o riachense

Quinta,
19 de Outubro de 2017
Tamanho do Texto
  • Increase font size
  • Default font size
  • Decrease font size
Enviar por E-mail Versão para impressão PDF

O meu país de Abril

Mais um dos craques do PSD foi libertado da pulseira electrónica e da prisão domiciliária, com a sentença de não sair do país. Chama-se Duarte Lima. Foi vice-presidente da Comissão Política do PSD entre 1989-91, presidente desse grupo parlamentar entre 1991/94. Com ligações a outros ex-responsáveis dos governos de Cavaco Silva, como José de Oliveira e Costa e Manuel Dias Loureiro. No Brasil está a ser julgado por acusação de homicídio de Rosalina Ribeiro, ex-companheira de Lúcio Tomé feteira. Em Portugal tem processos judiciais, por ligações às vigarices do BCP. 

 Quando relembro o modo como Salgueiro Maia foi tratado, percebe-se ao que se chegou e como se chegou. Quando um Catroga se vem queixar de que merecia receber mais do que recebe (só de reforma 9.693,54, fora tudo o resto). Quando a actual presidente da Assembleia da República tem uma reforma, como juíza, de 7.255 euros, fora os trocos da Assembleia. Quando o monárquico Portas consegue ser vice-primeiro ministro da República Portuguesa, cargo que lhe permite fazer o turismo à custa do que o seu governo nos rouba em nome da austeridade - de quem? Da casa da Presidência da República, maior do que a de Espanha, para fazer o quê? Das associações de advogados que fazem as leis para o governo e têm os seus representantes na Assembleia para controlarem a aprovação das suas directivas? 

Das últimos livros que saíram ultimamente, penso ler (e aconselho os meus leitores) muito em breve Os Burgueses, de Francisco Louçã, João Teixeira Lopes e Jorge Costa.  Onde se disseca o poder político e as suas ligações de profunda subserviência ao poder económico, que governa na sombra este país, com a bênção e o proveito das hierarquias civil, jurídica, religiosa e militar. Há muito que falta a divulgação de quem é quem e como se chegou a quem, neste país, em que a austeridade é aplicada por algumas centenas de políticos aliados aos mais ricos e mais corruptos, contra 99% duma população. 

Talvez por isso os militares de Abril se recusem a, com a sua presença, dar ao actual Parlamento maioritariamente anti-25 de Abril, o aval da usurpação de algo para que não contribuíram, nem defendem. Como poderiam? O que se promete, em nome da austeridade que os seus propugnadores NÃO CUMPREM, não é outra coisa que um retrocesso a um período onde a democracia era torturada nas salas da PIDE, e morria em nome de interesses coloniais em nome duma Pátria em Angola, Guiné, Cabo Verde? A escola de hoje aproxima-se da que eu conheci, desde 1962 a 1974, com directores nomeados pelo poder político e estes gerando internamente uma cadeia de cargos dirigentes baseados no amiguismo, na cor política, na perseguição e controlo dos oponentes. A saúde aproxima-se perigosamente do abandono e do afastamento dos pobres e dos velhos do direito à saúde e à qualidade de vida que os dirigentes gozam por privilégio político. Os empregos são para os compadres, basta ser jota-CDS, jota-PSD, jota-PS, para se tornar assessor dum ministro, dum Secretário de Estado, dum administrador, dum presidente da Câmara, dum qualquer lugar que permita um vencimento, um cartão de crédito, um transporte privado, um seguro de vida e de saúde, um lugar nas viagens pelo mundo em nome da causa pública. Talvez por isso não seja sensível ao patuá duma Assembleia que se apropriou do símbolo que o povo pôs nas armas dos militares, nem dum governo ao serviço da finança alemã. 

 Aos meus quarenta anos de liberdade acrescentem-se trinta e dois de fascismo. A minha geração envelheceu com o 25 de Abril como princípio dum tempo novo. Nas canções, na literatura, no cinema, na arte, na vida real, nos combates contra o fascismo, o analfabetismo, a desigualdade económica e social, a ausência de liberdade, a repressão. Muito se perdeu desse Abril, dos sonhos duma geração civil e militar, que se revia nos capitães de Abril, como um lema de esperança. E, hoje, na Associação 25 de Abril, como um sinal de que um país não é uma coutada duma minoria, nem um guardanapo de servilismo para atender os turistas do Norte da Europa e Inglaterra, sempre tão exploradora dos povos, sempre tão democrática nas desigualdades, sempre tão arrogante na sua superioridade rácica - que o conte a Irlanda e a Escócia - e sempre incapaz duma República.

Por isso aos discursos de Cavaco Silva opto pela declaração da Alexandra Lucas Coelho, na sessão em que foi receber o Grande Prémio do Romance e da Novela Portuguesa de Escritores.

Não é da minha geração, mas é-o da minha concepção do Portugal em que vivo.

E, com as suas palavras, a que presto homenagem, encerro a minha crónica, consciente de que o meu Abril continua alerta e vivo:

«Este prémio é tradicionalmente entregue pelo Presidente da República, cargo agora ocupado por Cavaco Silva que há 30 anos representa tudo o que associo mais ao salazarismo do que ao 25 de Abril.»

«Nada estranho, pois que este Presidente se faça representar na entrega de um prémio literário. Este mundo não é do seu reino. Estamos no mesmo país, mas o meu país não é o seu país… Eu gostava de dizer ao atual Presidente da República que este país não é seu, nem do governo do seu partido».

17 de Abril de 2014 

  Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar

António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt 

Actualizado em ( Quinta, 17 Abril 2014 10:12 )  

Opinião

 

António Mário Lopes dos Santos

Agarrem-me, senão concorro!

 

João Triguinho Lopes

Uma história de Natal

 

Raquel Carrilho

Trumpalhada Total

 

António Mário Lopes dos Santos

Orçamentos, coisas para político ver?