o riachense

Quinta,
29 de Junho de 2017
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Rede antissocial

Esta é uma expressão que tem surgido na comunicação social e neste momento, em que se comemoram os dez anos do facebook, não poderia ser mais pertinente uma análise ao mundo das redes sociais. 
 
Há dias, quando me aproximei da sala para começar a aula, tinha à porta um grupo de meia dúzia de alunos da turma que esperavam a minha chegada agarrados ao telemóvel e sem olharem uns para os outros. Sem conversarem uns com os outros. Que triste forma de passar o intervalo! Agarrados ao telemóvel, provavelmente no facebook, sob o pretexto de um possível contacto com alguém que nem se sabe bem quem, desprezando a companhia de alguém que está mesmo ao lado e com quem poderiam realmente conversar. Trocar umas valentes gargalhadas, quem sabe a propósito da professora de matemática. Algo mais genuíno e verdadeiro do que um simples :) ! Trocar uns olhares malandros a propósito da retaguarda da rapariga jeitosa do décimo segundo ano que acabou de passar. Não, em vez disso estavam agarrados ao telemóvel quando poderiam estar na paródia. Conversar de verdade sem ignorar o elemento mais importante das conversas – os olhares, os gestos, os sorrisos, as gargalhadas, os toques. Que tristeza resumir a comunicação só às palavras! Que tristeza pensar que o outro (que se calhar nem existe) é mais importante do que este. Este que está aqui ao lado e com quem se pode falar mesmo. Ou para quem se pode olhar. Nos olhos. 
 
Encontrar um grupo de pessoas que estão juntas sem estar, porque estão todos agarrados ao telemóvel, ignorando quem está ao seu lado, é quase o mesmo que estar a falar com alguém que a meio da nossa conversa pára de nos olhar nos olhos, pára de falar connosco, pára de nos ouvir, para tirar do bolso o malvado aparelho e ver a mensagem que acabou de receber! Ou então porque precisa desesperadamente de verificar se vai chover daqui a vinte dias ou se faz sol em Burkina Faso ou porque o Manuel, que é amigo da Rita que fez um like no face da Maria, disse que alguém tinha postado que afinal em Burkina Faso vai chover durante vinte dias. Parece-me que interromper uma conversa para ir consultar o telemóvel é o mesmo que virar as costas a alguém. Uma tremenda falta de respeito. Uma enorme falta de educação (e o que não falta por aí são desrespeitosos e mal-educados). Bem, se o tempo em Burkina Faso é mais importante que a nossa conversa se calhar mais vale nem falarmos. 
 
A ideia de se chamar rede social até faz algum sentido porque o objectivo seria estabelecer ligações sociais. Mas serão mesmo relações? Serve mesmo para ligar as pessoas? Aproxima as pessoas? Às vezes não as afasta? Para quê telefonar à Inês para irmos beber café se ontem estivemos juntas no face? Para quê visitar os primos se nos temos posto a par das novidades no facebook? A mãe da Catarina já está melhor? Sim! Foste vê-la, está com melhor cara? Não fui vê-la mas falamos no facebook!
 
A rede confere uma falsa ideia de proximidade. Parece que a troca de mensagens e o facto de seguirmos alguém nos dispensa de estarmos efectivamente com esse alguém. Depois já não há saudade. Já não há a ânsia de estarmos juntos e trocar as novidades. Por outro lado, ali, no mundo virtual, parece que as afinidades não acabam, parecemos íntimos, há à-vontade suficiente para se dizer tudo e mais alguma coisa. Afinal não há aquela inibição que o olhar dos outros nos provoca e nos impede de dizer o que não se deve, de partilhar o que não se deve, de confidenciar algo que não se deve. Conseguimos ver como isto compromete as relações de carne e osso? Já para não falar no impacto que o face tem na vida a dois. Mas isso ficará para outra reflexão…
 
Afinal Burkina Faso fica na África Ocidental e estende-se entre o deserto do Saara e o golfo da Guiné pelo que deve ser pouco provável assistir por lá a chuva durante vinte dias. Parece que nem tudo o que se lê no facebook faz sentido ou é verdadeiro.
Não quero transformar este artigo num momento saudosista com algo do género no meu tempo é que era bom mas convenhamos que a imagem de um grupo de adolescentes, agarrados a um aparelho e alheados completamente da presença uns dos outros desconcerta qualquer um e não augura nada de bom. Estes miúdos deviam estar a aproveitar o tempo entre aulas para conhecer rapazes e raparigas, jogar pingue-pongue, ir ao bar, falar sobre música, filmes, outros amigos, gostos, saídas, festas. Fortalecer relações. 
 
A rede social abriu-nos um mundo de possibilidades. Deixamos de estar confinados à realidade da nossa família, do nosso bairro, do nosso emprego, da nossa escola e do nosso país e passamos a seguir todos e tudo o que quisermos e quando quisermos, mas há que estar atento aos sinais. Os sinais que piscam quando a vida virtual tem mais ligações que a vida real. Quando o melhor amigo é alguém que nunca se viu. Quando se está com ele a toda a hora sem estar e se deixa de estar com alguém que está mesmo aqui.

Actualizado em ( Quarta, 19 Fevereiro 2014 13:41 )  

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