o riachense

TerÁa,
11 de Dezembro de 2018
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Rede antissocial (2): Facebook, os casais e o Benfica

√Äs vezes uma rela√ß√£o a dois √© de tal forma exigente que quer o homem quer a mulher precisam de umas horas de v√°cuo. Tempo de nada e coisa nenhuma. Quando tudo se suspende √† sua volta e cada um deles gere e descarrega as frustra√ß√Ķes, a m√°goa, a dor, a tristeza. Horas depois a coisa apazigua para voltarem a ser o mesmo casal de sempre.¬†
 
Os nossos avós e pais costumavam usar uma estratégia infalível. Após uma discussão acesa, um desacordo, uma desavença, uma frase que magoou, um gesto pouco bonito, o homem saía para ver o Benfica no café. Ela ficava em casa a lavar a loiça, a chorar no sofá ou a ver a novela. Em pé, em frente ao balcão, rodeado por companheiros de ocasião, ele assistia ao jogo enquanto em flashes revia o sucedido e tentava compreender a situação contemplado também a versão da mulher. Comentários com os amigos só a propósito do ponta de lança que acabou de falhar um golo. Após umas lágrimas mais intensas provocadas pela falta de jeito do marido com palavras e afectos ela envolve-se com o enredo da sua novela preferida e duas horas depois ele volta a casa de rosto mais aberto enquanto a mulher dormita no sofá de rosto já enxuto. Esta sábia e ancestral forma de resolver pequenas quezílias do dia-a-dia de um casal é seriamente comprometida quando pelo meio se envolvem meia centena de seguidores…
 
¬†Ap√≥s uma discuss√£o acesa, um desacordo, uma desaven√ßa, uma frase que magoou, um gesto pouco bonito, cada um agarra-se ao port√°til e desabafa. A meia-luz da sala e o pequeno recanto onde ela se aninhou com o port√°til no colo conferem ao momento um cariz √≠ntimo e parece prop√≠cio √† introspec√ß√£o e reflex√£o individual. Pois, acontece que a rede social e os blogues n√£o s√£o um di√°rio! Aquele momento de sossego que nos parece ideal para desabafos n√£o √© um recanto escondido para atirarmos para a parede √Ęnsias, frustra√ß√Ķes, e coisas que no imediato rescaldo da discuss√£o s√£o irreflectidas, parciais e √†s vezes infundadas. Deviam bater na parede, cair no ch√£o para depois se redimensionarem ao tamanho e import√Ęncia que √†s vezes t√™m ‚Äď coisas insignificantes empoladas pelo cansa√ßo da rotina e do dia-a-dia. N√£o, n√£o √© um recanto escondido, √© um palco. Onde perante uma plateia cega ela grita pormenores de uma vida a dois que n√£o √© s√≥ sua. Uma plateia cega porque ouve estes desabafos mas n√£o v√™ o contexto, n√£o v√™ o rosto de quem fala e portanto n√£o consegue perceber a conota√ß√£o certa que ela quer dar √†s palavras. Quando a Daniela afirma que o Ricardo nunca a ajuda a arrumar a cozinha no fundo queria dizer que naquele dia ele n√£o a ajudou no fim de jantar. Mas a plateia cega ouviu um NUNCA e agarra-se ao sentido literal da palavra porque n√£o viu o resto. O problema √© que a plateia √© cega mas n√£o √© surda. Nem muda. E o que se diz e mostra na internet n√£o morre ao fim de um par de horas. Ainda a semana passada o director do Ricardo o chamou ao gabinete para lhe anunciar que tinha servi√ßo externo no Porto durante quatro dias e lhe disse:
 
- Caro Ricardo, preciso que coordene a equipa que vai fazer a auditoria da qualidade na fábrica do Norte! Sei que não é a melhor altura… Tem tido problemas pessoais, não é? Com a sua esposa.
 
E o casal Daniela e Ricardo que os amigos e amigos dos amigos, chefes e colegas de trabalho, pais e filhos, achavam um casal bem relacionado e bem-disposto é agora visto como um casamento ameaçado, com problemas. Tudo porque naquele dia o Ricardo não tirou a loiça da máquina e não se apercebeu que a Daniela estava tão cansada que precisava mesmo dessa ajuda. Antes ele tivesse ido ao café ver o Benfica e ela tivesse ficado enrolada numa manta no sofá a ver uma maratona de episódios da Anatomia de Grey.

Actualizado em ( Quinta, 20 Mar√ßo 2014 11:35 )  
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