o riachense

Segunda,
16 de Dezembro de 2019
Tamanho do Texto
  • Increase font size
  • Default font size
  • Decrease font size

Ser rico dá muita chatice

Enviar por E-mail Versão para impressão PDF
 
por Carlos Tomé
 
Rodou as 28 pedras de marfim do dominó com as mãos abertas sobre o mármore da mesa, dando-lhes voltas e mais voltas até ficarem bem baralhadas. A mistura só ficava completa com um ligeiro toque com o cotovelo direito. Agora sim, os jogadores podiam escolher as sete pedras. Quem tinha o carrão despachava-o logo. E pronto começava o jogo. Fazia-se um silêncio absoluto na sala. Ninguém falava, não se ouvia uma tossidela. Só se notava o toque do marfim das pedras contra o mármore da mesa. O silêncio só era cortado pelo riscar rápido dos fósforos na lixa da caixa e pelo inspirar abafado dos Definitivos. E só as moscas, essas ignorantes do prazer do jogo, ousavam importunar os campeões.
 
De um lado, Luís Azevedo que pensava cada jogada com a paciência do chinês que define a estratégia da aranha. Era ele que registava para a história a pontuação de cada jogo numa folha de papel pardo. Do outro, Zé Marinhais, óculos na ponta do nariz, um tossir rouco e profundo, usava a manha como quem goza com o parceiro. As pedras, por fora negras e brancas por dentro, iam escorrendo lentamente no mármore e dando forma a um caminho esquisito formado com cruzamentos e entroncamentos vários. Os dobles atravessados. As cenas com as cenas, as quinas ligadas às quinas, os brancos agarrados aos brancos. E no final de cada jogo um dos dois dizia em voz quase inaudível: dominó.
 
A meio da jogatana, o fumo do tabaco encobria os jogadores e a malta que espreitava os competidores já deitava fumo pelos olhos. Como não havia meio das moscas acalmarem e respeitarem os jogadores decidi ir buscar o sheltox e dar umas bombadas. Se a coisa já estava nublada ainda ficou pior. O ar ficou completamente irrespirável, criou-se um nevoeiro intenso, todo o café tossiu tirando dos bolsos os lenços de assoar para guardar as escarretas que saíam de sopetão da garganta. O fumo era tanto que o Zé Bisalho, óculos colados com adesivo e com lentes de fundo de garrafa, tinha entrado para meter o totobola, gritou “isto está tudo a arder, alguém que vá chamar os bombeiros”. Ninguém lhe ligou é claro, mas toda a gente esticou as orelhas ao ouvi-lo dizer “acabei de ser colhido no Largo quando tentava pegar de cernelha”. Parou tudo. Era sinal de que iria haver prosa e da boa só interrompida para o humedecimento do fôlego com um traçadinho de meio litro. Zé Bisalho explicou em pormenor e em português impecável a cena digna de uma autêntica faena tauromáquica. Toda a gente queria saber pormenores do sucedido.
 
Noutra mesa, de perna cruzada em frente ao tabuleiro de madeira, o Catorze Cavaca dava uma abada das antigas a um tipo qualquer que tinha a mania que sabia jogar às damas. O Catorze agarrava nas peças que ia comendo e juntava-as nas mãos até não caberem mais. A fanfarronice do tipo não durou mais que três minutos. Nem o fumo que enchia o central lhe valeu para esconder uma dama sorrateira. Foi cilindrado sem apelo nem agravo e abandonou o ringue com o rabo entre as pernas. Catorze Cavaca era o campeão das damas e não dava abébias a ninguém.
 
Junto à mesa do canto, a malta batia uma soneca de meia hora à espera que o Martinho Branco decidisse se devia mexer o bispo ou a torre enquanto o Pim Pim exibia a calma adquirida ao serviço dos rangers tatuada no braço esquerdo com a manga arregaçada até ao ombro e o Direito deitava fumo pelos neurónios pois estava mesmo a ver o cheque mate ali escondido à espreita do rei. Estes e outros artistas na arte da guerra transferida para o tabuleiro queriam imitar o Spassky e o Fischer os maiores xadrezistas da época mas havia até quem dissesse que o russo e o americano eram apenas aprendizes ao pé dos xadrezistas do Central.
 
Como era sexta-feira os aficcionados do 1 X 2 faziam bicha para meter o totobola. Luís da Luz, o feitor do Casal das Flores, um homem de grande sabedoria mas que não sabia uma letra do tamanho de um comboio e já tinha morrido uma vez debaixo de um tractor, Manuel Padeiro, um industrial do paposseco que exibia um cachucho no anelar, e Joaquim Mendes de bigodinho fino sobre o lábio, o mais castiço empresário e mecânico de 4L da região, contavam o dinheiro que já tinham posto de lado para uma almoçarada das antigas com a sua sociedade do totobola, de que fazia parte também o dono do Central, e na qual o professor Mineiro se quis integrar mas nunca conseguiu.
 
Nesta sociedade do totobola ninguém percebia nada de futebol e nem sequer sabia os nomes dos clubes. Jogavam à sorte, sem tácticas nem estratégias. Jogavam só pelo prazer de estarem juntos e do convívio das almoçaradas. “Desta vez vamos jogar só para o 12, não queremos ser ricos que isso dá muita chatice” dizia o Luís da Luz enquanto saboreava o café e engolia de um gole o bagacinho da ordem.
 
Toda a gente arreganhava a podoa porque toda a gente sabia que nunca ninguém até aí tinha tido um 13 no totobola a não ser o Fernando Manha mas esse não contava porque era especialista, jogava com várias triplas e uma carrada de duplas e conhecia de cor as equipas que ganhavam e perdiam em todos os jogos. Os outros eram doutro campeonato, jogavam pelo prazer da almoçarada, só queriam contar até 12 e sabiam que ser rico dá muita chatice.

Actualizado em ( Quinta, 14 Agosto 2014 11:42 )  
{highslide type="img" height="200" width="300" event="click" class="" captionText="" positions="top, left" display="show" src="http://www.oriachense.pt/images/capa/capa801.jpg"}Click here {/highslide}

Opinião

 

António Mário Lopes dos Santos

Agarrem-me, senão concorro!

 

João Triguinho Lopes

Uma história de Natal

 

Raquel Carrilho

Trumpalhada Total

 

António Mário Lopes dos Santos

Orçamentos, coisas para político ver?
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária