o riachense

Sexta,
21 de Julho de 2017
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Pedro Barroso

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Gente de cá por lá

Memórias (1)

Foi numa das várias vezes que fui a Toronto. 

Encontrar portugueses por lá é fácil. É talvez neste momento, a par de Paris, cidade para ter quase meio milhão de lusitanos ou luso descendentes. 

Por lá encontrei as filhas dum tal Manuel Padeiro, homem que passou por esta terra e a recordou até morrer. Este Manuel – há o caso de ter existido um outro Manuel também padeiro, já sei, o que dá sempre confusão… – por lá veio a encontrar distante e invulgar fim. Foi quando, já octogenário, ia ter com a filha mais velha para almoçar, estatelando-se no gelo de um passeio, num dia de muitos graus abaixo de zero. O que, nos invernos daquelas bandas, é o pão-nosso de cada dia.

As filhas, gente decidida e lutadora, não me lembrava nada delas. E contudo. Estabelecidas com um snack na zona da Dundas Street, pois então, onde quase tudo é português. E onde se comia, óbvia e fartamente, à portuguesa e cantava o fado em noites de saudade, por vezes, aos fins-de-semana. 

A mais velha - esqueci-lhe o nome, peço desculpa - garantiu-me solenemente que tinha andado comigo ao colo. Isto quando eu, ainda puto, visitava meus tio Alfredo e Amélia e minha avó Emília, ali para a rua do velho e bafiento buraco que tantos anos serviu de correio a todos nós.

Hoje era mais difícil… – respondi eu, gordo e bem-disposto. E ela riu-se, prenhe de nostalgia.

Depois, no dia do concerto na Casa do Alentejo, viria a encontrar um Chora de seu nome – primo afastado? Nah… o homem era de BEJA! Apesar de ser nome invulgar, afinal sempre havia mais Choras neste mundo.

Mas o que mais recordo, por ter tido uma graça maior que o mundo e a distância, foi o episódio que a seguir relato.

No fim do concerto, quando suado, cansado e pronto para recolher, o artista só pensa em descanso, sempre aparece público. Querem autógrafos, comprar CDs, dar um abraço, conversar, sei lá…

De repente, começam a chegar gentes de Torres Novas. Eu também sou de Riachos, eu sou do Pedrogão, eu sou da Zibreira, eu sou da Meia Via, etc… Às tantas eram já nove torrejanos, salvo erro. Não paravam de aparecer. E dois, timidamente, espreitavam da porta, sem ousar entrar.

Bom vamos lá então dar uma volta, tomar um copo, cear, conviver em qualquer lado. Músico que se preze ceia sempre a altas horas, e eu nunca fui excepção. Vamos, pois.

Eu sei dum sítio que ainda está aberto – avançou um deles. E os tais dois continuavam, timidamente, olhando da porta. Não percebia.

Fomos saindo, o pessoal foi buscar os carros ao parque – sim, tinha sido casa cheia - e os dois, cada vez mais hesitantes, ficaram sem saber o que fazer, sempre espreitando. Mistério.

Ia eu a entrar no carro do companheiro que me daria boleia e,finalmente, não resisti e perguntei: mas… que raio, vocês não vêm porquê?

Ah …é que nós não somos de Torres Novas…- responderam, acanhados e tristes por tamanha exclusão e tão severa triagem torrejana.

Então são de onde? – Perguntei cheio de curiosidade.

Somos de Alcanena… - responderam quase num sussurro, encolhendo os ombros, já conformados.

Oh pessoal!... Embora lá connosco!… A tantos milhares de quilómetros de distância, mais légua menos légua… têm tolerância, pá! – Gritei-lhes do carro, rindo-me a bom rir com tal preciosismo.

E a noite fez-se mais alegre, e sã, e torrejana. Ou quase…

Gentes do alto Ribatejo, homens da serra e da encosta, homens feitos, vindos da saudade e da memória da sua pátria de meninos, ali ceámos e bebemos pela noite adiante, naquela metrópole improvável e distante, contando histórias e afogando saudades, numa profunda e ecuménica celebração da vida.

Actualizado em ( Quinta, 13 Novembro 2014 11:21 )  

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