento inaugural da palavra Riacho, comprovou a veracidade da expressão “somos todos primos”, descobriu a importância das alcunhas na individualização das pessoas e registou muitos factos familiares que permitem inferir, por exemplo, a nomeação de lugares ou a relação com a evolução da demografia. E muitas curiosidades, muitas, daquelas que lhe serviram de combustível para nunca mais largar a investigação de documentos antigos. Mas o bichinho veio de procurar a história da sua família.
 
O nono de doze irmãos, filhos de Alfredo Duarte Pereira e Henriqueta de Sousa, ainda conheceu os avós todos, embora tenha deles pouca memória, mas dos bisavós ficou apenas uma incógnita por desvendar, que se veio a manifestar mais tarde na forma de curiosidade pela história das famílias em Riachos.
 
Trinta anos depois de ter saído de Riachos, regressou aos 58 de idade, numa altura em que já tinha começado a pesquisar sobre a sua família. Apesar do que poderia parecer, não é o ponto de vista romântico sobre a sua terra que o move. No seu trabalho viu sempre as coisas o mais objectivamente possível, assegura. É um historiador autodidacta que utiliza métodos rigorosos de registo e referências e que já está a tentar contribuir para a história local.
 
Quando colocou as mãos à obra com o desejo de conhecer todos os seus antepassados, começou no princípio: por volta de 1530, altura em que os livros dos registos paroquiais começaram a ser escriturados com os eventos básicos das famílias: nascimentos, casamentos e óbitos. Um ponto de partida suficientemente antigo para acompanhar o aparecimento dos primeiros núcleos no território a que hoje se chama Riachos. E claro, ao verificar que os documentos dizem que em 1530 não existia tal coisa chamada Riachos, a curiosidade estendeu-se logo às origens da povoação, na procura de pistas que apontassem para os seus primeiros moradores.
  
Algum tempo depois de se pôr a ler os livros dos registos paroquiais de Santiago - demorou o seu tempo até o fazer com facilidade, pois teve de se adaptar a caligrafias manuais tão antigas - só quando chegou a 1570 encontrou um tal Afonso Fernandes, “de alcunha o Riacho, morador em Valada, no termo da vila de Torres Novas”. O Riacho ficou imortalizado num processo inquisitorial de 1554, à espera que Manuel Pereira o viesse a descobrir no século XXI. Riacho “não era mais do que uma alcunha dos lavradores que estavam aqui a meio do século XVI”. Família e criados morariam no casal do Riacho e, alguns anos mais tarde, irá aparecer um registo de baptismo de um filho de um casal que diz ser morador nos Casais dos Riachos. Esse lavrador de alcunha Riacho terá sido o principal responsável pela fixação de várias famílias no lugar que haveria de ser conhecido por Casais dos Riachos. Enquanto ia registando todos os eventos de pessoas que diziam ser ali moradores, foi assistindo ao facto do nome do lugar passar a ser referido simplesmente por Riachos “algures no princípio do século XVII, parecia já bem definida uma localidade que assim nasceu naturalmente”, diz o investigador.
E as descobertas paralelas começaram a aparecer. No tal processo da Inquisição, o Afonso Riacho aparece como fiador de um indivíduo da Zibreira que era cristão-novo, e que foi julgado em Lisboa. Tal relação significaria que o primeiro Riacho era judeu? Para já não passa de uma hipótese, enfraquecida pelo facto de o tal zibreirense ser mercador, o que fazia crer que tivessem apenas uma relação de negócios.
Depois de muitas pequenas grandes descobertas como estas que fizeram com que o seu “autodidatismo” não passasse de um pormenor de percurso, chegado a este ponto e perante o risco de se perder esta informação toda, Manuel Pereira, programador informático de profissão, tratou de arranjar uma base de dados para ir guardando tudo.
 

Afonso Fernandes Riacho, morador em Valada, no termo de Torres Novas,
aparece pela primeira vez num processo da Inquisição de 1554

 
Terminada a pesquisa na Torre do Tombo e de registo de quatro séculos de eventos familiares nos Casais do Riacho, Casais dos Riachos, Riachos, Lagar Novo, Casais Novos, Casal das Lobas, Casais Castelos, Estação do Minhoto, todos diversos núcleos populacionais bem separados e com desenvolvimentos em épocas díspares (disso falaremos mais abaixo), tornou-se fácil aceder à árvore genealógica de qualquer pessoa que tenha vivido em Riachos até 1910, através dessa base de dados.
Da pesquisa das histórias de família, com particular detalhe da sua própria família, escancarou-se a Manuel Pereira uma outra análise com conclusões que mais não fazem do que confirmar uma outra tradição oral com base empírica: a maneira como evoluíram e se ligaram as famílias todas em Riachos. Procurando os avós (bis, tris, tetra, etc.) em comum, chega-se à conclusão que quase todos os riachenses se casaram com pessoas de Riachos e têm um parentesco em 3.º ou 4.º grau.
 
