o riachense

TerÁa,
24 de Abril de 2018
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Rede antissocial

Esta é uma expressão que tem surgido na comunicação social e neste momento, em que se comemoram os dez anos do facebook, não poderia ser mais pertinente uma análise ao mundo das redes sociais. 
 
H√° dias, quando me aproximei da sala para come√ßar a aula, tinha √† porta um grupo de meia d√ļzia de alunos da turma que esperavam a minha chegada agarrados ao telem√≥vel e sem olharem uns para os outros. Sem conversarem uns com os outros. Que triste forma de passar o intervalo! Agarrados ao telem√≥vel, provavelmente no facebook, sob o pretexto de um poss√≠vel contacto com algu√©m que nem se sabe bem quem, desprezando a companhia de algu√©m que est√° mesmo ao lado e com quem poderiam realmente conversar. Trocar umas valentes gargalhadas, quem sabe a prop√≥sito da professora de matem√°tica. Algo mais genu√≠no e verdadeiro do que um simples :) ! Trocar uns olhares malandros a prop√≥sito da retaguarda da rapariga jeitosa do d√©cimo segundo ano que acabou de passar. N√£o, em vez disso estavam agarrados ao telem√≥vel quando poderiam estar na par√≥dia. Conversar de verdade sem ignorar o elemento mais importante das conversas ‚Äď os olhares, os gestos, os sorrisos, as gargalhadas, os toques. Que tristeza resumir a comunica√ß√£o s√≥ √†s palavras! Que tristeza pensar que o outro (que se calhar nem existe) √© mais importante do que este. Este que est√° aqui ao lado e com quem se pode falar mesmo. Ou para quem se pode olhar. Nos olhos.¬†
 
Encontrar um grupo de pessoas que estão juntas sem estar, porque estão todos agarrados ao telemóvel, ignorando quem está ao seu lado, é quase o mesmo que estar a falar com alguém que a meio da nossa conversa pára de nos olhar nos olhos, pára de falar connosco, pára de nos ouvir, para tirar do bolso o malvado aparelho e ver a mensagem que acabou de receber! Ou então porque precisa desesperadamente de verificar se vai chover daqui a vinte dias ou se faz sol em Burkina Faso ou porque o Manuel, que é amigo da Rita que fez um like no face da Maria, disse que alguém tinha postado que afinal em Burkina Faso vai chover durante vinte dias. Parece-me que interromper uma conversa para ir consultar o telemóvel é o mesmo que virar as costas a alguém. Uma tremenda falta de respeito. Uma enorme falta de educação (e o que não falta por aí são desrespeitosos e mal-educados). Bem, se o tempo em Burkina Faso é mais importante que a nossa conversa se calhar mais vale nem falarmos. 
 
A ideia de se chamar rede social at√© faz algum sentido porque o objectivo seria estabelecer liga√ß√Ķes sociais. Mas ser√£o mesmo rela√ß√Ķes? Serve mesmo para ligar as pessoas? Aproxima as pessoas? √Äs vezes n√£o as afasta? Para qu√™ telefonar √† In√™s para irmos beber caf√© se ontem estivemos juntas no face? Para qu√™ visitar os primos se nos temos posto a par das novidades no facebook? A m√£e da Catarina j√° est√° melhor? Sim! Foste v√™-la, est√° com melhor cara? N√£o fui v√™-la mas falamos no facebook!
 
A rede confere uma falsa ideia de proximidade. Parece que a troca de mensagens e o facto de seguirmos algu√©m nos dispensa de estarmos efectivamente com esse algu√©m. Depois j√° n√£o h√° saudade. J√° n√£o h√° a √Ęnsia de estarmos juntos e trocar as novidades. Por outro lado, ali, no mundo virtual, parece que as afinidades n√£o acabam, parecemos √≠ntimos, h√° √†-vontade suficiente para se dizer tudo e mais alguma coisa. Afinal n√£o h√° aquela inibi√ß√£o que o olhar dos outros nos provoca e nos impede de dizer o que n√£o se deve, de partilhar o que n√£o se deve, de confidenciar algo que n√£o se deve. Conseguimos ver como isto compromete as rela√ß√Ķes de carne e osso? J√° para n√£o falar no impacto que o face tem na vida a dois. Mas isso ficar√° para outra reflex√£o‚Ķ
 
Afinal Burkina Faso fica na √Āfrica Ocidental e estende-se entre o deserto do Saara e o golfo da Guin√© pelo que deve ser pouco prov√°vel assistir por l√° a chuva durante vinte dias. Parece que nem tudo o que se l√™ no facebook faz sentido ou √© verdadeiro.
N√£o quero transformar este artigo num momento saudosista com algo do g√©nero no meu tempo √© que era bom mas convenhamos que a imagem de um grupo de adolescentes, agarrados a um aparelho e alheados completamente da presen√ßa uns dos outros desconcerta qualquer um e n√£o augura nada de bom. Estes mi√ļdos deviam estar a aproveitar o tempo entre aulas para conhecer rapazes e raparigas, jogar pingue-pongue, ir ao bar, falar sobre m√ļsica, filmes, outros amigos, gostos, sa√≠das, festas. Fortalecer rela√ß√Ķes.¬†
 
A rede social abriu-nos um mundo de possibilidades. Deixamos de estar confinados √† realidade da nossa fam√≠lia, do nosso bairro, do nosso emprego, da nossa escola e do nosso pa√≠s e passamos a seguir todos e tudo o que quisermos e quando quisermos, mas h√° que estar atento aos sinais. Os sinais que piscam quando a vida virtual tem mais liga√ß√Ķes que a vida real. Quando o melhor amigo √© algu√©m que nunca se viu. Quando se est√° com ele a toda a hora sem estar e se deixa de estar com algu√©m que est√° mesmo aqui.

Actualizado em ( Quarta, 19 Fevereiro 2014 13:41 )  
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