o riachense

Sexta,
18 de Outubro de 2019
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Camionetas verdes e um peixe a luzir

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por Carlos Tomé

As camionetas verdes dos Luzes, com um peixe a luzir, eram conhecidas em todo o país e por todo o lado os seus motoristas eram respeitados e reconhecidos como os mais capazes profissionais do volante. Fernando da Luz, o maior de todos, finalizava sempre uma viagem depois de conduzir o semi-reboque por todo o rectângulo e dobrar as mais incríveis esquinas com a destreza e diligência dos bons profissionais, ao beber duas tacinhas de tinto no Central enquanto pausadamente saboreava um SG Filtro. Sempre de espinha direita Fernando da Luz era respeitado por todos e o Patrão João era o primeiro a demonstrar isso. Nada mais justo.
 
Mas Fernando da Luz não estava sozinho. João Piteira, Zé Chamusco, Leonardo e Joaquim Manha, também conhecido pelo Professor por não desperdiçar o Século ou o Diário de Notícias e gostar de mandar bitaites sobre tudo com ar circunspecto, eram os maiores choferes, os que conseguiam enfiar os camiões grandes como comboios de uma única assentada sem qualquer manobra de marcha atrás na garagem minúscula. “Haviam de estar muito entornados para não o conseguirem fazer” dizia o Zé das Molas, sempre trocista, o maior especialista em amortecedores, enquanto cortava as unhas encostado à esquina do Central a fazer tempo para entrar de serviço. Os Luzes eram o verde das camionetas, o desenho do peixe a luzir no catavento da igreja nova e os motoristas em viagem pelo país.
 
Necessitada de espairecer das chatices da vida e de muitas horas agarrada ao volante enorme que deixava um vinco nos pneus da barriga do Zé Chamusco, esta rapaziada e amigos em boa hora decidiu criar um grupo jantarista com um plano de actividades recheado e com acontecimentos gastronómicos em todos os fins-de-semana do ano. “Os 11 Amigos da Farra” era a mais profícua associação de Riachos, de admissão reservada a gente de respeito com michelins na barriga, mas dotada de estatutos e sede social e tudo como as demais. 
 
Os amigos formavam uma equipa completa, entravam em estágio nas sextas à noite e só largavam o desafio no domingo ao final da tarde. Não tinham contendores à altura. Ao pé da farra dos 11 amigos, a Grande Farra de Marco Ferreri era uma brincadeira de crianças e tanto Michel Piccoli como Hugo Tognazzi eram aprendizes na arte de comer ao pé do Zé Gordo. Havia quem dissesse até que o filme do italiano tinha sido inspirado nos 11 Amigos da Farra. Mas a história, com a sua inexactidão, nunca registou essa evidência. Para ser sócio o candidato tinha que passar por uma bateria de testes e provas que só os seres excepcionais conseguiam ultrapassar, não bastava ter nariz vermelho em forma de torneira, nem o estômago um bocado dilatado, nem o olhar ligeiramente vítreo, antes era indispensável ser um verdadeiro amigo da farra. Alguém que não fingisse. Se fosse preciso passar um fim-de-semana inteirinho a secar uma pipa e a devorar uma feijoada a sério, tendo apenas os amigos por companheiros, o sócio não se podia fazer rogado. Era um clube de elite, apenas reservado aos amigos, aos verdadeiros amigos, aos amigos da farra. Mas a ingratidão dos poderes nunca reconheceu os 11 Amigos da Farra como uma associação a sério, pois o ferrador Zé Jorge, que exercia o cargo de regedor, nunca lhe passou cartão e nunca lhe atribuiu um subsidiozíto.
 
Tinha o Zé Remigio acabado de beber uma imperial à pressa e já estavam a chamá-lo para ir desempanar mais uma Hanomag que tinha gripado o motor à força do Joaquim Trigolinhas  lhe carregar na tábua. O Fura Feno já vinha a correr de casa para tomar conta da oficina, o Joaquim Simões puxava do alicate e do busca-pólos que andava sempre no bolso da camisa e preparava-se para a função e o Victor do Stand já esfregava as mãos á procura da chave-inglesa, do trecolareco de três oitavas e do macaco que não chegou a encontrar pois este tinha fugido da gaiola do Zé dos Macacos e lançado o pânico no Central obrigando o Zé Rito a esconder-se durante três horas na casa de banho com medo do bicho. Tudo a postos para o trabalho. Enquanto isso, o Zé Estica carregava uma caixa de gelados Perna de Pau enquanto acabava de comer o sexto Super Maxi e o Carlos Pato, mais conhecido pelo Bazooka, alcunha sem razão aparente, metia na boca uma mão cheia de pastilhas elásticas Bazooka e fazia um balão do tamanho de uma bola de praia Nívea que haveria de rebentar três minutos depois amarfanhando-lhe a cara toda com uma película pegajosa.
 
Entretanto, a brigada de trânsito visitava os Luzes e era uma alegria pegada. Alto e pára o baile, ouvia-se no armazém das caixas do peixe. Parava tudo. Os agentes entravam de mãos a abanar e quando saíam do armazém vinham sempre com uma caixa de gambas debaixo do capote, um pargo nos fundilhos das calças e um peixe-espada a espernear agarrado como lapa às botas do sargento. E não as largava por mais que o graduado sacudisse o peixe a luzir. As gambas eram degustadas no Central empurradas por muita imperial e cascas de tremoços atiradas para o chão pois os graduados na sua santa ignorância desconheciam a existência de pires. As multas de trânsito ficavam na gaveta a repousar e a pescaria era um vê se te avias que a vida custa a todos. A mariscada caía que nem ginjas. O patrão João tratava bem deste pessoal e este pessoal reconhecia a bondade do tratamento. Nada mais justo.
Actualizado em ( Segunda, 27 Outubro 2014 12:11 )  
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