o riachense

Quinta,
29 de Junho de 2017
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António Mário Lopes dos Santos

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Portugal manipulado, às cores e a preço de saldo

Não me admira ver os dirigentes da UGT a aplaudirem, alguns até de pé, a presença de Passos Coelho na festa do seu aniversário. Constança Cunha e Sá, ontem na TV 24 do cabo, na sua crónica política: «o empobrecimento do país é notório». «Passos Coelho nada mais fez que aldrabar as pessoas».

A UGT enganada? Não acredito.

O relatório da UNICEF, As Crianças e a Crise em Portugal, informa que em 2011 existiam 560 mil crianças em risco de pobreza e exclusão social. No mesmo ano, eram 723 mil adultos desempregados com crianças a seu cargo. Entre Outubro de 2010 e Junho de 2013, o número de casais desempregados inscritos nos centros de emprego aumentou mais de 688%. De 1530 a 12.065. Em 2010, 564.354 crianças perderam o direito ao abono de família. Na despesa do Estado os abonos passaram de 826.709 milhões em 2010, para 555.497 milhões em 2011, 532.105 em 2012.

Os beneficiários do RSI com crianças a seu cargo, recebiam 93,59 euros mensais em 2009, descerão para 53,44. Como foram alterados os escalões, já só têm direito ao RSI os detentores dum rendimento mensal inferior a 463,17 euros.

O leitor não fica impressionado?

A UGT desconhece esta realidade? Não acredito.

Parece que vai haver um plano governamental para o aumento de crianças por casal em idade fértil. Mas onde está a idade fértil deste país, já que aumenta o volume de emigração dos quadros, que são a gente nova? Se o desemprego jovem é cada vez maior, se os jovens hoje vivem mais tempo em casa dos pais, se são os avós através das suas reformas a possibilitarem a cada vez mais escassa sobrevivência dos milhares e milhares de desempregados, sem nenhuma perspectiva de voltaram a um emprego que lhes garanta um presente com dignidade e um futuro possível, como vão nascer mais crianças, se este governo, através do Ministério da Segurança Social, cada vez elimina a possibilidade, já não de futuro, mas da própria sobrevivência.

A UGT bate palmas a Passos Coelho.

Admira-se o leitor?

Não é a UGT uma central sindical nascida para ser alternativa à CGTP, porque esta era dominada pelo PCP, e aquela viria defender a democracia e o pluralismo sindical? Sempre ao lado dos trabalhadores, optando pelo diálogo com o patronato, com o governo, na defesa dos interesses dos primeiros? E no seu discurso, o seu secretário-geral não se esqueceu de o referir, como objectivo final, aplaudindo a estabilidade social encontrada nos últimos anos?

Nem o BES, de que era funcionário, lhe causou a menor dúvida da seriedade das negociações tripartidas entre as associações patronais, o governo e a sua central sindical? Nem o descaminho dos milhões, duma forma puramente legal, por quem faz as leis, com o objectivo da distribuição dos rendimentos para enriquecimento dos grupos económicos que controlam o poder político através dos seus quadros mais qualificados, transformados em militantes partidários, deputados, administradores, juristas, advogados, magistrados, militares, quadros associativos e sindicais, técnicos superiores, boys às ordens, lhe causam engulhos ao seu sindicalismo?

Não há médicos nos hospitais. Os centros de saúde encerram. Não há professores ainda para todos os alunos. Não há reformas para centenas de milhares de portugueses. Não há comida em muitas casas. Aumentou em avalanche os portugueses que perderam as suas casas, ou não têm qualquer forma de pagar as rendas (que aumentam), a electricidade (que aumenta) o gás (que aumenta), a água (que aumenta), porque dum momento para o outro se viram casal com dois vencimentos transformados em desempregados de longa duração, sem quaisquer direitos. Não há centros de 3ª Idade para os mais velhos, infantários para os que nasceram. O interior é um deserto, nem foi necessário novo terramoto para as ruínas que nos cercam, como uma mensagem do passado pobre para um futuro estéril. O litoral é uma aberração, sem pesca nem indústria, apenas turismo urbanístico e golfe para os novos colonizadores, cidades sem pulmão, onde é mais-valia a sobrevivência quotidiana, sem outro objectivo alternativo.

O empobrecimento do país é notório, garante Cunha e Sá, na TV cabo.

Na RTP, SIC, TVI, os noticiários são outra coisa, no intervalo entre os programas dos anúncios e os concursos da desvergonha absoluta em que se transformou, para servir quem? Os canais generalistas televisivos. A indignidade, a impunidade, a mentira, a degradação campeiam, tudo em nome duma coisa que já nem acredito que verdadeiramente exista em Portugal: democracia.

A UGT desconhece?

Não me admira nada. Daí que considere normal que receba com aplausos Passos Coelho. Ou Portas. Ou Relvas. Ou Santana Lopes. Ou Durão Barroso. Ou Ricardo Salgado. Ou a Troika. Ou etc.

30 de Outubro de 2014
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António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt

Actualizado em ( Quinta, 30 Outubro 2014 10:47 )  

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