o riachense

Quarta,
16 de Agosto de 2017
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Até a Igreja começa a perder a paciência

Nunca pensei que o meu país se transformasse nisto: um pesadelo. 

Os jovens olham os mais velhos como se estes estivessem a mais e lhes roubassem o futuro. Os mais velhos temem, não o futuro, mas o presente, que um governo de centro-direita abocanhou com unhas e dentes, para o distribuir pelos seus filhos, afilhados, compadres e quejandos, oferecendo-lhes, em contrapartida, empobrecimento e abandono. Os desempregados transformam-se em abandonados, os que têm trabalho sentem a cada dia que passa o medo de perder o seu ganha-pão. Emigra-se de novo, como se o destino deste país fosse ser a mão d’obra barata do capitalismo financeiro, como ontem o foi do comercial. 

A solidariedade dissolve-se na acidez voraz dum individualismo egoísta, assente no salve-se quem puder. Os hospitais públicos não correspondem às necessidades de populações cada vez mais fragilizadas, física e psiquicamente, ante o peso dum quotidiano cada vez mais volátil e sombrio. Os privados colocam-se na balança das fraudes financeiras e entram no festival de saldos que atrai os abutres, desejosos da carniça que o poder distribui, a troco de alvíssaras e protecção pessoal no que vier depois. A impunidade não incomoda, no poder judicial, mais do que vozes efémeras, atento mais ao cumprimento de leis feitas e aprovadas em firmas de advogados que já foram e ainda são, ministros, deputados, administradores, banqueiros, dirigentes patronais e sindicais, empresários, gente grada dos partidos do dito arco da governação. A imprensa e os meios de comunicação transformaram-se em cartazes publicitários ao serviço dos poderes económicos. O jornalismo crítico, defensor dos direitos dos povos, azorrague dos abusos dos poderes, metamorfoseou-se num tabloidismo onde o que vale e dá lucro são as misérias duma sociedade em crise, com os seus desmandos originados pela degradação provocada pela rapacidade das elites. A literatura, a arte, portuguesas, umbigaram-se, refugiadas no elitismo da essencialidade de cada artista ser mais original do que outro, ao ponto de cada vez mais num país de aliteracia substancial, se contar pelos dedos os resultados duma criação artística que seja algo mais que o narcisismo dum aplauso dos frustres do mesmo ofício.

 As escolas transformaram-se em centros de depressão colectiva: os alunos, porque não têm saídas profissionais; os professores, porque se viram transformados em fazedores de estatísticas e de verbetes, tendo cedido ao medo e ao servilismo dócil a dignidade humanística da docência; os encarregados de educação, porque se sentem ultrapassados pelos conhecimentos dos filhos, esgotados pela premência dum tempo acelerado que os impede de acompanhar, perceber, poder dizer o amor e a dor que a ambiguidade do futuro daqueles lhes cria; os funcionários, porque não conseguem responder ao crescendo de violência, de má educação, de insulto, quer de alunos, quer de encarregados desorientados pelo amor egoísta e cego, sem perceberem que não passam de peões de xadrez no tabuleiro das desigualdades para que a escola pública seja, como tudo o que é público, menosprezado. os directores de escola, nomeados pelo centralismo ministerial, liquidadores da democracia em nome do empreendorismo e economicismo educativo.

 E ninguém diz que o rei vai nu, quando os poderes públicos esvaziam a qualidade pública dos organismos públicos usando os poderes públicos e os dinheiros públicos para garantir a qualidade (?) dos privados, das empresas de negócios que gerem a saúde, a educação, a informação, a ciência, a cultura. Os abutres geram as suas intervenções nos países fragilizados pela exploração desumana e continuada por organismos internacionais cada vez mais defensores da desigualdade e do castigo. São neo-colonialistas abusando da pobreza do colonizado à força, num turismo visivelmente confrangedor, usurário, cheio de frases epidérmicas - o país é bonito, a vida é barata, a comida e a bebida são boas, o português é muito simpático. De facto, de norte a sul, de leste a oeste, o país da toalha no braço e bandeja na mão, a servir os europeus do Norte, como o fizeram durante séculos os seus antepassados - sempre foi assim, é o destino, o que se há-de fazer -, a troco duma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma. E já chegaram os anjos do México, os serafins de Angola, os querubins do Brasil, os duendes germânicos, atraídos pelos despojos do BES, da PT, do que mais der, nas feiras dos negócios da banca e do governo. 

Não é este o país que quero para os meus filhos. Compreendo que este seja o país que os partidos do arco da governação queiram para os seus filhos, onde a cunha, o compadrio, o cartão partidário, são a chave mágica do emprego qualificado, do lugar na administração, dum cargo político, da Câmara Municipal ao Ministério. Mas é do meu lado, do reformado, do jovem licenciado, do trabalhador precário, das famílias que o fisco aperta como uma garra de aço, que o desemprego morde. Nunca acontecerá na família dos secretários de Estado, dos administradores do Banco que já foram ministros, dos deputados que de manhã estão no Parlamento e à tarde itineram os conselhos de administração e as sociedades de advogados, após um almoço quase gratuito no restaurante que muitos afirmam ser o mais luxuoso de Lisboa, o da Assembleia da República. Não, nem aí, nem na casa civil e militar do Presidência da República, o desemprego tem personificação e tragédia, ao contrário do que acontece a um número cada vez maior de famílias portuguesas. 

Quando a própria Igreja, sempre tão prudente em relação ao poder económico e político, vem do seu lugar mais sagrado em Portugal, Fátima, acusar quem governa de criador de desigualdades gritantes entre ricos e pobres, de caminhos estranhos que perigam a existência dum país enquanto tal, algo nos diz que a mudança é mais do que necessária, é urgente.

 

21 de Agosto de 2014
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António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt

 

Actualizado em ( Quinta, 21 Agosto 2014 14:42 )  

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