o riachense

Sexta,
30 de Setembro de 2022
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António Mário Lopes dos Santos

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Um concelho em bancarrota?

Passei a tarde, entre o computador e a televisão. No computador vou tentando, há já muito, mas mesmo muito tempo, rumar contra a desmemória de várias gerações, procurando cerzir no presente a rede de Penélope do passado. 

A televisão agride-me - sou masoquista, confesso - com as sessões em directo da família Espírito Santo, onde os deputados de todos os partidos procuram não só mostrar serviço, como marcar pontos pessoais numa carreira política. Mas, num salto às informações, a sensação que me fica é a inutilidade prática de tais inquirições, num país em que se arquiva, porque as leis mandam, a maioria dos processos que cheire a alpista de político, ou de banqueiro, ou de administrador, ou de alto funcionário do cofre dos segredos da governação. Já não tenho idade para ser ingénuo, restringi a um grupo muito estreito as relações perduráveis da amizade, dou de barato o voluntariado dos meus contemporâneos, verifico que a minha cidade e concelho se tornam cada vez mais o mundo que ainda me fazem mexer as cordas cardíacas, vou cedendo a cada dia que passa ao espanto aturdido do peso da idade, mais reflexivo que activo, mas atento à dinâmica dos mais jovens, às suas angústias, medos, indecisões, mas também à sua criatividade, desejo de futuro, formas de intervenção. 

Mas este país sempre foi contra a cultura, este povo sempre a considerou marginal à sua educação e modo de vida, a arte sempre foi substituída na sensibilidade colectiva por formas de manipulação de consciência, que o tornou egoísta, invejoso, resignado à escassez, fatalista por muitos séculos de servilismo e exploração. 

Temo que a juventude siga, nas formas de consciência crítica que a democracia lhe proporciona, caminhos longe da peregrinação do eu na sua consciência de si. 

Os números de abandono escolar, em contraste com os da Comunidade Europeia, não são brilhantes, o desinteresse pela aprendizagem cresce de forma assustadora, num país em que a educação, como a medicina, públicas, são encaradas governamentalmente como elementos perniciosos ao desenvolvimento do mercado de mão-de-obra barata em que o poder político dos partidos do arco da governação vai limitando este pais. 

Bastou saber que o caso dos submarinos foi, pela justiça, arquivado, para perceber que o caso BES, como o BPN, como o BCP, como tudo o que cheira a malas de dinheiro a caminho da caverna dos ladrões de Ali Babá que foi, tanto para os nazis, como para políticos e financeiros portugueses - o baralho de cartas do Tarot mais viciado que conheci - tão saudosos do período da colonização, como das festas do Patiño, ou da segurança que lhes dava a Pide/Dgs na defesa da sua posse da Pátria, os caminhos dos off-shores dos paraísos fiscais e da banca suíça, onde escondiam o que roubavam a um povo que trocou em toda a sua história a dignidade pela subserviência da fé, a ideia duma pátria colectiva pela fome duma hipotética riqueza de meia dúzia de patacos em troco duma obediência acrítica. 

Cresceu em mim, infelizmente, o cepticismo, com estes anos de chumbo que trouxeram a este país tribos de políticos que, acima de tudo, procuraram enriquecer antes de tudo o mais, sob a protecção duma justiça que cumpre o que os primeiros legislam, com a bênção duma Europa cada vez mais vergada ao peso duma política de amplas desigualdades sociais e abandono dos princípios de igualdade dos direitos humanos.

Na minha frente uma fotografia publicada no Jornal Torrejano de 12 de Dezembro, sobre a inauguração do parque de estacionamento do Parque Almonda. Com um contrato de concessão até 2031,mas em risco - pelas normas contratuais que o executivo camarário socialista aprovou - de poder ser rescindido, com um pedido de indemnização de 3 milhões. Aqueles rostos, aquele espaço, cabem no meu profundo desengano ante os valores da democracia, ante uma cidade que deixou de ser vila para se tornar num dormitório, com uma periferia abandonada à turbulência dos apetites partidocráticos de meninos de gravata a forjar destinos de populações em gabinetes climatizados, em restaurantes seleccionados, onde ainda por cima as despesas são pagas por quem nunca os frequentou. 

Uma fotografia que sintetiza o país a que chegámos. Como exclamou, perplexa, a vereadora do Bloco de Esquerda, Helena Pinto: «se a câmara tiver de pagar é a bancarrota».A Câmara? Ou o povo? É que na fotografia parecem-me estar os responsáveis. Porque seremos nós, cidadãos, a pagar a factura? É mais uma história de submarinos que a Justiça portuguesa arquivará, como tantas centenas de processos que cheirem a desígnios dos representantes partidários com muitos advogados às ordens. Lamento que a minha dúvida seja uma certeza anunciada.


18 de Dezembro de 2014
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António Mário escreve sempre às quintas-feiras em www.oriachense.pt

Actualizado em ( Quinta, 18 Dezembro 2014 13:01 )  
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