o riachense

TerÁa,
11 de Dezembro de 2018
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O bicho pap√£o

A soma de todos os medos. Incapazes de temer sentimentos, sensa√ß√Ķes ou experi√™ncias, os pequenotes materializam o medo numa personagem. Sentem-se amea√ßados na escurid√£o, temem a aus√™ncia da m√£e, sentem-se desprotegidos e com medo do desconhecido mas tudo isso se personifica no bicho pap√£o ou num outro monstro qualquer que vive debaixo da cama, num canto escuro ou perto de uma coisa em que sabem que n√£o devem mexer.¬†
E nós, adultos, de que temos medo?
H√° dias vi uma entrevista envolvente com o jornalista portugu√™s Henrique Cymerman, correspondente da SIC (e outros √≥rg√£os de comunica√ß√£o) no M√©dio Oriente, e a√≠ contactei com um medo bem real e ao mesmo tempo bem adulto. Todos n√≥s temos medo de morrer e temos pavor de perder uma pessoa que amamos. O jornalista confidenciou a prop√≥sito de uma experi√™ncia aterradora que viveu como habitante de Tel Aviv. H√° uns anos a esta parte, √† noite, foi contactado pela SIC para fazer um directo a prop√≥sito de um atentado bombista numa discoteca da cidade. O jornalista petrificou. A sua filha tinha sa√≠do para ir √† discoteca com as amigas. A mesma discoteca alvo do atentado. Descreveu ent√£o o seu p√Ęnico nos minutos seguintes em que tentava contactar a filha e n√£o conseguia e ao mesmo tempo era pressionado para entrar em directo e relatar a not√≠cia. Contou que algum tempo depois conseguiu falar com ela e que felizmente Dana estava a sair do autocarro, na paragem perto da discoteca, quando se deu a explos√£o. Uma quest√£o de minutos.¬†
Imaginamos um dia-a-dia com medo de andar de autocarro, comboio, metro ou avião? Sem saber quando uma mochila deixada na estação de metro ou num comboio explode? Ou quando estamos no nosso escritório e um avião sequestrado entra pelo edifício e acaba com o nosso sonho de felicidade ao lado do marido e dos filhotes que adoramos?
A insignific√Ęncia pol√≠tica e econ√≥mica do nosso pa√≠s no contexto mundial descansa-nos neste aspecto mas conseguimos imaginar como √© que um norte-americano, um londrino, um madrileno ou um israelita vive com este p√Ęnico? Imaginar que algu√©m pode retirar vidas (e sonhos) a civis, a fam√≠lias, para fazer passar uma mensagem ou reivindicar algo? Se calhar achamos que, pelo facto da possibilidade de atentado ser constante no dia-a-dia destas pessoas, esse medo √© minimizado. N√£o me parece. H√° dias, a prop√≥sito do d√©cimo anivers√°rio do atentado de 11 de Mar√ßo em Atocha, uma das espanholas entrevistada dizia que cada vez que apanhava o comboio para ir trabalhar se lembrava das pessoas que perderam a vida ali. E pensava ‚Äúe se‚Ķ‚ÄĚ. Imagina-se o pavor de um nova-iorquino nos √ļltimos dias com a d√ļvida em redor de um avi√£o fantasma que ningu√©m sabia onde estava?
Quando se é pequenote e se tem medo do bicho papão a mamã com o seu colo e muitos miminhos devolve o conforto e a segurança, desvanecendo a imagem de alguém ou algo que nos quer fazer mal.
E nós adultos? Como conseguimos sossegar os nossos medos quando eles são reais?
Actualizado em ( Quinta, 17 Abril 2014 10:25 )  
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