o riachense

Quinta,
29 de Junho de 2017
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António Mário Lopes dos Santos

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O peso das desigualdades

Não sei a razão, mas passei o dia a ser assaltado pelo velho adágio cristão: é mais fácil passar um camelo pelo buraco duma agulha que entrar um rico nos reinos dos céus. A duvidar da sua veracidade. Talvez pelos casos cada vez mais emaranhados do BES, que a imprensa usa e abusa, sem grandes avanços, para vender papel. Foi assim com o BCP, com o BPN, com dezenas de casos que se transformaram em papel de arquivo. Há-de ser assim com a ONG de Passos Coelho, a PT, o próximo Orçamento do Estado, o que mais adiante se verá, porque a virose, quando acerta, ninguém, excepto os que Deus no seu desígnio misterioso, selecciona, se safam. Não é por acaso que Durão Barroso, após o seu beneplácito a Bush na questão do Iraque, sai de presidente da Comissão Europeia como uma virgem de primeiro plano, ainda que com um cortejo de desempregados como, na Europa, já não havia há décadas. Nem é por bênção falhada do bispo madeirense, que Alberto João Jardim deixa de continuar como um anjo ilhéu para os seus laranjas compadres, onde até o seu próprio ortopedista e barão local do PSD acumulou indevidamente 400 mil euros, como nos relata a imprensa diária, e é mais um dos casos prescritos com a bênção da legislação feita pelos nossos representantes no órgão deliberativo luso. 

Lamento que a Justiça Portuguesa não siga o caminho de Antero, quando a sua consciência chocou com o desaforo da injustiça social. Mas Antero ficou na história de Portugal, de forma dupla, como grande poeta e um lutador pelas causas dos injustiçados A justiça lusa há muito que tem lugar no reino dos privilegiados do reino dos céus , desde a inquisição instituída por D. João III, à grande eficácia do projecto CITIUS, devido à grande generosidade pública com que a actual ministra trabalhou pela salvaguarda dos leais portugueses.

Todos esses casos, bem reflectidos, contrariam a boa intenção do adágio. Não sei como passa um camelo pelo buraco da agulha. Mas tenho, em cada dia que passa, menos dúvidas de que há uma corrente de empatia entre os acusados dos processos de enriquecimento fácil e a bênção benevolente do reino dos céus, situe-se onde se situar, seja imanente ou transcendente, que permite, para desconforto dos crentes injustiçados, cada vez mais possibilidade da fuga ao fisco, do abuso do poder, do uso indevido dos valores colectivos, através das artimanhas jurídicas, que levam num corropio de processos, a maioria à prescrição, ao arquivamento, à boa vida material, às melhores condições, quer nos meios postos à sua disposição, na saúde, na justiça, na educação dos sucessores, no viver a vida com a qualidade que só a poucos, os protegidos, se concede.

Leiam-se as séries da imprensa local, de 1918 a 1974, perceber-se-á como o reino dos céus era mais fácil para a riqueza possidente, proprietária, industrial, comercial, do que o buraco do cu da agulha, com salários baixos, exploração do trabalho feminino e infantil, analfabetismo provocado, desemprego cíclico, insegurança de sobrevivência individual ou familiar, perseguição e cadeia para os que se revoltam, empregos e privilégios de cão de trela para quem sabia lamber a mão protectora com a saliva da subserviência.

Muito mudou em um século. No país e no planeta. Mais globalizado no interesse de minorias, mais desumanizado na exploração das maioria.

Mas poderíamos estar a milhas deste mundo globalmente desumanizado, com a riqueza distribuída, os recursos materiais planetários ao serviço das sociedades humanas, as doenças epidemiológicas e cancerígenas reduzidas a focos limitados e desdramatizados, a fome, a miséria, o sofrimento, o racismo, a crendice, transformadas em alíneas de enciclopédias históricas. Infelizmente, a Igreja, por muitos papas João XXIII ou Francisco, que tentam abrir uma porta com menos intermediários entre a justiça divina e uma humanidade miraculosamente sobrevivente não consegue eliminar a pedofilia, a exploração da infância e da senilidade, cimentados pelo analfabetismo religioso fundamentalista da intolerância ante o outro, que pela diferença, pela pressão social, marginalizada pela maioria dos bispos que, no último sínodo, falam, oram, legislam sobre questões de sexo como pecado, como lascívia, como excomunhão, sem que se explique em que experiência prática assentou a sua sapiência não sei por quem iluminada. 

O camelo não tem ajuda e não passa pelo buraco da agulha. Aos ricos, basta-lhes um dos sinais simbólicos, quer da maçonaria, quer da opus dei, quer da tradição, para que o venha a nós o vosso reino seja colocado no purgatório das coisas que o tempo acelerado em que se vive os coloque fora dos assuntos mediáticos: os que fazem doer e fazem sofrer. 

O ébola, para bem de África, chegou aos Estados Unidos e à Europa. Há dezena de anos que mata, menos que o paludismo, em África. Os cinco mil mortos pouco chocaram o espírito do colonizador que vê, com ou sem independência, África como uma mercadoria e um mercado exponencial. Mas os dois casos americanos e os pouco mais europeus trouxeram ao de cima a grande resiliência do mundo civilizado, com imediata resposta de anti-vírus, uma possível, breve e rápida vacina, uma luta contra o mundo temeroso das epidemias históricas.

Os Estados Unidos, a Europa, são um bom negócio para as agências farmacêuticas. O mundo africano não era, neste campo, compensatório. 

No cu da agulha bem tenta o camelo passar para o outro lado, como Alice fez no espelho, ao descobrir o país das maravilhas. O rico só não passa, porque não lhe interessa a tentativa. Já tem a outra porta aberta, a da desigualdade ancestral que a ligação com o divino sempre os seus representantes lhes proporcionou. 

A Humanidade não pode desistir do buraco da agulha, como uma forma de se libertar do peso que custam os ricos.

22 de Outubro de 2014
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António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt

Actualizado em ( Segunda, 27 Outubro 2014 11:36 )  

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