o riachense

Domingo,
18 de Agosto de 2019
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Não tinha defesa possível

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por Carlos Tomé

Às vezes não usava boné para não despentear a poupa a imitar o Costa Pereira, mas mesmo contra o sol mandava voos extraordinários e ia lá acima dar uma palmada à bola quando o golo era mais que certo. Dizia a má-língua que eram defesas para a fotografia, mas isso era falso porque ninguém tirava fotografias a um jogo de futebol. Invejas. Alberto Barbeiro era o melhor guarda-redes da região e um verdadeiro símbolo do Atlético. É claro que beneficiava da vantagem de não ter atrás de si aqueles cachopos insuportáveis arregimentados pelo Zé Paula a troco de rebuçados a fazerem uma chinfrineira dos diabos que tornavam a vida dos guarda-redes adversários num autêntico inferno. Mas isso não lhe retirava o mérito. 
 
A fama do Alberto Barbeiro era tão grande que se deixasse passar pelo meio das pernas uma bola atrasada por um defesa, a malta dizia logo em uníssono “não tinha defesa possível” imitando a frase de honra do grande guarda-redes. E se calhar por causa dessas e doutras é que os maldosos lhe deram o epíteto de Alberto dos Frangos, mas desses não reza a história. Qual Yachin qual carapuça, equipado a preceito, Alberto Barbeiro punha a um canto o aranha negra russo. E quando voava ninguém o agarrava. Tão grande foi a estirada no início daquele jogo para tentar agarrar uma bola que ia ao cantinho, que o Alberto ergueu-se nos ares e voou com a leveza do jiquiri em voo picado, ultrapassou as linhas do campo, passou por cima do muro do Campo da Raposa, e foi estatelar-se mesmo em frente ao Manel Pé Leve que vinha a entrar e que gritou de imediato “insiste, insiste” pensando que o grande guarda-redes estava a fazer exercícios de aquecimento. 
 
Naquela noite o ringue ia estar com lotação esgotada e o Fernando Conde já estava no Central em compasso de espera à espera da restante equipa. Como era o guarda-redes, Mário Boneco era o mais desgraçado pois tinha que carregar os patins, joelheiras, caneleiras, cotoveleiras, luvas, máscara e stick. Antes do desafio começar aqueles jogadores de hóquei já levavam a canseira de terem que alombar com o material. Mas o jogo era um prazer. A estes juntava-se o Esticadinho, o Fernando Marques, o Carlos Serra e o Victor do Stand. E formavam a melhor equipa de hóquei que alguma vez pisou o cimento do ringue do Centro Paroquial mandado construir pelo Padre Custódio, também conhecido por Padre Lagartixa, vá-se lá saber porquê. Eram os artistas dos patins, brilhantes em tudo, só não tinham a graciosidade da patinadora Quina que encantava multidões, mas de resto eram iguais. Toda a equipa queria imitar o Livramento, o Adrião, o Rendeiro e o Ramalhete. E às vezes até conseguiam como daquela vez em que o Fernando Conde driblou três adversários que nunca tinham andado de patins, passou com o stick rente ao nariz do capitão que o obrigou a parar como se estivesse em frente ao sinaleiro maneta da Golegã, espetou uma sticada ao guardião adversário que sofria de hemorróidas e por isso não se podia agachar nem viu, malditas cataratas, a bola de alcatrão a beijar as redes empurrada pela habilidade do Livramento. Foi um golaço. Não tinha defesa possível.
 
O feito foi comemorado efusivamente por toda a equipa de tal modo que o Esticadinho lançou o stick ao ar com tanta força que este apanhou em cheio o azarento guarda-redes da equipa adversária, arranhou a fachada do árbitro que não tinha marcado um penalti clarinho a favor da equipa da casa, sobrevoou o ringue, deitou abaixo um rajá que um cachopo lambuzava deliciado e foi atingir a cabeçorra de um apoiante da equipa adversária que lhe fez um galo de todo o tamanho de tal modo que ainda hoje quando a ave canta de manhã o desgraçado até se encolhe com medo que outro stick lhe caia em cima. Ficou traumatizado para o resto da vida.
 
Na barbearia do Alberto Barbeiro havia toda a sorte de leitura, A Bola, O Século, Diário de Notícias, Diário Popular mas também revistas como a Plateia e a Flama. Mas o que os clientes procuravam à socapa, assim como quem não queria a coisa, eram as revistas mais requisitadas da época e que estavam escondidas. A Gaiola Aberta do José Vilhena, as artísticas como a Playboy ou as mais ousadas como a Gina de autor desconhecido eram as mais requisitadas pela freguesia entre um corte de cabelo e uma barba. 
 
Depois de proporcionar a boa leitura e de escanhoar um cliente na perfeição, o Alberto fazia o troco no Central por uma imperial fresquinha porque o manejo da tesoura dava umas securas dos diabos, quando entra o Meio Litro, o Joaquim Malóis, o Manel da Patrícia, o Mário Barroso, o Marzia, o Zé Perra e o Mário Pescador, notáveis craques do Atlético. Pronto, estava a tarde entornada. Na barbearia os clientes faziam uma bicha que já ia a chegar ao café do João Sousa à espera do Alberto, mas não havia quem conseguisse impedir a troca de galhardetes e o desafio animado dos gloriosos artistas da bola à pala de imperais e de muitas histórias deliciosas. 
 
Quando o Alberto Barbeiro decidia ir aviar os fregueses nunca lhe aparecia nenhum a querer fazer a barba. Vá-se lá saber porquê. Era um mistério. Havia até quem dissesse que o Alberto era exímio a escanhoar com um copo a mais e que a navalha de barbear deslizava com maior suavidade pelos gasganetes dos fregueses, como faca em manteiga no Verão. Mas isso nunca se provou. Nunca houve garganta que se atrevesse a tal.  
 
Actualizado em ( Quarta, 12 Novembro 2014 12:40 )  
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