o riachense

Sexta,
30 de Setembro de 2022
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Filipe Simões

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Na casa dos meus avós

Ainda o carro não parou e já o cão começa a ladrar atrás do portão. Foi avisado de que vínhamos e esperava impaciente. Tenho sempre medo desta parte. Eu sei que ele não morde, mas como ainda sou pequeno ele quase me toca na cara ao saltar. Faz sempre esta enorme festa quando chegamos, ladra, corre, salta, rodopia... enfim, é um cão feliz. Eu cá encolho-me todo enquanto ele não se acalma, mas gosto dele porque é muito inteligente.
 
«Lá vem a tropa toda!» diz o avô. Ele é o máximo, já vos conto.
 
«Ai os meus ricos netinhos, estão tão bonitos! Ai estás tão grande!» A avó também faz sempre uma festa quando nos vê. Não é como o cão, que por esta altura ainda não parou de nos roer os atacadores, mas por dentro também deve estar a saltar de alegria.
Chegámos mesmo a tempo do almoço, só falta preparar a alface. Ensinaram-me que só se deve temperar a salada quando estiver tudo pronto para comer, senão coze. Eu acho isso muito estranho, como é que a salada coze sem estar ao lume, mas explicaram-me que é por causa do sal; e parece que o gelo também faz queimaduras. Estamos sempre a aprender!
 
À mesa divertimo-nos imenso, há sempre um acidente qualquer provocado pela pressa, apesar de não termos pressa nenhuma. O meu pai é um ás na matéria. Mas aqui ninguém ralha por se ter entornado o sumo de laranja ou por um pedaço de carne ter caído no sítio errado. Em vez disso é a vez do avô falar: «Agora vou contar-vos uma história...» o meu avô tem sempre uma para cada ocasião e é soberbo a contá-las, todos na vila o conhecem pelas histórias que conta. Só que muitas vezes usa palavras engraçadas que eu não sei o significado, mas aprendo sempre uma nova em cada história. Hoje será sobre alguém que entorna coisas à mesa. O avô também sabe um monte de quadras e cantilenas de cor e até já escreveu livros, vejam só, não é bestial? Aprendemos muito com ele. Um dia também vou escrever as minhas próprias histórias e publicá-las em livro, prometo!
 
Chega a hora da sobremesa e é aqui que entra a especialidade da avó. Claro que o almoço estava óptimo, mas nada se compara com o bolo da bolacha, a torta da amêndoa ou o bolo mole. «Tudo quanto é bom!» como diz a avó. E tem razão! É uma excelente cozinheira e está sempre a ensinar ao meu pai alguns truques de culinária, eu não percebo nada de cozinha mas acho muito divertido a maneira como ela explica. Aqui na vila falam todos de uma maneira muito divertida e usam palavras que não se ouvem em mais lugar nenhum. Principalmente os mais velhos, como os avós. Gosto de ouvir a avó falar, mas o melhor de tudo é quando se ri. Dá umas gargalhadas muito engraçadas e apoia a mão na barriga que dá saltinhos para cima e para baixo, deviam ver, rimo-nos imenso com ela.
Depois vem a hora de visitar a horta e apanhar as laranjas. Mas antes, passamos pelo pátio. É aqui que o avô lança o arco de metal ao mesmo tempo que o faz girar a grande velocidade. O arco faz muito barulho a deslizar no chão de cimento, crrrssssh, depois volta para trás sozinho e o avô apanha-o. É formidável! Ainda melhor foi uma vez que ele fez esta habilidade à noite. Lançou o arco e zás! um monte de faíscas saltavam em todas as direcções. Eu gosto de ver as faíscas mas às vezes tenho medo porque me disseram que são muito quentes. Elas sim, coziam a alface num instante!
 
A horta do avô é muito organizada e limpa, mas nunca sei onde posso pisar, por isso vou sempre atrás de alguém mais velho. O pior é quando o da frente também se engana e lá estragamos um montinho de terra que servia para barrar a água da rega. Para a próxima, já sei. Pelo menos naquele sítio, porque de certeza que vai acontecer outra vez noutro lugar.
 
Voltamos com os sacos cheios de laranjas e eu vou visitar a arrecadação. Tem sempre o mesmo cheiro e é muito agradável, só não gosto das teias de aranha. As ferramentas muito velhas e usadas são a melhor parte porque parece mesmo que estamos numa oficina antiga. Às vezes o meu avô explica para que servem e achei o máximo quando ele disse que fabricou algumas delas, mas eu depois esqueço-me dos nomes porque são muito esquisitos. O avô sabe muita coisa, é bestial.
 
O que também é bestial são os petiscos da minha avó. Lá na vila todos fazem fila para os comprar na praça. Os mais crescidos deliciam-se com os rissóis e os rolinhos de peixe, mas eu cá prefiro os bolinhos. Aproveito sempre para tirar um à socapa enquanto a minha avó põe mais uma fornada ao lume, depois sento-me no baloiço do alpendre a comê-lo. Os bolinhos da avó são únicos, ninguém os faz tão apetitosos. Mas hoje não é dia de os fazer. Enquanto fomos apanhar as laranjas à horta a minha avó esteve a preparar o farnel. E lá está um saquinho com os melhores bolinhos do planeta! Não vejo a hora de chegar a casa e comer logo um, ou melhor, outro!
 
Depressa chega a hora das despedidas, mas vamos todos felizes porque foi um dia magnífico. Comemos muitas coisas boas, rimo-nos imenso e fizemos uma data de coisas giras que só se fazem aqui, como ver o cão a dar uma palhaça. Ele é mesmo inteligente, a sério, deviam ir lá ver. Também aprendemos muitas coisas novas. Até aprendi o que é um podão! E acho que o meu pai leva mais uma receita, vai ser um belo cozinheiro.
 
E pronto, lá vamos nós para casa com o porta-bagagens cheio de «tudo quanto é bom» e com mais uma data de histórias engraçadas para recordarmos mais tarde. Quando for crescido, vou escrever algumas dessas histórias. Depois mostro-vos.
 
Aos meus avós, Pé Leve e Preciosa.
Actualizado em ( Quinta, 06 Fevereiro 2014 17:13 )  
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