o riachense

SŠbado,
30 de Setembro de 2023
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Tauromaquia tem novo regulamento

 

H√° muito que n√£o me dedicava a fazer uns escritos para este jornal. A pedido do sr. Director, o mesmo prop√īs-me o desafio de opinar sobre o novo regulamento taurom√°quico que foi publicado a semana passada em Di√°rio da Rep√ļblica.¬†

Como creio que uma boa parte dos leitores d’O Riachense são aficionados aos touros e a história da tauromaquia escreve-se também com o nome de Riachos com o grupo de forcados, empresários, apoderados, bandarilheiros, cavaleiros e, mais recentemente, um matador de touros. Por tudo isto, justifica-se que algo se escreva sobre tauromaquia nestas páginas e, por isso, aqui vai a minha apreciação.

Quem estava mais por dentro dos assuntos da tauromaquia, há muito que vinha dizendo que os problemas da festa (como na gíria se trata a corrida de touros) estavam no regulamento desactualizado e que era imperioso um novo. Pois bem, foi agora publicado o novo regulamento que entra em vigor lá para 10 de Agosto. Ou seja, mais ou menos a meio da época. Se se tratasse de um campeonato de futebol era o mesmo que mudar as regras a meio da competição. Enfim, é mais uma demonstração do desvario legislativo deste Governo, que nunca mais nos vemos livres dele, mas isso, são contas para outro rosário.

Se alguém pensa que com este regulamento vamos ter melhor qualidade nas corridas de touros com melhor organização, melhores toureiros e melhores touros, desengane-se que também não é por este caminho.

H√° alguns aspectos que s√£o interessantes: √© reconhecido que a tauromaquia √© parte integrante do patrim√≥nio da cultura popular portuguesa e o n√ļmero significativo de espectadores deste tipo de espect√°culos. De resto, o regulamento √© muito pormenorizado, nalguns casos sem qualquer sentido. Tantas s√£o as exig√™ncias, defini√ß√Ķes, restri√ß√Ķes, que dificilmente uma organiza√ß√£o consegue levar a cabo uma corrida de touros sem se sujeitar a coimas que s√£o aplicadas por tudo e por nada.

Relevo como muito interessante os ferros (bandarilhas) que a partir de Agosto t√™m de ser feitas com material quebr√°vel, o que reduz o risco de acidentes com os forcados. J√° v√°rios perderam a vista ou sofreram outras contus√Ķes com farpas espetadas no corpo. Neste campo da seguran√ßa, s√£o ainda proibidos os estribos das pra√ßas em alvenaria. Todos t√™m de ser feitos em madeira ou forrados a madeira ou material equivalente, havendo um ano para adapta√ß√£o das pra√ßas. As condi√ß√Ķes de assist√™ncia m√©dica aos intervenientes s√£o tamb√©m refor√ßadas tal como a obrigatoriedade da exist√™ncia de seguros.

Por outro lado, o novo regulamento imp√Ķe melhores condi√ß√Ķes para os touros no maneio e perman√™ncia nas pra√ßas. √Č mais um passo para a dignifica√ß√£o e bem-estar animal. J√° hoje todas as pra√ßas fixas t√™m curros onde os animais podem permanecer e alimentar-se livremente. Mas as pra√ßas m√≥veis, regra geral n√£o t√™m curros ou, se os t√™m, n√£o s√£o montados. H√° o prazo de dois anos para adapta√ß√£o destas condi√ß√Ķes pois, passa a ser proibido a perman√™ncia dos animais nas jaulas de transporte. N√≥s, aficionados, respeitamos os animais e gostamos de os tratar com a dignidade e as melhores condi√ß√Ķes poss√≠veis. Para al√©m disso, eram frequentes les√Ķes quer √† entrada ou √† sa√≠da da pra√ßa, para al√©m de n√£o ser bonito o arraste dos touros √† corda de volta ao cami√£o. Pelo que, custe o que custar, a exig√™ncia de curros tamb√©m nas pra√ßas desmont√°veis √© uma mais-valia para a dignidade do espect√°culo.

¬†Nas pra√ßas fixas o abate dos touros passa a ser feito por veterin√°rio nos curros ou se se destinarem √† cadeia alimentar, a pr√≥pria pra√ßa tem de ter matadouro ou, ent√£o, serem encaminhados para um matadouro, havendo um prazo de cinco horas at√© ao abate. N√£o conhe√ßo os contornos do abate de animais mas prevejo grandes complica√ß√Ķes e o aumento dos custos do ‚Äúaluguer‚ÄĚ dos animais quando n√£o podem ser rentabilizados com a carne para consumo e suponho que nem todos os matadouros funcionar√£o 24 horas por dia.