Somos, de facto, todos primos, o que tem a ver, claro, com a dimensão do núcleo pequeno que era Riachos. A riqueza da sua base de dados permite confirmar muitas outras coisas além dos parentescos. Uma análise da demografia local leva o pesquisador a afirmar que Riachos seria hoje uma aldeia como Brogueira ou Alcorochel, se não tivesse chegado até ela o comboio. Até aos princípios do século XIX, o número de famílias estabilizou em cerca de 200, qualquer coisa como mil pessoas. É nas décadas de 1840/50, que a curva sobe de forma acentuada. Com a estação dos comboios houve um fluxo migratório impressionante, ainda o Entroncamento se começava a formar. “Houve uma alteração completa no tipo de população”, diz. Aliás, não é difícil encontrarmos pessoas com mais de 60 anos que se lembrem bem do movimento que existia, no início do século XX, no largo da estação que, de resto, levou claramente ao crescimento do Lagar Novo, que já lá estava de há muito tempo. 
Quando o padre registava as pessoas nos livros, Riachos era um lugar e o Lagar Novo era outro. Quantas pessoas que moram nos Casais Novos ou na Estação dizem, ainda hoje, “vou ali ao Riacho”, quando vão ao Largo? Até aos tempos modernos, Riachos era apenas o núcleo de casas à volta da capela, no Largo. Ora, mais uma confirmação daquilo que todos sabíamos mas que ganha outro sabor com a demonstração documental: aquilo que hoje é toponímia de uma vila, antigamente eram povoações diferentes. “Os Riachinhos chamar-se-ão assim porque eram um núcleo separado, era como se fosse um Riachos mais pequeno, quando o padre perguntava às pessoas de onde eram, elas diriam: - sou dali, é um Riachinho”, teoriza. Um caso bastante flagrante é o Casal das Lobas. Um padre escreveu num registo já do século XVIII: “Casal das Lobas, junto dos Riachos”. Estamos a falar de pouco mais de 200 metros de distância...
 

“Se tivesse acesso aos arquivos históricos da Santa Casa,
encontraria certamente os nomes dos primeiros confrades
da irmandade do Menino de Deus” 

 
Bom, e o que fazer com a investigação, que foi feita sem nenhum intuito académico? Os quase 15 mil nomes dos ascendentes de Riachos estão registados, toda a informação está sistematizada e permite construir árvores genealógicas a partir de qualquer ponto, basta introduzir um avô nascido até 1910. Recolhas semelhantes, há-as com fins académicos, mas que ocupam só um determinado período da história da comunidade em estudo, de cem ou duzentos anos, por causa do tempo que consome. O investigador, impressionado pelo manancial de factos fornecidos pela história, diz que “as pessoas sabem relativamente pouco. A nossa memória é extremamente curta”. E, por isso, “seria realmente uma pena perder aqueles dados todos”.
 
Democratizá-los era a melhor hipótese, disponibilizando-os a quem os quiser. Através de um projecto incrível no nosso museu comunitário, por exemplo, em que um sistema multimédia colocaria em interacção netos, pais e avós, a identificar as pessoas pela antiga maneira, pelas redes familiares, e a descobrir de forma mágica parentescos rebuscados com amigos, vizinhos ou namoradas…
Mas o que mais satisfaria o autor no imediato seria a edição em livro, uma publicação mais técnica sobre a investigação genealógica de Riachos. E com ele viria o CD com todas as redes genealógicas de Riachos até 1910.
Os nomes servem para chamar as pessoas
A história dos nomes surgiram por necessidade de identificação das pessoas, porque as pessoas nasciam até 1910 eram quase sempre baptizadas só com um nome. E por vezes os padres registavam no baptismo, por exemplo, Maria do Rosário porque era filha da Rosário.
Os nomes era aquilo que as pessoas usavam para chamar as pessoas, tal e qual como para chamar as coisas, “era a coisa mais simples do mundo”. Hoje em dia os nomes complicam as coisas; há pessoas que ninguém identifica pelo nome de registo, mas sim pelo nome por que são conhecidos (o Manel Pé Leve só ficou conhecido pelo seu nome de baptismo, Manuel Carvalho Simões, por causa dos artigos que publica com este nome).
Houve um padre de Santiago, num século destes, que sugeriu mesmo que se registasse, sempre que possível, as alcunhas porque isso facilitaria a identificação dos indivíduos.

Em busca do Senhor Jesus dos Lavradores
O interessante é pegar nas “histórias que a gente conta” para ver o que nelas faz sentido, através de um fundamento histórico. O que se aplica à imagem do Senhor Jesus dos Lavradores, que muitas pessoas dizem ter sido achada na Quinta do Minhoto. E o autor encontrou “pistas” para uma teoria verosímil sobre o aparecimento da lenda.
 
