o riachense

TerÁa,
19 de Setembro de 2017
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Pedro Barroso

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400 metros barreiras

Memórias (2)

Nas gavetas da memória descerei hoje mais fundo. 

Quando se atinge idade, alcan√ßa-se tamb√©m o direito de lembrar mais longe. J√° fomos a muito s√≠tio, j√° vivemos muitas experi√™ncias, j√° tivemos muitos amigos. J√° tivemos muitos modos de passar o tempo. Por isso hoje n√£o vou falar-vos de corridas em aeroportos, nem contar epis√≥dios acontecidos em palcos ou em estadias ligadas √† vida de m√ļsico. Irei ainda mais atr√°s.

H√° muito, muito tempo - h√° cerca de quarenta anos e uns setenta quilos atr√°s - era eu um jovem desportista que gostava de Atletismo e treinava num clube ainda hoje com viva projec√ß√£o, conhecido como CDUL, ou, mais precisamente ‚Äď Clube Desportivo Universit√°rio de Lisboa.¬†

√Č um clube maioritariamente de estudantes, tranquilo, que na altura se dedicava exclusivamente, tanto quanto recordo, √† Esgrima, ao Atletismo, ao voleibol, ao Basquetebol e especialmente ao Rugby. Leque reduzido de modalidades mas com um capital enorme de charme e simpatia. E umas instala√ß√Ķes muito agrad√°veis, frente ao Hospital de Santa Maria em Lisboa, entre amplos relvados, v√°rios campos de r√Ęguebi, uma extensa mata e aristocr√°tico arvoredo.

Os treinadores de Atletismo eram o Prof. Jo√£o Coutinho ‚Äď depois c√©lebre comentador de Basquetebol na TV, que veio a ser meu colega muitos anos como professor, no Liceu de S. Jo√£o do Estoril e infelizmente, recentemente desaparecido - e o Prof. Eduardo Cunha.¬†

Aos fins de tarde, a partir dos meus treze, catorze anos ‚Äď uma vez descoberta uma certa queda para a velocidade pura ‚Äď desenfiava-me e l√° ia eu treinar, sempre que podia. Era um mi√ļdo entroncado e com as pernas curtas, mas com jeito e ouvido para partir ao tiro e muito r√°pido nos primeiros cinquenta metros. Depois...ia andando para tr√°s. Mas, mesmo assim, ainda cheguei a internacional juvenil, isto para que saibam de tal inutilidade e eu, enfim, me possa gabar de alguma coisa, em nome de uma fisicidade que perdi. Oh, se perdi. Hoje o corpo inventa-me um achaque a cada dia. Mas adiante.

O tartan ainda n√£o existia. Corria-se em ‚Äútarterra‚ÄĚ, como n√≥s diz√≠amos. Com a curiosidade da pista de atletismo no Est√°dio Universit√°rio, onde trein√°vamos, ser negra, o que nos tornava numa esp√©cie de primos do carvoeiro no fim dos treinos, e nos enchia de lama preta no Inverno.

Fazer atletismo por amor era o lema. Hoje o dinheiro invadiu tudo. Mas ali eram outros tempos e outra mentalidade. Mais novo, lembro-me de alguns personagens da minha idade ou ligeiramente mais velhos que por l√° apareciam, hoje conhecidos noutras √°reas, incluindo ministros e o mais que se ver√°...

Relembraria por exemplo o velocista e barreirista, hoje seleccionador nacional, Prof Abreu Matos que era o mais baixo barreirista da hist√≥ria do atletismo nacional e que foi, contudo, internacional; homem rapid√≠ssimo a valer 10.6 nos 100 metros planos. Tudo isto em ‚Äútarterra‚ÄĚ, pois s√≥ mais tarde aparecem as primeiras pistas de tartan em Alvalade e depois no Est√°dio Nacional.

