o riachense

SŠbado,
30 de Setembro de 2023
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A Uni√£o Europeia

FARPADAS

Durante mais de mil anos, os dirigentes das pessoas que foram habitando a Europa mobilizaram os respectivos povos para a competi√ß√£o, para o dom√≠nio sobre os povos vizinhos, para a constitui√ß√£o de estados soberanos e dominadores. Durante mais de mil anos sucederam-se as guerras, morreram muitos milh√Ķes de pessoas da maneira mais est√ļpida que h√° para morrer, em guerras sem fim, quase sempre incompreens√≠veis, que apenas serviam para reduzir √† mis√©ria e √† escravatura povos inteiros. Durante mais de mil anos, em guerras sucessivas, cheg√°mos √†s duas grandes guerras do s√©culo 20. As mais destruidoras de todas. Destru√≠ram as na√ß√Ķes e os povos que as perderam, mas tamb√©m destru√≠ram as na√ß√Ķes e os povos que as ganharam.

Foi assim que se foram constituindo os estados que hoje estão organizados na Europa. 

Até que, há cerca de 70 anos, um grupo de dirigentes com inteligência e coragem suficientes resolveu dizer que o tempo da competição tinha acabado. Uma nova era iria começar: O tempo da colaboração, o tempo da solidariedade. O tempo da igualdade, da liberdade e da fraternidade. Viver humanamente é viver colaborando com os outros, não é viver esmagando os outros. O tempo da competição, da imposição/submissão, deve ser substituído pelo tempo da colaboração, da solidariedade, da democracia.

Mas se o tempo da discórdia durou mais de mil anos, para construir a concórdia vão ser precisos também muitos anos.

Foi esta a principal li√ß√£o que eu tirei das √ļltimas elei√ß√Ķes europeias. As pessoas nem sequer est√£o mobilizadas para irem votar. E votar √© o m√≠nimo de democracia. Sem votar n√£o se pode construir a democracia. Se uma grande maioria dos eleitores nem sequer se d√° ao trabalho de p√īr o voto na urna, √© porque os dirigentes pol√≠ticos n√£o est√£o a fazer o seu trabalho. Poucas pessoas v√£o votar quando est√£o convencidas que est√£o a perder tempo. As pessoas votam quando pensam que o seu voto tem algum efeito. Quando as pessoas pensam que o seu voto n√£o serve para nada, n√£o se d√£o ao trabalho de ir votar. Por outro lado, uma grande parte daqueles que foram votar votou contra a uni√£o europeia que temos. Dos eleitores inscritos, s√≥ uma pequena parte est√° disposta a construir a Europa. A maioria n√£o se interessa, e uma grande parte dos que se interessam √© para votar contra esta Europa que estamos a construir.

O que mais me preocupa √© que eu n√£o vejo da parte dos actuais dirigentes nenhuma preocupa√ß√£o em mudar as coisas. N√£o √© poss√≠vel construir a democracia sem a participa√ß√£o das pessoas. N√£o √© poss√≠vel construir a Uni√£o Europeia sem a mobiliza√ß√£o dos europeus. Se os dirigentes e as estruturas actuais servem para desmobilizar, temos que os mudar. N√£o podemos √© continuar como se n√£o tivessem havido elei√ß√Ķes.

Para construir a Uni√£o Europeia √© preciso saber que todos nascemos e todos morremos. Mas n√£o nascemos iguais, nascemos diferentes e diferentes morremos. N√£o √© o mesmo nascer rico ou pobre, nascer na Alemanha ou em Portugal, nascer na Europa ou na √Āfrica. Nascer numa grande cidade ou numa aldeia longe de tudo. E o que √© diferente deve ser tratado de forma diferente.

Quem nasce numa família rica não precisa de se endividar para ter uma casa onde viver. Recebe-a em herança, sem o menor esforço. Quem nasce numa grande cidade, tem muito mais facilidade em estudar ou arranjar um emprego do que quem nasce numa aldeia que nem sequer tem escola primária. 

Não é possível construir um país, e muito menos a União Europeia, quando se tira tudo aos que já têm pouco, para dar tudo aos que já têm muito.

Um exemplo: os dirigentes europeus dizem que é preciso lutar contra os paraísos fiscais. E para dirigir essa luta, vão nomear para presidente da Comissão Europeia um senhor que, enquanto foi primeiro-ministro, fez do Luxemburgo um paraíso fiscal.

Não acredito que assim seja possível mobilizar os cidadãos a interessarem-se pela construção da União Europeia. Só com dirigentes que acreditem na União Europeia é possível mobilizar as pessoas para, em conjunto, construirmos a Europa democrática de que todos precisamos. Com estes dirigentes, não creio que possamos avançar muito. Até que um dia...

Actualizado em ( Quarta, 18 Junho 2014 16:46 )  
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