o riachense

Quinta,
19 de Outubro de 2017
Tamanho do Texto
  • Increase font size
  • Default font size
  • Decrease font size
Enviar por E-mail Versão para impressão PDF

Sobre questões do Património Cultural Torrejano

Meia dúzia de dias de férias em casa de família afastou-me do tira-puxa do quotidiano autárquico concelhio, permitindo o reencontro do Atlântico com um velho autor da mesa-de-cabeceira, um dos romances que aguardavam leitura mais serena -O Amor em Tempos de Cólera, de Gabriel Garcia Marquez, considerado do mesmo nível - e é-o! - da sua obra prima os Cem Anos de Solidão. A máscara e o real dos indivíduos, na sua trajectória de vida num meio social pouco aberto à mudança, entre o ser e o parecer das normas tradicionais das sociedades que se anunciam pela conduta da virtude das regras morais de raiz religiosa e se silenciam, prolongando-se, no realismo das suas faces de marginalidade e rotura. 

Um bom romance é o que nos espelha e nos transforma em personagens das suas histórias, independente do local e do tempo da narrativa. O texto dói-nos, como rasgões, na memória das vidas vividas e estas transformam-se noutras, imprecisas. Recuperada das gavetas do tempo, a vida real ou já só imaginada reergue-se da escrita do autor e abre percursos de tinta no sangue que nos corre as veias, a memória vence o tempo.

Para que as sociedades se conheçam. na diversidade, e interpretem as razões das mudanças sofridas, eis o objectivo dos arquivos históricos. Há muitas décadas luto pelo Arquivo Municipal de Torres Novas como um centro essencial de reserva do passado e fonte patrimonial das deliberações do presente. Todos os futuros possíveis começam nesse espólio que não são apenas folhas amarelecidas pelo pó dos séculos, mas estórias de vidas, gentes, hábitos, costumes, sonhos, desaires, mistérios, sangue. Os políticos, os partidos, assentes no essencial objectivo da tomada e posse do poder, raro se preocupam com o passado, a não ser, muitas vezes, para o deformar e moldar conforme os seus interesses de classe. Nunca estranhei, por isso, que, após o 25 de Abril, o município de Torres Novas, como os da maioria do país, não investisse no levantamento dos espólios patrimoniais, familiares, colectivos, existentes nos Arquivos Distritais e Nacionais. E em Torres Novas, devido à influência da chefia do departamento cultural, soube-se, no passado, lançar raízes de parte desse levantamento, por meio de publicações de estudos e da divulgação periódica anual duma revista, intitulada Nova Augusta. Mas, a realidade do Arquivo Histórico Municipal é, hoje, algo que convinha elucidar. Interessa ao concelho um arquivo histórico? Se sim, e creio não haver outra alternativa, importa apostar em vários pontos fundamentais:

- Criação dum corpo técnico especializado que saiba com o que trata, que o proteja, estude, divulgue. Além das listas actuais dos registos dos espécimes existentes, que existe? Serve para quê? Para quem? 

- Verbas necessárias para microfilmar ou digitalizar importante documentação existente nos múltiplos arquivos e bibliotecas regionais e nacionais e disponibilidade de técnicos para o realizarem. É um trabalho de gerações, porque é de gerações que tratamos.

- Apoio económico sistemático à investigação e à publicação de estudos feitos sobre a história e o património concelhios, com a supervisão duma comissão consultiva, constituída no pelouro da cultura, por entidades e/ ou indivíduos convidados, assente em critérios, não de amiguismo partidocrático, mas de reconhecido mérito no sector, variável e enriquecida pelo conhecimento

- Exposições temáticas periódicas, com divulgação programática em suporte de leitura e sessões de apresentação.

- Inventariação, recolha, estudo, publicitação, de arquivos pessoais ou colectivos, cuja perda se torna irreparável para o conhecimento do concelho.

Argumentar-se-á que é, além de utópico, dispendioso. No primeiro caso, refuto-o com um arquivo que conheço, na maioria com documentação e projectos de estudos desconhecidos sobre o município, mas sem ignorar também os outros, por todo o concelho, que, lentamente, se vão esboroando com a morte dos seus possuidores e indiferença dos seus familiares. Quanto ao dispendioso, ficaria muito mais barato que as despesas de deslocação e refeições feitas pelos detentores das cargos políticos municipais nos últimos vinte anos, sem que exista, concreto, visível, uma razão objectiva para a sociedade que as paga. 

Cito, porque o promovi, e o vi abandonado, por imbecilidade política, um exemplo - a digitalização da imprensa torrejana existente na Biblioteca Nacional, -séries de jornais editados em Torres Novas, publicados entre meados do século XIX e XX - não existentes localmente e cuja leitura atenta é imprescindível para a investigação dessas épocas, e que não teria custado, na altura, 1.000 euros. 

Acrescentem-se outros jornais concelhios existentes na Biblioteca Universitária de Coimbra, em séries mais completas do que as de Lisboa, ou inexistentes naquela, como, o mais lato e exemplar único para a história distrital do Partido Democrático Português, o quinzenário o Debate (1908-1924), publicado em Santarém, mas essencial para o concelho.

Um segundo exemplo, que me chegou ao conhecimento por mão amiga, não sei se conhecido da Câmara, mas, se o for, considera um crime contra o património a sua não divulgação pública. Refiro-me ao estudo «Dialogar com um Centro Histórico: o Tecido Urbano de Torres Novas à luz da História da Arte». A autora, Diana Gonçalves dos Santos, mestre em história da Arte Portuguesa, doutoranda na FLUP - UP, bolseira da FCT, viu o seu trabalho publicado nas Actas do Seminário dos Centros Históricos, Passado e Presente - Universidade do Porto, 2011.  É o mais importante estudo diacrónico da formação do tecido urbano que originou a vila e, hoje, cidade de Torres Novas, imprescindível para qualquer conhecimento do património edificado e intervenção urbanística na cidade. As conclusões da autora sobre a depredação do presente e os crimes sobre o património edificado talvez - se o estudo for conhecido da autarquia -, sejam a razão da sua marginalização. Prefiro pensar que não foi conhecido pelo sector político autárquico que governava (e governa) a autarquia. O contrário seria duma vileza sem nome, que me relembram os prémios de poesia Maria Lamas, nunca pagos, dum passado marginalizado. 

 Como resumiu Fermina Daza, personagem do romance lido de Marquez, ao lhe perguntarem, no seu regresso da Europa, sobre as maravilhas que a impressionaram, resumiu a sua versão: muita parra, pouca uva. 

  Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar

António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt 

Actualizado em ( Quarta, 06 Agosto 2014 15:18 )  

Opinião

 

António Mário Lopes dos Santos

Agarrem-me, senão concorro!

 

João Triguinho Lopes

Uma história de Natal

 

Raquel Carrilho

Trumpalhada Total

 

António Mário Lopes dos Santos

Orçamentos, coisas para político ver?