o riachense

Quinta,
19 de Outubro de 2017
Tamanho do Texto
  • Increase font size
  • Default font size
  • Decrease font size
Enviar por E-mail Versão para impressão PDF
 

Rede antissocial (2): Facebook, os casais e o Benfica

Às vezes uma relação a dois é de tal forma exigente que quer o homem quer a mulher precisam de umas horas de vácuo. Tempo de nada e coisa nenhuma. Quando tudo se suspende à sua volta e cada um deles gere e descarrega as frustrações, a mágoa, a dor, a tristeza. Horas depois a coisa apazigua para voltarem a ser o mesmo casal de sempre. 
 
Os nossos avós e pais costumavam usar uma estratégia infalível. Após uma discussão acesa, um desacordo, uma desavença, uma frase que magoou, um gesto pouco bonito, o homem saía para ver o Benfica no café. Ela ficava em casa a lavar a loiça, a chorar no sofá ou a ver a novela. Em pé, em frente ao balcão, rodeado por companheiros de ocasião, ele assistia ao jogo enquanto em flashes revia o sucedido e tentava compreender a situação contemplado também a versão da mulher. Comentários com os amigos só a propósito do ponta de lança que acabou de falhar um golo. Após umas lágrimas mais intensas provocadas pela falta de jeito do marido com palavras e afectos ela envolve-se com o enredo da sua novela preferida e duas horas depois ele volta a casa de rosto mais aberto enquanto a mulher dormita no sofá de rosto já enxuto. Esta sábia e ancestral forma de resolver pequenas quezílias do dia-a-dia de um casal é seriamente comprometida quando pelo meio se envolvem meia centena de seguidores…
 
 Após uma discussão acesa, um desacordo, uma desavença, uma frase que magoou, um gesto pouco bonito, cada um agarra-se ao portátil e desabafa. A meia-luz da sala e o pequeno recanto onde ela se aninhou com o portátil no colo conferem ao momento um cariz íntimo e parece propício à introspecção e reflexão individual. Pois, acontece que a rede social e os blogues não são um diário! Aquele momento de sossego que nos parece ideal para desabafos não é um recanto escondido para atirarmos para a parede ânsias, frustrações, e coisas que no imediato rescaldo da discussão são irreflectidas, parciais e às vezes infundadas. Deviam bater na parede, cair no chão para depois se redimensionarem ao tamanho e importância que às vezes têm – coisas insignificantes empoladas pelo cansaço da rotina e do dia-a-dia. Não, não é um recanto escondido, é um palco. Onde perante uma plateia cega ela grita pormenores de uma vida a dois que não é só sua. Uma plateia cega porque ouve estes desabafos mas não vê o contexto, não vê o rosto de quem fala e portanto não consegue perceber a conotação certa que ela quer dar às palavras. Quando a Daniela afirma que o Ricardo nunca a ajuda a arrumar a cozinha no fundo queria dizer que naquele dia ele não a ajudou no fim de jantar. Mas a plateia cega ouviu um NUNCA e agarra-se ao sentido literal da palavra porque não viu o resto. O problema é que a plateia é cega mas não é surda. Nem muda. E o que se diz e mostra na internet não morre ao fim de um par de horas. Ainda a semana passada o director do Ricardo o chamou ao gabinete para lhe anunciar que tinha serviço externo no Porto durante quatro dias e lhe disse:
 
- Caro Ricardo, preciso que coordene a equipa que vai fazer a auditoria da qualidade na fábrica do Norte! Sei que não é a melhor altura… Tem tido problemas pessoais, não é? Com a sua esposa.
 
E o casal Daniela e Ricardo que os amigos e amigos dos amigos, chefes e colegas de trabalho, pais e filhos, achavam um casal bem relacionado e bem-disposto é agora visto como um casamento ameaçado, com problemas. Tudo porque naquele dia o Ricardo não tirou a loiça da máquina e não se apercebeu que a Daniela estava tão cansada que precisava mesmo dessa ajuda. Antes ele tivesse ido ao café ver o Benfica e ela tivesse ficado enrolada numa manta no sofá a ver uma maratona de episódios da Anatomia de Grey.

Actualizado em ( Quinta, 20 Março 2014 11:35 )  

Opinião

 

António Mário Lopes dos Santos

Agarrem-me, senão concorro!

 

João Triguinho Lopes

Uma história de Natal

 

Raquel Carrilho

Trumpalhada Total

 

António Mário Lopes dos Santos

Orçamentos, coisas para político ver?