o riachense

Segunda,
16 de Dezembro de 2019
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O quarto segredo de Fátima

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por Carlos Tomé

Todos os dias vinha da Rua dos Condes com a sua calma e o seu baú para se sentar a ver televisão e beber uma Coca Cola. O Chico Alavanca tinha lugar marcado na plateia do Central. Chegava e sentava-se com o seu baú, companheiro inseparável que o seguia para todo o lado. O baú era um mistério. Porque andava o Chico Alavanca sempre agarrado a um baú de lata? O que escondia lá dentro? As dúvidas eram mais que muitas. E as respostas surgiam para todos os gostos. A bem dizer, havia até quem dissesse que o Chico escondia lá um tijolo para chegar ao mictório quando ia à casa de banho. Era a malta que se punha a adivinhar.
 
Também naquela noite o caso não foi diferente. Toda a gente se interrogava baixinho e havia até alguns rapazolas mais atrevidos que o questionavam “ò Se Chico o que é que traz aí dentro?” mas o Alavanca do alto do seu metro e meio só se ria com ar feliz e remetia-se ao silêncio deixando ainda mais dúvidas no ar. Depois de pedir a bebida do costume, Chico Alavanca preparava-se para ver um dos programas da televisão que mais gozo lhe dava. As aventuras da família Cartwright no rancho da Ponderosa deliciava muita gente e Chico Alavanca não era excepção. Adorava o Bonanza. Claro que também não desperdiçava um episódio do Sandokan ou do Espaço 1999 nem falhava o Peter Falk no extraordinário Columbo, o detective da gabardina coçada. Mas o nosso Chico era homem de cultura e não deixava passar em claro o Raul Solnado, Fialho Gouveia e Carlos Cruz no Zip Zip. Foi lá que viu a primeira actuação do Pedro Barroso e a deliciosa entrevista do Almada Negreiros.
 
A televisão era a sua companhia de todos os dias e nela se refugiava das agruras da vida. Quando, bem recostado, se sentava numa cadeira os seus pés mal chegavam ao chão. Falava pouco mas fazia-o sempre de forma calma e educada em tom baixo adequado à sua altura a qual era muito menor que a estatura da sua personalidade. E gostava de ver televisão. Ali ficava uma noite inteira adorando os actores de que gostava Cary Grant, Humphrey Bogart, Anthony Quinn, Ingrid Bergman, Romy Shneider. De tempos a tempos comentava as notícias, gostava de ver o Sousa Veloso no TV Rural ou o Fernando Pessa com o E esta, hem? mas não ligava nenhuma às Conversas em Família do Marcelo Caetano. 
 
Às vezes quando os programas de televisão não lhe interessavam levava um livro e lia duas ou três páginas. Era o único freguês que lia livros no Central. E por vezes vinha também de casa a ler enquanto andava muito devagar parando pelo caminho. Ninguém sabia que livros lia. Mas o raio do baú, o que é que tinha lá dentro?
 
Estava o Chico Alavanca a empinar uma Coca Cola como habitualmente quando se ouve “Ò Chico não bebas essa intrujice que isso só faz é gases, mete mas é uma cerveja aos queixos” dizia o João Beiça enquanto bebia o café e um bagacinho para empurrar o comprimido. O João Beiça fazia questão de tomar todos os dias um comprimido com aguardente da pesada e não consta que essa mistura explosiva lhe tenha feito algum mal. João Beiça era o melhor pedreiro da região e com o João Tambor faziam uma dupla de pedreiros de se lhe tirar o chapéu. Assentavam tijolo à pala do tinto e animavam com aguardente as obras de construção mais difíceis, tornando-as em delicadas obras de arte.  
 
Mas o Chico não gostava de bebidas alcoólicas. A única vez que bebeu alguma coisa com álcool foi quando abafou uma constipação com dois ponches quentes. Matou o vírus da gripe mas esteve três dias de molho por causa das malditas cólicas animadas pelo licor da garrafa de prata.
“Ò rapaz arranja aí a correr um café e um bagaço para assentar o cabelo que eu tenho que ir num instante ali a Espanha levar uma carrada de cornos àqueles cabrões que andam cheios de caspa e precisam lá deles” dizia no seu linguajar inconfundível o Manel Chavelharia, famoso maquinista da CP. E virando-se para o baú do Chico Alavanca atirou “ò Chico afinal o que é que trazes aí no cabaz? Não é a garrafa do mata-bicho que tu não metes a goela nisso. Também não é a merenda que não são horas da bucha. Deve ser mas é um par de chavelharia para dar a algum cabrão mais precisado.” Toda a gente se divertia mas ninguém o levava a sério e muito menos o Chico Alavanca que só sorria com aquele sorriso trocista. E sorrindo alimentava o silêncio e o mistério.
 
Do baú continuava tudo no mais profundo segredo. Havia até quem dissesse que era o quarto segredo de Fátima. Melhor guardado que os outros três. De tal modo que ainda hoje há quem esteja à espera da sua revelação. E reze para que o segredo seja desvendado.


Actualizado em ( Segunda, 27 Outubro 2014 12:11 )  
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