o riachense

Quinta,
19 de Outubro de 2017
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Uma escrita que o tempo me permite reflectir

Releio velhos textos ideológicos do marxismo. Em simultâneo, contemplo alguma s tiras da Mafalda. Sobre a PAZ. Do planeta, vou sabendo pelos programas televisivos. Leio o Le Monde que um amigo noutro continente me envia pela Internet com regularidade. Vejo um documentário sobre Israel e a Palestina e sinto que a revolta contra o fundamentalismo religioso pode anunciar, a médio prazo, uma nova escalada pelo direito à terra. Os colonatos são entidades militares israelitas no cimo das colinas vigiando a pulsação do mundo dos desenraizados. Nenhum campo de concentração dura para sempre. Os judeus não o deviam ter esquecido, após o holocausto. A religião e o dinheiro sempre foram negócio de exploração dos seres humanos. Vejam a família Espírito Santo, como no século XIX os Burnay. Não é por acaso que, com sangue judeu nas veias, pelo lado materno, prefiro reler a obra de Philip Roth que atender às explicações da defesa do estado israelita de Esther Mucznic. Nem percebo a razão dum país judaico, como não entendo um país nazi. Um povo divinamente escolhido é democrático?

Passei anos na Torre do Tombo a estudar os processos de Inquisição em Torres Novas, cuja documentação engloba o meu arquivo e publiquei sobre o assunto um pequeno estudo na revista Nova Augusta. Como o primeiro livro de história concelhia que escrevi foi sobre Torres Novas na 1ª República. Chamei-lhe a minha vingança contra a desmemória da ditadura salazarista, que expulsara a primeira república portuguesa dos livros escolares e frustrara a minha família, republicana, anti-salazarista, oprimida dezenas de anos em nome de deus, pátria e família, a trindade fascista. Curiosamente, ainda não apareceu, com excepção dalguns textos do Francisco Canais Rocha saídos na Nova Augusta, estudos sobre esse período de repressão física, intelectual, social, profissional, moral, do ser humano português. E não se diga que não há documentação, que não há arquivos. Não há é vontade política!

As ideologias corroem a lucidez. Porque não mudam, não se transformam, não evoluem, não se interrogam. Não aceito o capitalismo, que sempre combati. Mas, continuo sem perceber as esquerdas partidárias que temos, os caminhos que defendem, no mundo em que vivemos. As primárias do PS, a que o PCP classificou de farsa, as divisões do mundo da esquerda à esquerda do PCP, o BE em profundo retrocesso às origens (ao punho cerrado e radicalista da UDP?), com a saída do Livre, do Manifesto (apresentado no Público, com dezenas de assinaturas e figuras conhecias no mundo intelectual, científico, docente, artístico, sindicalista, ético, na última 6ª feira).

Quando vejo Pedro Filipe Soares a apresentar-se como candidato à liderança do Bloco na próxima convenção, os silêncios de Catarina Martins e João Semedo às interrogações dos jornalistas, sobre se o primeiro mantém a confiança dos segundos na direcção da bancada, já que se opõe e discorda da orientação definida, não sei se a esquerda tenta ressuscitar um ajustar de contas adiado com o PREC, com a excomunhão do socialismo democrático, da social - democracia, do comunismo, do euro comunismo, num regresso cada vez mais empenhado a um centralismo democrático estalinista/maoista, que tem um exemplo interessante nas medidas do capitalismo de Estado do partido Comunista Chinês, com a sua «liberdade de voto programada» em Hong Kong. 

Elísio Estanque, num excelente artigo, o PS, o PC e a esquerda desavinda, chama a atenção para a rivalidade política, exacerbada com o PREC, que «cavou muros intransponíveis. O discurso perdeu conteúdo ideológico, mas reforçou os seus efeitos de plasticidade junto aos «fiéis», ou seja, a diabolização do outro é o principal condimento de fidelização de cada «facção» (ou base eleitoral)».

A esquerda deixou de se pensar dialecticamente. De saber as razões que a empurram sempre de forma dramática para um genocídio ideológico, na impossibilidade de reactivar o campo de reflexão sobre o comunismo, o socialismo democrático, a ecologia, as novas formas de participação política onde representação, participação, activismo, exigem, às forças partidárias no terreno, transparência, democracia, respostas concretas, formas de intervenção mais plurais e menos dogmatizadas. 

Até para alguém com a minha idade a função apelativa dos meios de comunicação informáticos não deixa de mostrar que outros caminhos se fazem caminhando num mundo muito diferente do passado que vivi. Sem fortalezas em cima das colinas, nem divisionismos que conduzem a guetos e melancolias de derrota indisfarçáveis. 

De facto, por muito pouco que se suportem, por muito que se odeiem, os fautores do capitalismo construíram redes de poder que só podem ser superadas, se a democracia souber responder ao totalitarismo disfarçado do mundo neo-liberal. Os milhões dos submarinos que deram entrada nas contas pessoais dos desavindos e inimigos grupos familiares do BES, mostra como a divisão das direitas têm sempre um cimento - a corrupção do dinheiro. 

As novas gerações são culturalmente superiores à minha geração. O seu mundo é mais intranquilo, alucinantemente segregativo, ferozmente mais individualista, temporalmente mais acelerado, incrivelmente mais desumanizado, manipuladamentre mais empobrecido. Como se pode responder à desigualdade profunda entre ricos e pobres num mundo planetário, onde o Ébola se localiza no mundo colonizado, as fronteiras começam a reagir às divisões da 1ª e 2ª guerra mundiais, e as religiões retrocedem à bestialidade das guerras sem quartel em nome da verdadeira fé de cada lado, com as mesmas propostas do século XIX e primeiro quartel do século XX?

O que compete às esquerdas é saber-se capaz de intervir para transformar o mundo em algo melhor e mais decente. Primeiro, aprendendo a respeitar-se. A respeitar o outro, a diferença que obriga o mundo a mudar.

2 de Outubro de 2014
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António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt

 

Actualizado em ( Quinta, 02 Outubro 2014 10:46 )  

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