Outro barreirista de vulto, internacional em muitos encontros, era o Alberto Matos, um negro muito alto e magro, sempre vestido impecavelmente, dado √†s dan√ßas de sal√£o e √† namoriscadela. Um dandy, elegant√≠ssimo no gesto de passar barreiras altas, sempre na sombra, pela cr√≥nica supremacia do Comura Imbo√°, do Benfica, que era o n√ļmero um cr√≥nico de Portugal nos 110 metros barreiras. Hoje √© empres√°rio de constru√ß√£o civil no Algarve e, de vez em quando, l√° nos vemos, em Ferragudo. Continua igual - negro, alto, dandy, elegante, simp√°tico, √°gil. Tivesse eu de tal eleg√Ęncia exemplo...

Mas outro barreirista aparecia de vez em quando. Era um rapaz, bom estudante de Económicas e Financeiras - que era como aquilo se chamava dantes - e que, quando podia, ia treinar. Irregular na assiduidade, sempre condicionado ao seu calendário académico. Bolsas em Inglaterra, idas ao Algarve para ver a família, exames, enfim, a irregularidade nos treinos reflectia-se no seu rendimento, claro. E tudo isso enfurecia o professor Coutinho, que via nele qualidades evidentes como atleta. 

Um dia, magro e pernalta como era, quis o professor que ele experimentasse as barreiras baixas; isto √©, queria que o jovem experimentasse os 400 metros barreiras. Para isso - numa bela tarde em que eu estava presente a cumprir outro programa de treino - puseram-se as barreiras nas marca√ß√Ķes da pista, que constavam incrustadas na pedra da corda, para n√£o haver medi√ß√Ķes nem d√ļvidas. Deixou-se uma pista vaga para o desgra√ßado sofrer o castigo. E pronto. Vamos l√° experimentar.

Correr 400 metros j√° √© um sufoco do princ√≠pio ao fim e costuma dizer-se na g√≠ria que √© ‚Äúpartir a matar e chegar a morrer‚ÄĚ... Agora... Com barreiras a obrigar a passo certo no espa√ßo entre elas... Calcula-se o frete! Um indiv√≠duo vai cansado, mas n√£o pode diminuir o ritmo, nem alterar o n√ļmero par de passadas, sen√£o chega com as pernas trocadas √† pr√≥xima barreira...e j√° n√£o lhe d√° jeito saltar!... Complicado!

O jovem esforçava-se. Mas as passadas certas entre barreiras nunca aconteciam. Nunca dava espaço. Trocava o pé de chamada, dava uma passada a mais ou a menos e tinha de parar... Mais uma tentativa, outra atrapalhação. O homem corria bem e saltava muito bem, era alto, seco, esguio e enérgico. Já o tinha visto treinar a saltar barreiras altas, mas naquele dia, a adaptação aos 400 m barreiras - disciplina altamente técnica, é certo - estava a ser difícil. O professor já brincava com ele e dizia-lhe: 

‚Äú- Ent√£o voc√™ √© um economista e n√£o sabe contar?‚ÄĚ

Ele amuava e l√° partia outra vez. At√© que, ao fim da terceira ou quarta tentativa, quando, uma vez mais, desacertou o n√ļmero de passadas no espa√ßo interm√©dio e se esbarrou na barreira seguinte, rebentado e chateado com a experi√™ncia gritou:

‚Äú- Professor! √Č imposs√≠vel! Eu contei bem! J√° sei o que √©! As barreiras que est√£o mal colocadas!‚Ä̬†

O professor riu-se:

‚Äú- Voc√™ ‚Äėt√° mas √© maluco! Ent√£o n√£o estivemos os dois a p√ī-las com todo o cuidado nas marca√ß√Ķes?!‚ÄĚ

Resposta pronta do economista-barreirista:

‚Äú- Olhe! Ent√£o isto est√° tudo mal marcado e mal medido!‚ÄĚ

Risota geral no treino. Até eu, que era mais puto, achei piada à desculpa esfarrapada. A culpa era da pista. Ele é que estava certo, de certeza.

O promissor atleta, de seu estranho nome An√≠bal Cavaco, j√° nessa altura, nunca se enganava e raramente tinha d√ļvidas.

 

Actualizado em ( Quinta, 13 Novembro 2014 11:18 )  

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