o riachense

SŠbado,
30 de Setembro de 2023
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Ser rico d√° muita chatice

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por Carlos Tomé
 
Rodou as 28 pedras de marfim do domin√≥ com as m√£os abertas sobre o m√°rmore da mesa, dando-lhes voltas e mais voltas at√© ficarem bem baralhadas. A mistura s√≥ ficava completa com um ligeiro toque com o cotovelo direito. Agora sim, os jogadores podiam escolher as sete pedras. Quem tinha o carr√£o despachava-o logo. E pronto come√ßava o jogo. Fazia-se um sil√™ncio absoluto na sala. Ningu√©m falava, n√£o se ouvia uma tossidela. S√≥ se notava o toque do marfim das pedras contra o m√°rmore da mesa. O sil√™ncio s√≥ era cortado pelo riscar r√°pido dos f√≥sforos na lixa da caixa e pelo inspirar abafado dos Definitivos. E s√≥ as moscas, essas ignorantes do prazer do jogo, ousavam importunar os campe√Ķes.
 
De um lado, Luís Azevedo que pensava cada jogada com a paciência do chinês que define a estratégia da aranha. Era ele que registava para a história a pontuação de cada jogo numa folha de papel pardo. Do outro, Zé Marinhais, óculos na ponta do nariz, um tossir rouco e profundo, usava a manha como quem goza com o parceiro. As pedras, por fora negras e brancas por dentro, iam escorrendo lentamente no mármore e dando forma a um caminho esquisito formado com cruzamentos e entroncamentos vários. Os dobles atravessados. As cenas com as cenas, as quinas ligadas às quinas, os brancos agarrados aos brancos. E no final de cada jogo um dos dois dizia em voz quase inaudível: dominó.
 
A meio da jogatana, o fumo do tabaco encobria os jogadores e a malta que espreitava os competidores j√° deitava fumo pelos olhos. Como n√£o havia meio das moscas acalmarem e respeitarem os jogadores decidi ir buscar o sheltox e dar umas bombadas. Se a coisa j√° estava nublada ainda ficou pior. O ar ficou completamente irrespir√°vel, criou-se um nevoeiro intenso, todo o caf√© tossiu tirando dos bolsos os len√ßos de assoar para guardar as escarretas que sa√≠am de sopet√£o da garganta. O fumo era tanto que o Z√© Bisalho, √≥culos colados com adesivo e com lentes de fundo de garrafa, tinha entrado para meter o totobola, gritou ‚Äúisto est√° tudo a arder, algu√©m que v√° chamar os bombeiros‚ÄĚ. Ningu√©m lhe ligou √© claro, mas toda a gente esticou as orelhas ao ouvi-lo dizer ‚Äúacabei de ser colhido no Largo quando tentava pegar de cernelha‚ÄĚ. Parou tudo. Era sinal de que iria haver prosa e da boa s√≥ interrompida para o humedecimento do f√īlego com um tra√ßadinho de meio litro. Z√© Bisalho explicou em pormenor e em portugu√™s impec√°vel a cena digna de uma aut√™ntica faena taurom√°quica. Toda a gente queria saber pormenores do sucedido.
 
Noutra mesa, de perna cruzada em frente ao tabuleiro de madeira, o Catorze Cavaca dava uma abada das antigas a um tipo qualquer que tinha a mania que sabia jogar às damas. O Catorze agarrava nas peças que ia comendo e juntava-as nas mãos até não caberem mais. A fanfarronice do tipo não durou mais que três minutos. Nem o fumo que enchia o central lhe valeu para esconder uma dama sorrateira. Foi cilindrado sem apelo nem agravo e abandonou o ringue com o rabo entre as pernas. Catorze Cavaca era o campeão das damas e não dava abébias a ninguém.
 
Junto à mesa do canto, a malta batia uma soneca de meia hora à espera que o Martinho Branco decidisse se devia mexer o bispo ou a torre enquanto o Pim Pim exibia a calma adquirida ao serviço dos rangers tatuada no braço esquerdo com a manga arregaçada até ao ombro e o Direito deitava fumo pelos neurónios pois estava mesmo a ver o cheque mate ali escondido à espreita do rei. Estes e outros artistas na arte da guerra transferida para o tabuleiro queriam imitar o Spassky e o Fischer os maiores xadrezistas da época mas havia até quem dissesse que o russo e o americano eram apenas aprendizes ao pé dos xadrezistas do Central.
 
Como era sexta-feira os aficcionados do 1 X 2 faziam bicha para meter o totobola. Lu√≠s da Luz, o feitor do Casal das Flores, um homem de grande sabedoria mas que n√£o sabia uma letra do tamanho de um comboio e j√° tinha morrido uma vez debaixo de um tractor, Manuel Padeiro, um industrial do paposseco que exibia um cachucho no anelar, e Joaquim Mendes de bigodinho fino sobre o l√°bio, o mais casti√ßo empres√°rio e mec√Ęnico de 4L da regi√£o, contavam o dinheiro que j√° tinham posto de lado para uma almo√ßarada das antigas com a sua sociedade do totobola, de que fazia parte tamb√©m o dono do Central, e na qual o professor Mineiro se quis integrar mas nunca conseguiu.
 
Nesta sociedade do totobola ningu√©m percebia nada de futebol e nem sequer sabia os nomes dos clubes. Jogavam √† sorte, sem t√°cticas nem estrat√©gias. Jogavam s√≥ pelo prazer de estarem juntos e do conv√≠vio das almo√ßaradas. ‚ÄúDesta vez vamos jogar s√≥ para o 12, n√£o queremos ser ricos que isso d√° muita chatice‚ÄĚ dizia o Lu√≠s da Luz enquanto saboreava o caf√© e engolia de um gole o bagacinho da ordem.
 
Toda a gente arreganhava a podoa porque toda a gente sabia que nunca ninguém até aí tinha tido um 13 no totobola a não ser o Fernando Manha mas esse não contava porque era especialista, jogava com várias triplas e uma carrada de duplas e conhecia de cor as equipas que ganhavam e perdiam em todos os jogos. Os outros eram doutro campeonato, jogavam pelo prazer da almoçarada, só queriam contar até 12 e sabiam que ser rico dá muita chatice.

Actualizado em ( Quinta, 14 Agosto 2014 11:42 )  
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