o riachense

SŠbado,
02 de Dezembro de 2023
Tamanho do Texto
  • Increase font size
  • Default font size
  • Decrease font size

Mundos de aventuras

Enviar por E-mail Vers√£o para impress√£o PDF
 
por Carlos Tomé

‚ÄúTens a√≠ uns livros de cowboys para trocar?‚ÄĚ perguntava o Carlos Neco, colega da escola prim√°ria, na esperan√ßa de trocar os seus Texas Jack pelos meus Kit Carson. Os do Fantasma eram mais dif√≠ceis, como raros eram os do Buck Jones ou do Cisco Kid. O Mundo de Aventuras era o nosso mundo de aventuras depois de uma tarde inteira a lutar com √≠ndios Sioux nos Casais Pinheiros.
 
Enquanto a leitura n√£o passava daqui, Carlos Caralhana, o maior reparador de bicicletas da regi√£o, j√° tinha confiscado no Central logo pela manh√£ o Di√°rio de Not√≠cias, a Bola e o S√©culo Ilustrado. O Caralhana, surdo como uma porta, era o maior leitor de jornais do Central devorando numa manh√£ tudo o que tinha letras. Criador da c√©lebre marca de bicicletas Solrac, o seu nome escrito ao contr√°rio, Caralhana sabia de ciclismo como ningu√©m. A dist√Ęncia que deveria existir entre a roda pedaleira e a roda dianteira, a altura ideal do selim, o material do quadro, o tamanho da cremalheira, a dist√Ęncia entre o selim e os pedais, a qualidade das mudan√ßas, todos os nomes dos grandes campe√Ķes de ciclismo, aspectos curiosos da arte de correr de bicicleta, os vencedores das principais etapas da volta a Portugal, os duelos entre Jos√© Maria Nicolau e Alfredo Trindade ou as vit√≥rias de Alves Barbosa. Mec√Ęnico de bicicletas, ateu confesso e de ideais comunistas, Caralhana era o que se podia considerar um homem completo, um autodidacta dos antigos, dos que juntam √† aprendizagem da vida o conhecimento livresco.¬†
 
Um dia mostrou-me as bicicletas que consertava na sua oficina e a biblioteca que escondia em casa. Na oficina estavam as m√°quinas penduradas por correntes do tecto. Em casa estavam os livros, milhares de livros, muitos deles eram para mim absolutamente desconhecidos, outros que s√≥ muito mais tarde vim a conhecer, outros de que nunca mais ouvi falar, os neo-realistas, os surrealistas, os marxistas, as primeiras edi√ß√Ķes, os encadernados, os franceses. Por toda a casa, oficina e biblioteca, estavam as m√°quinas e os livros que haveriam de conduzir os homens mais longe. Era um outro mundo. Outro mundo de aventuras. Fiquei maravilhado. E temi sair da oficina do Caralhana com medo que o Padre Cust√≥dio, que morava ao lado, aparecesse naquele momento e me excomungasse porque tinha sido possu√≠do pelo Satan√°s. Felizmente o Padre n√£o apareceu. Tinha ido √† vila na 4L com as suas duas irm√£s no banco de tr√°s e Deus no lugar da frente.
 
Nessa tarde, quando pegou nas palavras cruzadas do Diário de Notícias com a sua Parker, o Fernando Manha já não me deixava hipóteses de procurar os sinónimos da língua e de jogar com os significados das palavras, tal era a sua desenvoltura na arte. Começava numa ponta e preenchia na bisga todos os quadrados das cruzadas. Cada palavra encerrava um mundo fechado que ele ia abrindo ao descobrir o seu sinónimo. Sempre em silêncio, Fernando Manha era o campeão da arte de cruzar palavras, na ciência de recriar a nossa língua, dominando-a com a mesma serenidade com que se deliciava com uma 1920 em balão aquecido, um verdadeiro néctar dos deuses que lhe dava a inspiração indispensável para ser um cruzado ao descobrir outros mundos que as palavras escondiam.
 
Como era a primeira quinta-feira do m√™s, a carrinha da Biblioteca Itinerante da Gulbenkian ia ao Largo no final da tarde, conduzida pelo Victor Silvino e orientada pelo Armando Fernandes, distribuindo cultura ao domic√≠lio. Os livros mais interessantes, e se calhar subversivos, estavam escondidos numa prateleira mais alta. Era dif√≠cil chegar l√°. Os outros vulgares e mais populares mostravam-se √† frente do nariz, como muito mais tarde haveriam de fazer os hipermercados com os seus produtos. Uma vez por m√™s t√≠nhamos a sorte de conhecer outras culturas, outras ideias, outros mundos. O Armando Fernandes empurrou-me para a prateleira mais alta. Tal como nos Casais Pinheiros ou em casa do Caralhana tamb√©m ali havia outro mundo de aventuras. A descoberta da vida verdadeira e da fic√ß√£o sonhada. Os livros iam num m√™s e no m√™s seguinte eram trocados por outros, n√£o j√° de banda desenhada mas daqueles sem bonecos. Havia sempre livros para a troca. Depois dos Texas Jack, dos Cinco, do Tim Tim e do Tom Sawyer haveriam de chegar a Fanga, os Esteiros, os Subterr√Ęneos da Liberdade, Quando os Lobos Uivam, a Selva, a Geografia da Fome, as Vinhas da Ira, a M√£e e muitos outros. Muitos outros mundos haveriam de vir.
 
Passados uns tempos, num frio e chuvoso domingo de inverno, s√≥ se falava em Riachos e no Central das grandes ondas que davam √† costa na Nazar√©. O temporal era grande e os seus efeitos faziam-se sentir com for√ßa nessa praia. Victor Silvino entrou no Central pediu um caf√© e atirou ‚Äúvou num instante √† Nazar√© ver as ondas que l√° apareceram agora com 10 metros‚ÄĚ. Ondas enormes. Um verdadeiro acontecimento. Como o McNamara s√≥ apareceria quarenta anos depois e como as ondas gigantes n√£o davam na televis√£o, Silvino tinha que ir ver as ondas no s√≠tio delas porque eram outra realidade e prenunciavam outra fic√ß√£o. A vida, como os livros a inventavam e como a realidade a criava. A vida e a fic√ß√£o andavam de m√£os dadas. Era um novo mundo que surgia. Um outro mundo de aventuras estava para come√ßar. E novos livros estavam para vir.


Actualizado em ( Segunda, 27 Outubro 2014 12:12 )  
{highslide type="img" height="200" width="300" event="click" class="" captionText="" positions="top, left" display="show" src="http://www.oriachense.pt/images/capa/capa801.jpg"}Click here {/highslide}

Opini√£o

 

António Mário Lopes dos Santos

Agarrem-me, sen√£o concorro!

 

Jo√£o Triguinho Lopes

Uma história de Natal

 

Raquel Carrilho

Trumpalhada Total

 

António Mário Lopes dos Santos

Orçamentos, coisas para político ver?
Faixa publicit√°ria
Faixa publicit√°ria
Faixa publicit√°ria
Faixa publicit√°ria