o riachense

TerÁa,
23 de Maio de 2017
Tamanho do Texto
  • Increase font size
  • Default font size
  • Decrease font size

Jo√£o Luz

Enviar por E-mail Vers√£o para impress√£o PDF

O sentido da esquerda

Há 40 anos foi começado em Portugal um processo revolucionário que provocou uma ruptura entre dois tempos. Houve claramente um antes e um depois; um regime autoritário deu lugar a um regime democrático. Herdámos dessa ruptura um documento basilar, uma Constituição, que está assente em princípios humanistas, universais e igualitários, acima de qualquer retórica ideológica: é o próprio edifício democrático em que cada um de nós pode actuar.
Ao compararmos o mundo de hoje com o de há 40 anos, percebemos facilmente que são duas realidades que pouco ou nada têm em comum. Se há quatro décadas a utopia marxista estava ainda a resistir à sua erosão, hoje fala-se sobretudo em supressão e em fim de ciclo. Isto acontece porque a utopia não se mostrou concretizável, claudicou, e aquilo que resta após a sua implosão é uma sensação de impossibilidade. Facto. Isto traz-nos a uma questão que se deve colocar sem assombro: o que significa a Esquerda, hoje, em Portugal? Afinal, que herança temos de Abril?
Al√©m dos valores humanistas, universais e igualit√°rios que parecem ser comuns em regimes democr√°ticos, nunca parece ter havido uma Esquerda em Portugal, nestes √ļltimos 40 anos. Existem, sim, Esquerdas que est√£o de costas voltadas, e uma falsa Esquerda que se auto-designa como Partido Socialista, o qual √© um dos maiores equ√≠vocos do regime democr√°tico inaugurado a 25 de Abril de 1974.
Se houvesse um sentido de Esquerda em Portugal, n√£o poderia haver tanta desigualdade social, n√£o poderia haver tanta pobreza, n√£o poderia haver tanto descr√©dito nas institui√ß√Ķes democr√°ticas, n√£o poderia haver um pa√≠s que continua nas m√£os de castas que controlam o poder econ√≥mico, que por sua vez controla o poder pol√≠tico. Isto n√£o √© um sentido de Esquerda. E isto faz com que este pa√≠s fique preso num conservadorismo elitista que tudo far√° para que os valores fundamentais da Constitui√ß√£o sejam subvertidos e anulados. Se deixarmos que isto aconte√ßa, os √ļltimos 40 anos de pouco ou nada nos servem.
O que as esquerdas devem fazer é reinventarem-se; olharem para o mundo que sempre quiseram mudar para melhor, e perceber de que maneira podem hoje pensar e propor um modelo social que impeça a desagregação, e promova acima de tudo igualdade e liberdade. Porque igualdade e liberdade são valores que as elites conservadoras não compreendem, não aceitam e não respeitam, por considerarem que o poder e o conhecimento não podem sair da sua esfera de influência. Foi precisamente isto que a Esquerda sempre contrariou, por acreditar numa sociedade aberta e plural.
E porque a hist√≥ria das civiliza√ß√Ķes √© feita de interrup√ß√Ķes, de recome√ßos, de avan√ßos, temos de nos perguntar, com a seriedade poss√≠vel, como queremos viver em sociedade no final deste ciclo civilizacional, marcado por um capitalismo esmagador.
Qual √© a import√Ęncia das nossas rela√ß√Ķes de proximidade, que estabelecemos com a comunidade a que pertencemos? Quais s√£o as consequ√™ncias imediatas das nossas escolhas, mesmo que nos pare√ßam por vezes insignificantes, mas que determinam o estado do mundo? Que modo de vida ambicionamos para n√≥s mesmos e para aqueles que nos v√£o suceder? S√£o tr√™s respostas a perguntas fundamentais, cada uma situada num espa√ßo diferente: o espa√ßo imediato da comunidade e da regi√£o, que √© o da nossa viv√™ncia; o espa√ßo global, que √© o da nossa sobreviv√™ncia enquanto esp√©cie; o espa√ßo a construir, que √© o futuro pr√≥ximo.
Em cada resposta há um pressuposto que condiciona tudo o resto: ética, ou seja, aquilo que posso ambicionar para mim deve ser aquilo que todos possam ambicionar para si mesmos. Isto é a base de um projecto comum. Todavia, ética é provavelmente a maior falha do ser humano, e neste aspecto particular todas as ideologias se mostraram falíveis.
Se hoje cerca de metade dos cidad√£os est√£o desligados das decis√Ķes pol√≠ticas, havendo uma tend√™ncia para que essa indiferen√ßa aumente, esse descr√©dito √© da √ļnica e exclusiva responsabilidade da classe pol√≠tica, por n√£o ter conseguido conduzir o processo revolucion√°rio iniciado em Abril de 1974 e terminado em Novembro de 1975. Se da direita conservadora n√£o se pode esperar mais do que temos, da esquerda esper√°mos muito mais, mas n√£o foi alcan√ßado. Importa, por isso, regressar √† comunidade, ver como vivem as pessoas nas nossas ruas e bairros, ver como podem viver melhor, acedendo √† educa√ß√£o, √† sa√ļde e √† cultura, perceber que condi√ß√Ķes s√£o necess√°rias para concretizarem os seus projectos de vida, a sua realiza√ß√£o pessoal.
√Č por esta raz√£o que a pol√≠tica aut√°rquica e local deve ser profundamente repensada, para que a popula√ß√£o seja bem servida e n√£o usurpada, como tem sido. Devemos pensar numa democracia mais directa, mais descentralizada, mais √°gil, mais perto de cada um de n√≥s. Neste sentido, √© urgente avan√ßar com uma regionaliza√ß√£o; desenhar um novo mapa administrativo e pol√≠tico para o pa√≠s, que d√™ maior autonomia √†s popula√ß√Ķes e impe√ßa assimetrias entre litoral e interior, al√©m de promover uma gest√£o territorial equilibrada. Este tempo que vivemos √© o de recuperar a ideia de comunidade, de apoio m√ļtuo, de identidade dos lugares que decidimos habitar, de relacionamento de proximidade, de exercer uma cidadania informada e consciente. Isto s√≥ acontece com institui√ß√Ķes democr√°ticas perto das pessoas, de acesso universal √† cultura, de igualdade de oportunidades, de concretiza√ß√£o das nossas ambi√ß√Ķes mais justas.¬†
Pertencemos ao mundo, mas se é aqui que decidimos estar e construir uma vida, é porque acreditamos num país melhor e numa sociedade mais solidária.
Actualizado em ( Quinta, 24 Abril 2014 12:38 )  

Opini√£o

 

Jo√£o Triguinho Lopes

Uma história de Natal

 

Raquel Carrilho

Trumpalhada Total

 

António Mário Lopes dos Santos

Orçamentos, coisas para político ver?

 

Jo√£o Triguinho Lopes

A grande feira de todas as contradi√ß√Ķes