o riachense

TerÁa,
23 de Abril de 2019
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Artistas de artes v√°rias

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por Carlos Tomé

O homem vinha a andar devagar, gordo e anafado, as pernas muito inchadas, num ombro trazia pendurado um casaco co√ßado mais velho que a sarda e no outro carregava um saco de serapilheira. As cal√ßas tinham chapas nos fundilhos e estavam presas √† cintura com um bara√ßo. Uma boina no alto do toti√ßo completava a indument√°ria. Parou no terra√ßo do Central e a conversa n√£o tardou. ‚ÄúAt√£o quando encontrei os tr√™s marinheiros no Cais do Sodr√© armei um p√©-de-vento do camandro, amandei-lhes um sopapo t√£o grande que at√© avoaram direito ao Tejo num abrir e fechar de olhos. At√© zuniam. Foi um banho e p√™ras. E os gajos nem sabiam nadar. Eram uns marinheiros espertos como o raio. Zzta. Ouve l√°, arranja a√≠ uma coroa para eu comer uma bucha‚ÄĚ dizia o Zez√£o no meio de um relat√≥rio recheado de fa√ßanhas de fazer tremer o mais corajoso dos rapazolas que o ouviam deliciados. As hist√≥rias do fiz e aconteci que recheavam uma vida algo imagin√°ria e aventurosa do Zez√£o eram ali escarrapachadas como num livro aberto. Mas quando os cachopos n√£o queriam fazer alguma coisa eram amea√ßados pelas m√£es de que vinha l√° o Zez√£o. O medo instalava-se e era rem√©dio santo. N√£o havia teimosia de cachopo que resistisse a tamanha amea√ßa. Afinal, ao contr√°rio do que rezava a hist√≥ria, o Zez√£o n√£o metia medo nenhum, era apenas uma personagem de um filme de aventuras bem real que ele coloria √† sua vontade.
 
Quando os cachopos passavam perto do Caf√© do Jo√£o Sousa ou do Central e viam o Palmeta nenhum resistia a gritar ‚Äú√≤ Palmeta olar√© Palmeta‚ÄĚ. Claro que o Palmeta desfazia-se em asneiras e brandia os punhos, mas isso fazia parte do jogo. Nunca ningu√©m soube por que raz√£o √© que os cachopos faziam isso nem por que √© que o Palmeta reagia assim. Naquela noite, como de costume, o Palmeta ia comprar ao Central um ma√ßo de Provis√≥rios, mas o Carca√ßa, amigo de pequenas tram√≥ias, j√° tinha preparado um cigarro retirando o tabaco e enchendo-o com cabe√ßas de f√≥sforos. No fundo, fez de um Provis√≥rio um verdadeiro explosivo. Ofereceu-o ao Palmeta e insistiu ‚Äúchupa Palmeta, chupa‚ÄĚ e o Palmeta fazia-lhe o gosto inspirando com toda a for√ßa at√© atear o rastilho e causar a explos√£o. Tanta foi a fumarada provocada pela explos√£o e tantos os improp√©rios atirados pelo Palmeta, embora s√≥ se percebesse ‚Äúcabr√Ķes, cabr√Ķes‚ÄĚ, que quando saiu porta fora a correr, havia gente que queria chamar os bombeiros pensando que o Central estava a arder.
 
√Ä tarde, tinha chegado ao terra√ßo do Central exibindo uma gaiola com dois lustrosos can√°rios vermelhos. ‚ÄúOlhem aqui para esta maravilha. Um casal de can√°rios que ando a criar h√° meses. S√£o de uma ra√ßa muito rara que s√≥ existe l√° para os Brasis. Cantam que √© uma categoria e se forem bem ensinados at√© cantam o hino nacional‚ÄĚ apregoava o Micas que era uma esp√©cie de vendedor de banha da cobra. A fama do Micas vinha de longe como o Sandeman. Era um pilha galinhas de estima√ß√£o, algu√©m de quem se gostava e a quem tudo se perdoava porque a vida para ele s√≥ tinha jeito ser vivida se fosse colorida.¬†
 
Mas como o Micas precisava de ganhar umas coroas, porque l√° em casa j√° n√£o entrava um tost√£o h√° que tempos, foi ter com o Manel da Arrequeixada e mostrou-lhe o casal canoro. A pr√©dica foi de tal eloqu√™ncia misturada com muita lata, que este n√£o conseguiu resistir aos argumentos do vendedor. E o Micas adjudicou logo ali o casal de can√°rios vermelhos com gaiola e tudo ao Manel que se queixava de, na noite anterior, lhe terem roubado um casal de can√°rios amarelos. Mal sabia ele que tinha acabado de comprar o seu pr√≥prio casal de can√°rios que o Micas lhe tinha surripiado na noite anterior. E o √ļnico trabalho que o Micas teve foi dar uma dem√£o de tinta vermelha aos p√°ssaros. Para o Micas, a vida era mesmo muito colorida.
 
Diziam que entrava em casa de pessoas amigas, ia direito ao galinheiro, esticava o bigode e com um gesto magn√Ęnime punha as galinhas a dormir. Toda a gente comentava o feito. Alguns mais incr√©dulos quanto aos poderes sobrenaturais do Professor Amba diziam ‚Äúisso tamb√©m eu fa√ßo, a galinha √© o bicho mais est√ļpido ao de cimo da terra‚ÄĚ. Mas ningu√©m alguma vez viu uma dessas almas cr√≠ticas a fazer adormecer o Rei do Sono, um c√£o que estava sempre deitado no Largo a bater sorna durante todo o dia e que tinha o nome mais bem atribu√≠do de sempre, quanto mais o bicho galinha. O Professor Amba era um artista de variedades, especialista no ramo do hipnotismo. Qualquer um que se atravesse a desafiar os poderes do m√°gico, arriscava-se a ficar a dormir de repente sem saber ler nem escrever e a transformar-se no mais caricato dos seres.¬†
 
Nessa tarde, o Professor arranjou maneira de p√īr um caro a andar sozinho da igreja ao Central e at√© apitava e tudo. Era um aut√™ntico acontecimento mundial. Um carro a andar sozinho, um Mini sem chofer. Coisa nunca vista, coisa do diabo. Como era poss√≠vel? A multid√£o fazia tanto barulho que at√© assustava o an√£o do Outeiro que se escondia encolhido entre o volante e os pedais da embraiagem. √Ä noite, no espect√°culo da Casa do Povo, em pleno Inverno, o Professor p√īs quatro corajosos volunt√°rios, que n√£o acreditavam nos seus poderes, a pescar no Almonda no meio do palco e a despirem-se todos at√© ficarem em cuecas, porque, dizia o hipnotizador, ‚Äúestava um calor do cara√ßas‚ÄĚ. Foi uma risada geral. O caso foi falado em todo o lado e passados seis meses os corajosos volunt√°rios ainda se escondiam em casa para fugirem ao achincalhamento p√ļblico. A partir da√≠ at√© os mais teimosos incr√©dulos evitavam encontrar o hipnotizador com medo da figura triste que podiam vir a fazer.
 
Actualizado em ( Quarta, 26 Novembro 2014 11:55 )  
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