Entre os documentos que referem os terrenos que viriam a dar origem à Quinta do Minhoto há um, de 1503, escrito pela viúva do fidalgo a quem D. Afonso V deu a propriedade, que comprova que durante uns 20 anos se andou a desbravar, arrancar mato e começar a lavrar em toda extensão que hoje vai desde a Quinta do Minhoto à estrada da Malã. Nessa altura a imagem, quatrocentista, segundo um historiador de arte, seria recente e pode ter sido enterrada, por alguma razão, naqueles terrenos abandonados.
 
Para acabar com as especulações o autor tem um sonho: aceder aos arquivos históricos da Santa Casa da Misericórdia de Torres Novas à procura da documentação do acordo entre a instituição e a Irmandade dos Lavradores sobre a troca da imagem do Senhor Jesus pela do Menino de Deus. Com certeza terá havido um documento escrito por notário para comprovar o acordo que tenha envolvido a troca das imagens e que ambas as partes tenham ficado com uma cópia do documento. De resto, se não tivesse um fundamento histórico muito específico, e muito provavelmente escrito, para a saída da imagem em preces usuais em séculos passados, bem como hoje para os cortejos em Riachos, a Misericórdia não autorizaria. “Mas as pessoas nunca viram nenhum documento, não sabem nada”, diz. Já tentou, mas o seu pedido de consulta ao arquivo histórico da Misericórdia não teve resposta. 
 
As pequenas histórias documentadas ao longo dos séculos contribuem sempre para a constituição de uma história maior. Por alguma razão a Santa Casa sempre foi muito agarrada à imagem, diz. O valor que lhe foi dado pode ter a ver com o seu potencial de esmola, uma prática muito antiga. Não é por acaso que foi colocada uma grade de ferro na capela em que se encontra a imagem, na igreja de Santiago. Não foi para não roubarem a imagem, foi para não roubarem a caixa das esmolas, visto que ela foi mesmo roubada pelo pároco de Santiago, algures no tempo, documentado, claro. Há até a teoria de que a imagem terá ido inicialmente para o hospital dos lavradores e que a sua transferência acabou por acontecer  quando ocorreu um “confisco” de todos os bens das confrarias para a Santa Casa.
 
Tem pois esta interpretação crítica dos eventos que favorece a multiplicidade de perspectivas e apura o rigor histórico, e mostra-se também muito crítico quanto aos historiadores locais que publicaram coisas interessantes sem, no entanto, enunciarem as fontes.
O próprio pai fundador da história Riachense, Chora Barroso, grande parte dos documentos que produziu não têm rigor científico, o que dificulta muito a sua utilização em pesquisas actuais por lhe faltar a referência das fontes.

Curiosidades ou algo mais
Para fazer história é preciso ler muito e gastar muito tempo. Como curioso e autodidata, Manuel Pereira diz pecar no seu método porque, muitas vezes, quando vê algo novo interessante quer saber logo mais sobre o assunto e vai por aí fora atrás dessas pistas.
 
Por exemplo, há particularidades que aparecem nos registos que permitem verificar em Riachos fenómenos globais. Manuel Pereira ficou verdadeiramente impressionado com o número de pessoas que morreram sem chegar a casar. Em Riachos, até ao séc. XVIII, mais de 50% dos indivíduos que aqui nasceram, morreram até aos seis anos de idade. Um número que está na média do território nacional, mas que não deixa de impressionar.
 
Ou encontrar relatos de práticas que, apesar de invulgares, eram o padrão em casos semelhantes. Certa criança corria perigo de vida pouco depois do nascimento, por isso era baptizada à pressa em casa, mas quando acabava por ir à igreja formalizar o baptismo era feito um exorcismo, uma espécie de exercício de cautela porque o padre não conhecia a pessoa que a tinha baptizado.
 
Ou ainda a questão dos nomes dos locais que ficam tão mais tangíveis quando nos apercebemos da sua origem. Os Casais Castelos começaram por ser o Casal de um Manuel Rodrigues Castelo. Logo, o padre disse no registo que ele era residente no Casal do Castelo. Depois o senhor teve filhos e o lugar passou a chamar-se os Casais dos Castelos. A propósito, historicamente, é curioso hoje existir esta ligação de Riachos aos Casais Castelos mas verificar que, por exemplo, de 1660, época em que a capela de Riachos já existia, até já ao século XX houve apenas duas crianças nascidas nos Casais Castelos que trouxeram a baptizar à capela de Riachos, tendo sido todas as outras baptizadas na igreja de Santiago. Trata-se provavelmente de uma formalidade jurisdicional que não favoreceu a ligação de Riachos aos Casais Castelos durante muitos séculos. As pessoas do Lagar Novo, por exemplo, já vinham a Riachos. 
Mas as curiosidades nunca mais acabam. Em Janeiro de 2014 o jornal O RIACHENSE começa a publicar a série de artigos "Somos todos primos", da autoria de Carlos Manuel Pereira, sobre as origens dos nomes de família existentes em Riachos.
 

Actualizado em ( Quinta, 30 Janeiro 2014 12:55 )  
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