o riachense

Sexta,
30 de Setembro de 2022
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De pequenino se torce o empreendedorismo

A tendência há alguns anos é que os miúdos devem aprender a serem empreendedores. Na interpretação vulgar da tendência, quer-se que as crianças e jovens aprendam a ser empresários. Patrões.
 
Por outro lado, desincentiva-se a procura de caminhos alternativos para a realização profissional e também pessoal: só é bem-sucedido profissionalmente, respeitado e abastado, quem tem um canudo colhido em qualquer universidade das que cresceram em Portugal como cogumelos num tronco podre.
 
Os restantes são, para alguns, apenas trabalhadores braçais que se arrastam pelos locais de trabalho entre a hora de entrada e a de saída, na ronha, espreitando a oportunidade de passarem a “subsidiados”.
O que leva à situação, que seria ridícula se não fosse insultuosa, de se acusar os trabalhadores de serem em 1º lugar os responsáveis pela “pouca competitividade” das empresas portuguesas. O que é, qualquer bom trabalhador português o sabe, falso: a culpa é, em 1º lugar dos donos das empresas, que em 99% dos casos não passam de patrões que se acham líderes, e em 2º lugar, do Estado, que tem falhado indubitavelmente em assegurar melhores níveis de formação aos que abandonam os estudos no final do secundário ou aos que ainda durante a escolaridade obrigatória optam por formação vocacionada para o mercado de trabalho.
 
Comecemos pelos patrões. Salvas honrosas excepções, para o vulgar empresário a “sua” empresa é um túnel por onde entram as matérias-primas ao menor custo possível, que são processadas por uma massa remunerada pelo menor valor possível (e que está dentro do túnel tanto tempo quanto possível) e de onde saem os produtos que serão vendidos com o maior lucro possível. Se for preciso mascara-se a qualidade e o cliente até paga mais do que o produto realmente vale. Nesta economia, onde e citando Pacheco Pereira, “se fala obsessivamente de empresas e nunca se nomeiam os trabalhadores”, raramente os gestores são líderes ou os trabalhadores são colaboradores. A formação dos trabalhadores, a sustentabilidade ambiental, a responsabilidade social, são encaradas como custos sem retorno e nunca vistas como oportunidades de melhoria da competitividade da própria empresa e o seu desempenho junto dos clientes e consumidores.
 
Por vezes, um empresário destes acha que meia dúzia de certificados emitidos por uns ditos de auditores, certificações estas que não passam de papel pendurado nas paredes, convencerão os seus clientes de que estão a lidar com alguém que realmente cumpre. O problema é que às vezes conseguem. E estando a cadeia certificada, basta um empresário menos escrupuloso para que a certificação e a confiança que esta inspira leve o consumidor final a comer cavalo por vaca.
 
Ao trabalhador, estes empresários asseguram o mínimo: o ordenado e a formação continua. As regalias, se existem, são pelo mínimo. Mas exigem o máximo: o máximo de horas de trabalho e de empenhamento, e a redução total ao estatuto de propriedade da empresa, em que deve abdicar do seu papel de pai ou mãe ou cidadão. Aliás, às mulheres que têm o azar de cair nas mãos de um destes empresários, resta-lhes esquecerem os filhos que queriam ter ou, se já os têm, deixá-los crescer em frente à televisão. Estes empresários que se acham líderes mas não passam de capatazes, nunca felicitam um colaborador pelo bom trabalho, apenas a empresa pelos bons resultados, punirão qualquer funcionário pelo menor deslize e declinarão sempre a responsabilidade em caso de negligência ou ilegalidade. Há até quem prefira gerir na ilegalidade porque sai mais caro cumprir a lei.
 
A causa-raiz deste problema é apenas uma: Educação. O nosso sistema de ensino não nos ensina nem a ser líderes, nem a trabalhar. Esta é a verdade. E não se é líder nem bom trabalhador por acaso.
 
Um artigo no “Recruiter” afirmava que o défice de competências necessárias para os mais diversos processos de fabricação e os baixos níveis de retenção de trabalhadores qualificados devem ser encarados como a principal causa de perda de competitividade da indústria no Reino Unido e que “reconhecer o valor da aprendizagem e da formação profissional e incentivar os jovens a considerar todas as rotas para a indústria é importante para se encontrar o talento que precisamos para o apoio à produção industrial”. Segundo os britânicos, a situação só pode ser resolvida se mais jovens procurarem caminhos mais profissionalizantes. Recomendo a leitura do artigo “Vocational paths: alternative routes to the top” no jornal “The Guardian”.
 
Em Portugal, há dias, um professor de uma das nossas escolas perguntou aos seus alunos adolescentes que vias de ensino iriam seguir e a maioria respondeu que iria seguir o ensino técnico-profissional. Os restantes, que afirmaram irem seguir o ensino dito “regular”, foram louvados com a afirmação “há esperança para Portugal!”.
 
Não, não há esperança para Portugal com esta atitude. Enquanto se achar que o caminho é continuar a alimentar o desemprego com licenciados e mestres sabedores de coisa pouca, se continuar a gerir as empresas tendo o lucro dos sócios como único objectivo, se continuar a considerar a natalidade como um contratempo, se continuar a considerar a educação de qualidade como sendo exclusivamente a académica, não há esperança para Portugal. Para além de nos preocuparmos em deixar um Portugal melhor para os nossos filhos, preocupemo-nos também em deixar melhores filhos para Portugal. Líderes capazes de motivar. Trabalhadores com orgulho em produzir.

Actualizado em ( Quinta, 24 Julho 2014 14:43 )  
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