o riachense

Sbado,
21 de Outubro de 2017
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Um país ao acaso em espaços dum mapa

Não sei que Portugal é este. E nem me refiro ao futebol, que é pífio. Faltam médicos, mas há médicos ubíquos, no público e no privado. Fecham-se escolas, mas aparece um tipo feito ministro da educação a justificar o fecho, porque melhora a qualidade do ensino. Dos filhos dele? Dos filhos dos senhores ministros, secretários de estado, deputados, boys com fartura? Uma criança do interior, para entrar numa dessas escolas de agrupamento, levanta-se a que horas? Come a que horas? Vive com a família a que horas? Viaja quantas horas? Janta a que horas? Brinca a que horas? Um ministro destes despreza os seres humanos, vive duma folha de Excel. É um Cylon, da série Galáctica, não um humano. Na Guerra dos Tronos, já o teriam enviado para além da Muralha, como ele o faz, em nome de quem o manda, às crianças, jovens, adolescentes, deste país: mudem de ares, desde o primeiro infantário, para uma aprendizagem de emigração, em nome da austeridade, de que o culpado foi, é, será sempre o ex-primeiro ministro Sócrates. Portugal, aliás, deveria regressar ao tempo do pré-pombalismo, onde em vez de escolas havia ermidas, conventos, frades e freiras aos montões, escravos de várias origens, nobreza da capa e espada; escolas apenas as conventuais, uma fé enorme num outro mundo, porque neste o sofrimento era uma forma de purificação da alma. Com a ajuda de Merkel (o presidente da República alemão, ante o devoto presidente Cavaco, nega-o) a austeridade conduz-nos a novas diásporas. As feiras medievais da moda que percorrem o país de norte a sul com a sua novidade de patos amestrados, camelos, torneios medievais, mendigos de fingir, cruzados de tuta e meia, preparam-nos, com a ajudas dos partidos do arco do poder, para novas travessias nos mares do miserabilismo para alguns e a teta cheia para as minorias. Os portugueses assassinados nos campos de concentração nazis começam a ter a sua história revelada, ignorados pelo poder salazarista e marcelista…  

Para quê tantos cachecóis dum nacionalismo tipo milagre de Ourique, quando o horror dum quotidiano de degradação se instala como uma rasoira na nossa inércia colectiva, deixando-a frágil como a sopa dos pobres da nossa heróica epopeia de milhares e milhares de desempregados?

Não sei que Portugal é este. Já foi do Espírito Santo, agora em crise de identidade. Já foi da Cuf e da Lisnave, coisas doutrora, Já foi da aliança Povo-MFA, agora transformado em almoços de lágrima furtiva. Já foi da rua, agora é dos concertos pop ou outra qualquer sigla. As tabernas e cafés deram lugar a bancos e estes já se reciclam em hipermercados e drugstores, clubes nocturnos e coisas assim. A roda do mundo parece que chocou com um bosão de Deus e entortou-se.

Não temos uma saúde digna, mas temos um ministério da saúde. Não temos escolas, expulsamos os melhores alunos, somos um país medíocre nas estatísticas educativas, mas temos um ministério da Educação. Temos centenas de milhares de desempregados, muitos centros de emprego a fingir colocações e formações para emprego, ganha-se cada vez menos, mas temos um ministério das finanças com opípara e suculenta reserva à custa do assalto à bolsa dos cada vez mais tesos, em estado perfeito para ser a carpete dos alemães, franceses, ingleses, chineses, elites angolanas, os que vierem ao cheiro do sol e da sardinha, do mar azul e do marisco fresco.

Destruiu-se o futuro dum povo para enriquecer meia dúzia de crápulas. 

Com a ajuda e bênção, diga-se, da política comunitária europeia e dos europeus comprados da casa.

Mas, retire-se Lisboa, algum Porto, o Algarve, a linha de Cascais, Belém, do mapa de Portugal, os restaurantes, os andares e as moradias de luxo, os turistas, que fica? 

O país Portugal do Continente, do Pingo Doce, do Lidl? Do Euromilhões, do Totoloto, das raspadinhas? Do Ronaldo? Das telenovelas e concursos televisivos? 

Como mudar este absurdo, Alice, para o outro lado do espelho? E endireitar a história dum povo que merece mais do que a mistificação em que tentam algemá-lo?

26 de Junho de 2014 

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António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt 

Actualizado em ( Quinta, 26 Junho 2014 22:20 )  

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