o riachense

SŠbado,
25 de Janeiro de 2020
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Uma latinha de enchovas

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Carlos Tomé

Por causa de um barril de cerveja mal engatado, a vareta fugiu como um raio, passou rente √† prateleira do brandi deitando abaixo a garrafa de Aniz Marie Brizard e a botija de Genebra, mas poupando a garrafa de Macieira reservada para o Dr. Macieira, fez um voo rasante pela ventoinha do tecto que mexia t√£o devagar que era como se estivesse parada, amea√ßou os frascos de rebu√ßados do Dr. Bayard e das pastilhas Bazooka, ro√ßou pela parede o diploma de tirador de cerveja e o d√≠stico ‚Äúse vens aqui como amigo entra j√° que a casa √© tua se n√£o vens tamb√©m te digo √© melhor ficares na rua‚ÄĚ sem consequ√™ncias de maior e foi estatelar-se de encontro √† arca dos gelados da Ol√° perfurando uma caixa de Super Maxi e outra de Ep√°.
 
Faltou a imperial. Tocou o alarme das urgências. A clientela ficou em transe, sem saber como viveria o resto do dia, vendo negro o seu futuro imediato, antevendo a morte, agonizando no deserto à míngua de sumo de cevada. Os mais afoitos já pegavam nas bicicletas para irem ao Chico Afonso na Golegã matar a sede. O Alfredo Sacristão, se soubesse, tinha tocado o sino da igreja a rebate e se a sirene dos bombeiros se fizesse ouvir lá iria logo o Bernardino a acelerar deitado na sua Zundapp Famel. Era urgente chamar o Joaquim Seruga, o melhor e mais experimentado técnico de frio da região, para tomar conta da ocorrência. Felizmente não foi preciso procurar muito porque o técnico vinha nesse momento a entrar no Central pois tinha montado o seu escritório precisamente no balcão do Café. 
 
Com a sua calma habitual, Joaquim Seruga tinha primeiro que averiguar a situa√ß√£o, tirar o azimute √† coisa e fazer o diagn√≥stico da maleita. Como n√£o havia imperial, pois era evidente o problema com a press√£o do barril, para as primeiras impress√Ķes foram meia d√ļzia de m√©dias Sagres, a sede que se deseja, mais meia d√ļzia de m√©dias Clok, a √°gua de Santar√©m e para terminar o diagn√≥stico um par de Marinas, essa cerveja do Algarve que se bebia quando n√£o havia outras. Claro que entretanto tinha chegado o Manel Arego, adjunto do Seruga, que n√£o deixava ficar o amigo em maus len√ß√≥is e que com o mesmo constitu√≠a a parelha de especialistas de frio mais sedenta da regi√£o. Os t√©cnicos instalaram-se de p√© encostados ao balc√£o junto ao barril olhando para o seu estado com o desd√©m e a altivez de quem domina os seus segredos e n√£o os revela.¬†
 
Depois de esgotadas as tr√™s grades de cervejas variadas, e n√£o havendo imperial, Seruga decidiu ent√£o resolver o problema. E mais depressa do que um f√≥sforo j√° havia imperial de novo. ‚ÄúMilagre, j√° temos imperial!‚ÄĚ gritava o Z√© Pir√£o que nunca faltava a uma avaria destas e pedia mais uma rodada de imperiais e um alguidar de marisco do Eus√©bio. ‚ÄúPara mim √© s√≥ uma lambreta‚ÄĚ, ‚Äúe para mim traz-me um panach√©‚ÄĚ suplicavam duas pessoas a que ningu√©m dava import√Ęncia porque n√£o gostavam de cerveja. ‚ÄúAo que n√≥s cheg√°mos, j√° n√£o se bebe cerveja a s√©rio‚ÄĚ exclamava aborrecido o V√≠tor do Stand que s√≥ bebia canecas.
 
Foi ent√£o engatado um novo barril que ficou vazio na meia hora seguinte gra√ßas ao empenhamento profissional do Seruga e do Manel Arego aos quais se juntou o Almeida a tocar tambor no tampo do balc√£o. Os tr√™s deram conta da tarefa sem grande sacrif√≠cio. O Seruga esteve mais de seis horas a empinar imperiais sempre encostado ao balc√£o e nunca em ocasi√£o alguma foi visto a ir √† casa de banho. ‚ÄúMas onde √© que este gajo que √© um pau-de-virar-tripas mete tanta imperial‚ÄĚ perguntava um cliente com a seriedade de quem quer saber o significado da vida. E isto sem que alguma vez o Seruga distorcesse a voz ou falhasse algo no seu racioc√≠nio altamente cient√≠fico de cubicar uma caixa de f√≥sforos.¬†
 
Ali√°s, a fase da cubicagem era o apogeu da actua√ß√£o do Seruga que at√© metia c√°lculos aritm√©ticos, equa√ß√Ķes progressivas e decimais, energia cin√©tica, o teorema de Descartes e outros conhecimentos da F√≠sica que a todos faziam abrir a boca de espanto e que punham em sentido a professora Olga, conhecida entre os alunos por Olguita, se tivesse o azar de entrar no Central naquele momento para comprar tabaco.
 
Depois de derrotado por KO o segundo barril e quando toda a gente pensava que o Seruga tinha finalmente esgotado a sua capacidade de ingerir aquele tipo de l√≠quidos, este chamou-me de lado e soprou-me ao ouvido ‚Äúouve l√° n√£o tens a√≠ uma latinha de anchovas para ajudar a beber mais uma?‚ÄĚ.

Actualizado em ( Quinta, 24 Julho 2014 14:47 )  
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