o riachense

Segunda,
22 de Julho de 2019
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Mundos de aventuras

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por Carlos Tomé

“Tens aí uns livros de cowboys para trocar?” perguntava o Carlos Neco, colega da escola primária, na esperança de trocar os seus Texas Jack pelos meus Kit Carson. Os do Fantasma eram mais difíceis, como raros eram os do Buck Jones ou do Cisco Kid. O Mundo de Aventuras era o nosso mundo de aventuras depois de uma tarde inteira a lutar com índios Sioux nos Casais Pinheiros.
 
Enquanto a leitura não passava daqui, Carlos Caralhana, o maior reparador de bicicletas da região, já tinha confiscado no Central logo pela manhã o Diário de Notícias, a Bola e o Século Ilustrado. O Caralhana, surdo como uma porta, era o maior leitor de jornais do Central devorando numa manhã tudo o que tinha letras. Criador da célebre marca de bicicletas Solrac, o seu nome escrito ao contrário, Caralhana sabia de ciclismo como ninguém. A distância que deveria existir entre a roda pedaleira e a roda dianteira, a altura ideal do selim, o material do quadro, o tamanho da cremalheira, a distância entre o selim e os pedais, a qualidade das mudanças, todos os nomes dos grandes campeões de ciclismo, aspectos curiosos da arte de correr de bicicleta, os vencedores das principais etapas da volta a Portugal, os duelos entre José Maria Nicolau e Alfredo Trindade ou as vitórias de Alves Barbosa. Mecânico de bicicletas, ateu confesso e de ideais comunistas, Caralhana era o que se podia considerar um homem completo, um autodidacta dos antigos, dos que juntam à aprendizagem da vida o conhecimento livresco. 
 
Um dia mostrou-me as bicicletas que consertava na sua oficina e a biblioteca que escondia em casa. Na oficina estavam as máquinas penduradas por correntes do tecto. Em casa estavam os livros, milhares de livros, muitos deles eram para mim absolutamente desconhecidos, outros que só muito mais tarde vim a conhecer, outros de que nunca mais ouvi falar, os neo-realistas, os surrealistas, os marxistas, as primeiras edições, os encadernados, os franceses. Por toda a casa, oficina e biblioteca, estavam as máquinas e os livros que haveriam de conduzir os homens mais longe. Era um outro mundo. Outro mundo de aventuras. Fiquei maravilhado. E temi sair da oficina do Caralhana com medo que o Padre Custódio, que morava ao lado, aparecesse naquele momento e me excomungasse porque tinha sido possuído pelo Satanás. Felizmente o Padre não apareceu. Tinha ido à vila na 4L com as suas duas irmãs no banco de trás e Deus no lugar da frente.
 
Nessa tarde, quando pegou nas palavras cruzadas do Diário de Notícias com a sua Parker, o Fernando Manha já não me deixava hipóteses de procurar os sinónimos da língua e de jogar com os significados das palavras, tal era a sua desenvoltura na arte. Começava numa ponta e preenchia na bisga todos os quadrados das cruzadas. Cada palavra encerrava um mundo fechado que ele ia abrindo ao descobrir o seu sinónimo. Sempre em silêncio, Fernando Manha era o campeão da arte de cruzar palavras, na ciência de recriar a nossa língua, dominando-a com a mesma serenidade com que se deliciava com uma 1920 em balão aquecido, um verdadeiro néctar dos deuses que lhe dava a inspiração indispensável para ser um cruzado ao descobrir outros mundos que as palavras escondiam.
 
Como era a primeira quinta-feira do mês, a carrinha da Biblioteca Itinerante da Gulbenkian ia ao Largo no final da tarde, conduzida pelo Victor Silvino e orientada pelo Armando Fernandes, distribuindo cultura ao domicílio. Os livros mais interessantes, e se calhar subversivos, estavam escondidos numa prateleira mais alta. Era difícil chegar lá. Os outros vulgares e mais populares mostravam-se à frente do nariz, como muito mais tarde haveriam de fazer os hipermercados com os seus produtos. Uma vez por mês tínhamos a sorte de conhecer outras culturas, outras ideias, outros mundos. O Armando Fernandes empurrou-me para a prateleira mais alta. Tal como nos Casais Pinheiros ou em casa do Caralhana também ali havia outro mundo de aventuras. A descoberta da vida verdadeira e da ficção sonhada. Os livros iam num mês e no mês seguinte eram trocados por outros, não já de banda desenhada mas daqueles sem bonecos. Havia sempre livros para a troca. Depois dos Texas Jack, dos Cinco, do Tim Tim e do Tom Sawyer haveriam de chegar a Fanga, os Esteiros, os Subterrâneos da Liberdade, Quando os Lobos Uivam, a Selva, a Geografia da Fome, as Vinhas da Ira, a Mãe e muitos outros. Muitos outros mundos haveriam de vir.
 
Passados uns tempos, num frio e chuvoso domingo de inverno, só se falava em Riachos e no Central das grandes ondas que davam à costa na Nazaré. O temporal era grande e os seus efeitos faziam-se sentir com força nessa praia. Victor Silvino entrou no Central pediu um café e atirou “vou num instante à Nazaré ver as ondas que lá apareceram agora com 10 metros”. Ondas enormes. Um verdadeiro acontecimento. Como o McNamara só apareceria quarenta anos depois e como as ondas gigantes não davam na televisão, Silvino tinha que ir ver as ondas no sítio delas porque eram outra realidade e prenunciavam outra ficção. A vida, como os livros a inventavam e como a realidade a criava. A vida e a ficção andavam de mãos dadas. Era um novo mundo que surgia. Um outro mundo de aventuras estava para começar. E novos livros estavam para vir.


Actualizado em ( Segunda, 27 Outubro 2014 12:12 )  
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