√Č claro que todas estas novas exig√™ncias t√™m custos que vir√£o a reflectir-se nos or√ßamentos das corridas e, por conseguinte, nos pre√ßos dos bilhetes. Contrariamente ao que dizem os anti-taurinos, este espect√°culo n√£o √© subsidiado. Tudo √© pago com o dinheiro da assist√™ncia ou dos patroc√≠nios de empresas e n√£o havendo uma coisa nem outra, fica o empres√°rio com o preju√≠zo √†s costas.

N√£o vejo grandes dificuldades nas pra√ßas fixas, a menos que fa√ßam reestrutura√ß√Ķes profundas, caso em que ser√° obrigat√≥rio a constru√ß√£o de um matadouro. Prevejo sim, dificuldades acrescidas para as pra√ßas desmont√°veis. Sabemos os custos, o trabalho e a complica√ß√£o que √© montar uma corrida nestas pra√ßas. A maior parte delas que por a√≠ andam para aluguer j√° s√£o o refugo de pra√ßas que n√£o cumprem os requisitos em Espanha. Dentro de dois anos, esses empres√°rios estar√£o a bra√ßos com a sua reestrutura√ß√£o. E se hoje s√£o necess√°rios dois cami√Ķes para o transporte, depois passam a ser tr√™s. A montagem e desmontagem passa a ser bastante mais complicada, enfim, trabalho e custos ser√£o muito superiores. Numa futura Festa da B√™n√ß√£o do Gado, se a organiza√ß√£o quiser manter a tradi√ß√£o das corridas de touros, estar√° no limiar de ter de cumprir j√° com os novos requisitos.

Não conheço outro espectáculo tão regulamentado e tão complexo de organizar como é a corrida de touros. O novo regulamento vem adicionar mais umas quantas dificuldades e, certamente, encarecer o espectáculo. Salvem-se os princípios da segurança e do bem-estar animal. Posto isto, há que questionar: contribuirá este regulamento para dar futuro à tauromaquia ou será mais um engulho entre tantos outros que a festa tem tido? 

A festa dos touros est√° t√£o arreigada no povo que dificilmente deixar√° de aparecer nas bancadas das pra√ßas apesar de muitas vezes defraudado. T√™m sido os pr√≥prios agentes taurom√°quicos que t√™m dado cabo deste espect√°culo. S√£o os ganadeiros que criam touros √† medida das inabilidades e fragilidades dos toureiros, s√£o os empres√°rios √† procura do lucro f√°cil, s√£o os toureiros a quererem ser figuras sem esfor√ßo, sem dedica√ß√£o, sem risco. S√£o uma quantidade de agentes paralelos chupistas de toda esta organiza√ß√£o. S√£o umas quantas associa√ß√Ķes com pr√°ticas diferentes dos prop√≥sitos para que foram criadas. Associa√ß√Ķes como a ANGF que supostamente devia defender os grupos de forcados mas que depois tem normas que dificultam a livre associa√ß√£o e impedem que grupos associados compartilhem cartel com grupos n√£o associados. √Č por isso que grupos como os de Riachos n√£o conseguem pegar em determinadas corridas.

Os exemplos sucedem-se com as associa√ß√Ķes de classe, entre as quais, a mais absurda √© a APET, associa√ß√£o de empres√°rios, que n√£o se sabe para que serve mas quem quiser montar uma corrida tem de ser associado e pagar uma quota. S√£o empres√°rios que vetam toureiros, toureiros que n√£o lidam determinados touros, ganadeiros que n√£o vendem touros para determinados toureiros lidarem, enfim, √© uma ‚Äútropa‚ÄĚ e um mundo complicado. No entanto, v√£o-se fazendo umas corridas que v√£o alimentando tudo isto sem mostras de quebrar. Mas a seriedade do espect√°culo est√° irremediavelmente comprometida. Sobre tudo isto, o Regulamento nada disp√Ķe nem deve dispor. Portanto, a chave da nossa tauromaquia n√£o √© o regulamento mas a seriedade em todas as suas vertentes que se d√° ao espect√°culo. Quando, ocasionalmente, se d√° o encontro entre um bom toureiro com um touro bravo e nobre, ent√£o a√≠, o espect√°culo √© lindo. S√£o esses pequenos momentos que me conservam aficionado. Muito mais havia por dizer mas a pr√©dica j√° vai longa, fica para outra ocasi√£o. ¬†

Actualizado em ( Quinta, 19 Junho 2014 15:34 )  
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