o riachense

TerÁa,
23 de Maio de 2017
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√Āgua √© comida

A ingest√£o de √°gua em qualquer forma √© universalmente reconhecida como essencial para a vida humana. Mas normalmente n√£o a consideramos como alimento porque n√£o cont√©m, regra geral, qualquer das subst√Ęncias que reconhecemos como nutrientes. Mas, se hoje o seu estatuto permanece amb√≠guo, no passado foi-o ainda mais, tendo sido considerada ao longo dos s√©culos como alimento, medicamento, elemento primordial, entidade espiritual ou quase sobrenatural.
 
Acrescentando √† reflex√£o de Einstein, quando este disse que n√£o sabia como seria combatida a terceira guerra mundial, mas sabia como seria combatida a quarta ‚Äď com paus e pedras ‚Äď podemos assumir que um dos motivos, se n√£o o principal motivo, para a eclos√£o de qualquer dessas guerras ser√° o acesso √† √°gua.
 
A distribui√ß√£o desigual da √°gua no planeta representar√° um papel central na pol√≠tica global dos pr√≥ximos anos e, em 2030, poder√° ser, para al√©m do petr√≥leo, o factor determinante no sucesso econ√≥mico das na√ß√Ķes e na forma como estas se relacionar√£o entre si.
A distribui√ß√£o √© muito desigual. Repare-se por exemplo no caso da China, com 18% da popula√ß√£o mundial e apenas 8% da √°gua do planeta. Ou o do M√©dio Oriente, que j√° sofre de s√©rios problemas de disponibilidade de √°gua e onde se prev√™ que a popula√ß√£o duplique nos pr√≥ximos 40 anos. Some-se a isto os impactos das altera√ß√Ķes clim√°ticas e a gravidade da situa√ß√£o torna-se mais percept√≠vel.
 
Os especialistas prev√™em que dentro de duas d√©cadas, a procura por √°gua aumentar√° 40% em rela√ß√£o aos dias de hoje, e mais de 50% nos pa√≠ses com mais r√°pido desenvolvimento‚Ķ mas com pa√≠ses como a √ćndia, por exemplo, a sofrerem uma desacelera√ß√£o brutal do seu crescimento, pela falta de √°gua devida √† sobre-explora√ß√£o do seus aqu√≠feros e ao consumo crescente da sua popula√ß√£o, e com outros pa√≠ses como o Canad√°, o Chile ou a Col√īmbia a tornarem-se ‚Äúmagnatas da √°gua‚ÄĚ gra√ßas √†s suas abundantes reservas de √°gua.
 
Porque n√£o h√° d√ļvidas, a √°gua ser√° mais importante que o petr√≥leo‚Ķ simplesmente porque n√£o h√° alternativas. Precisamos de √°gua para a vida, precisamos de √°gua para a comida. A agricultura √© respons√°vel por cerca de 70% do consumo global de √°gua.
 
Para nós, enquanto indivíduos e comunidade, a gestão da água tornar-se-á uma questão substancial das nossas vidas. A protecção dos recursos hídricos, a redução do consumo e a reutilização da água tornar-se-ão cruciais à nossa sobrevivência e sucesso económico. E esta escassez da água irá atingir-nos na carteira também: o preço da água em todos os sectores da actividade agrícola e industrial, bem como a de utilização doméstica, aumentará exponencialmente. E os donos da água vão com toda a certeza extrair o máximo valor económico possível desse seu bem. Porque a água tem donos. E basta relembrar a vergonhosa e potencialmente criminosa gestão que Espanha está a fazer da água do Tejo para percebermos que a água tem donos…
 
Como bem sabemos e recordamos de tantos e tantos incidentes, por vezes com consequ√™ncias fatais, entre vizinhos, por for√ßa de um ribeiro desviado ou de uma represa pouco solid√°ria, as tens√Ķes que esta situa√ß√£o pode criar, levam-me a aceitar que as ‚Äúguerras da √°gua‚ÄĚ ser√£o uma realidade dentro de d√©cadas. Se os caminhos seguidos continuarem a ser os mesmos, o desespero poder√° muito bem for√ßar na√ß√Ķes ao conflito armado.
 
E nós, à beira-rio plantados, com a água a entrar-nos pelos olhos adentro quase todos os invernos, nem lhe devotamos um segundo de pensamento. Protestamos contra preços exagerados, permitindo ainda que se regue o alcatrão das rotundas no inverno, que se contaminem os lençóis de água com fertilizantes, pesticidas e descargas industriais selvagens, que não se reutilizem as águas descarregadas das ETAR - pelo simples motivo que as ditas ETAR funcionam mal e porcamente (literalmente).
 
Preocupamo-nos horrores com os Miró do BPN e nem nos preocupamos com Espanha que nos rouba a água que também é nossa e que é fundamental para a nossa vida e para a nossa economia.
 
A √°gua √© um bem essencial escasso, e como tal deve ser considerada em todas as fases da sua utiliza√ß√£o. S√≥ quando come√ßarmos a definhar de sede √© que nos lembraremos desse conceito fundamental, o dos ‚Äúfactores limitantes‚ÄĚ. Mas valia a pena pensar nisto. J√°. Agora.

Actualizado em ( Quarta, 05 Mar√ßo 2014 12:56 )  

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