o riachense

Quinta,
15 de Novembro de 2018
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Artistas de artes várias

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por Carlos Tomé

O homem vinha a andar devagar, gordo e anafado, as pernas muito inchadas, num ombro trazia pendurado um casaco coçado mais velho que a sarda e no outro carregava um saco de serapilheira. As calças tinham chapas nos fundilhos e estavam presas à cintura com um baraço. Uma boina no alto do totiço completava a indumentária. Parou no terraço do Central e a conversa não tardou. “Atão quando encontrei os três marinheiros no Cais do Sodré armei um pé-de-vento do camandro, amandei-lhes um sopapo tão grande que até avoaram direito ao Tejo num abrir e fechar de olhos. Até zuniam. Foi um banho e pêras. E os gajos nem sabiam nadar. Eram uns marinheiros espertos como o raio. Zzta. Ouve lá, arranja aí uma coroa para eu comer uma bucha” dizia o Zezão no meio de um relatório recheado de façanhas de fazer tremer o mais corajoso dos rapazolas que o ouviam deliciados. As histórias do fiz e aconteci que recheavam uma vida algo imaginária e aventurosa do Zezão eram ali escarrapachadas como num livro aberto. Mas quando os cachopos não queriam fazer alguma coisa eram ameaçados pelas mães de que vinha lá o Zezão. O medo instalava-se e era remédio santo. Não havia teimosia de cachopo que resistisse a tamanha ameaça. Afinal, ao contrário do que rezava a história, o Zezão não metia medo nenhum, era apenas uma personagem de um filme de aventuras bem real que ele coloria à sua vontade.
 
Quando os cachopos passavam perto do Café do João Sousa ou do Central e viam o Palmeta nenhum resistia a gritar “ò Palmeta olaré Palmeta”. Claro que o Palmeta desfazia-se em asneiras e brandia os punhos, mas isso fazia parte do jogo. Nunca ninguém soube por que razão é que os cachopos faziam isso nem por que é que o Palmeta reagia assim. Naquela noite, como de costume, o Palmeta ia comprar ao Central um maço de Provisórios, mas o Carcaça, amigo de pequenas tramóias, já tinha preparado um cigarro retirando o tabaco e enchendo-o com cabeças de fósforos. No fundo, fez de um Provisório um verdadeiro explosivo. Ofereceu-o ao Palmeta e insistiu “chupa Palmeta, chupa” e o Palmeta fazia-lhe o gosto inspirando com toda a força até atear o rastilho e causar a explosão. Tanta foi a fumarada provocada pela explosão e tantos os impropérios atirados pelo Palmeta, embora só se percebesse “cabrões, cabrões”, que quando saiu porta fora a correr, havia gente que queria chamar os bombeiros pensando que o Central estava a arder.
 
À tarde, tinha chegado ao terraço do Central exibindo uma gaiola com dois lustrosos canários vermelhos. “Olhem aqui para esta maravilha. Um casal de canários que ando a criar há meses. São de uma raça muito rara que só existe lá para os Brasis. Cantam que é uma categoria e se forem bem ensinados até cantam o hino nacional” apregoava o Micas que era uma espécie de vendedor de banha da cobra. A fama do Micas vinha de longe como o Sandeman. Era um pilha galinhas de estimação, alguém de quem se gostava e a quem tudo se perdoava porque a vida para ele só tinha jeito ser vivida se fosse colorida. 
 
Mas como o Micas precisava de ganhar umas coroas, porque lá em casa já não entrava um tostão há que tempos, foi ter com o Manel da Arrequeixada e mostrou-lhe o casal canoro. A prédica foi de tal eloquência misturada com muita lata, que este não conseguiu resistir aos argumentos do vendedor. E o Micas adjudicou logo ali o casal de canários vermelhos com gaiola e tudo ao Manel que se queixava de, na noite anterior, lhe terem roubado um casal de canários amarelos. Mal sabia ele que tinha acabado de comprar o seu próprio casal de canários que o Micas lhe tinha surripiado na noite anterior. E o único trabalho que o Micas teve foi dar uma demão de tinta vermelha aos pássaros. Para o Micas, a vida era mesmo muito colorida.
 
Diziam que entrava em casa de pessoas amigas, ia direito ao galinheiro, esticava o bigode e com um gesto magnânime punha as galinhas a dormir. Toda a gente comentava o feito. Alguns mais incrédulos quanto aos poderes sobrenaturais do Professor Amba diziam “isso também eu faço, a galinha é o bicho mais estúpido ao de cimo da terra”. Mas ninguém alguma vez viu uma dessas almas críticas a fazer adormecer o Rei do Sono, um cão que estava sempre deitado no Largo a bater sorna durante todo o dia e que tinha o nome mais bem atribuído de sempre, quanto mais o bicho galinha. O Professor Amba era um artista de variedades, especialista no ramo do hipnotismo. Qualquer um que se atravesse a desafiar os poderes do mágico, arriscava-se a ficar a dormir de repente sem saber ler nem escrever e a transformar-se no mais caricato dos seres. 
 
Nessa tarde, o Professor arranjou maneira de pôr um caro a andar sozinho da igreja ao Central e até apitava e tudo. Era um autêntico acontecimento mundial. Um carro a andar sozinho, um Mini sem chofer. Coisa nunca vista, coisa do diabo. Como era possível? A multidão fazia tanto barulho que até assustava o anão do Outeiro que se escondia encolhido entre o volante e os pedais da embraiagem. À noite, no espectáculo da Casa do Povo, em pleno Inverno, o Professor pôs quatro corajosos voluntários, que não acreditavam nos seus poderes, a pescar no Almonda no meio do palco e a despirem-se todos até ficarem em cuecas, porque, dizia o hipnotizador, “estava um calor do caraças”. Foi uma risada geral. O caso foi falado em todo o lado e passados seis meses os corajosos voluntários ainda se escondiam em casa para fugirem ao achincalhamento público. A partir daí até os mais teimosos incrédulos evitavam encontrar o hipnotizador com medo da figura triste que podiam vir a fazer.
 
Actualizado em ( Quarta, 26 Novembro 2014 11:55 )  
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